O filho

Jo Nesbo · Capítulo 44 de 44

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O filho

Epílogo

 

 

Os flocos de neve pareciam ascender de um céu sem cor nem fundo, e colavam-se em um teto de asfalto, calçada, carros e casas.

Kari estava curvada nas escadas e acabara de amarrar os cadarços das botas, enquanto olhava para a rua de cabeça para baixo, por entre as pernas. Simon tinha razão. É possível ver coisas novas quando se muda a perspectiva e o lugar onde se está. Os pontos cegos podem ser compensados. Ela precisara de muito tempo para compreender isso. Compreender que Kefas tinha razão sobre muitas coisas. Não tudo, mas sobre tantas coisas que chegava a ser irritante.

Ergueu-se.

— Tenha um bom-dia, querida — disse a garota à porta, e deu um beijo na boca de Kari.

— Você também.

— Polir o piso não é bem minha definição de um bom dia, mas vou tentar. Que horas você volta?

— Na hora do jantar, a não ser que algo aconteça.

— Bom, mas parece que algo acabou de acontecer.

Kari se virou na direção em que Sam apontou. O carro que estacionou em frente ao portão era conhecido, e o rosto na janela lateral abaixada, mais ainda.

— O que foi, Åsmund? — gritou Sam, de dentro da casa.

— Desculpe por interromper a reforma, mas preciso pegar sua garota emprestada — rebateu o inspetor. — Aconteceu uma coisa.

Kari olhou para Sam, que lhe deu um tapa onde ficava o bolso traseiro da calça jeans. Kari pendurara a saia e o blazer no armário durante o outono e, por algum motivo, eles permaneceram lá.

— Vá lá trabalhar para o povo, querida.

Enquanto os dois dirigiam seguindo para o leste na E18, Kari olhava para a paisagem coberta de neve. Pensou em como a primeira neve era sempre uma linha divisória, escondendo tudo o que estivera lá antes, mudando o mundo que se via. Os primeiros meses após os tiroteios em Aker Brygge e na igreja foram caóticos. Houvera, obviamente, muitas críticas à polícia, à brutalidade e à missão raivosa de um homem só. Mas mesmo assim Simon tivera um velório digno; ele era o tipo de policial de que o povo gosta, alguém que lutara contra os criminosos da cidade e oferecera sua vida a serviço da justiça. Por isso, Parr disse que fariam vista grossa para o fato de não ter seguido o manual à risca. Aliás, nem as leis. De qualquer forma, Parr tinha motivos para mostrar certa tolerância, pois ele mesmo atuara no limite da legislação fiscal norueguesa, pois colocara parte do próprio dinheiro em fundos anônimos nas Ilhas Cayman. Kari o confrontara com essa informação durante o velório, pois sua investigação do pagamento das contas de gás e de luz da casa dos Lofthus levara ao nome dele. Parr confessou de forma incondicional; apenas acrescentou que não infringira nenhuma lei, e que seu motivo tinha sido nobre: aliviar um pouco da própria consciência pesada por não ter cuidado de Sonny nem de sua mãe após o suicídio de Ab. Disse que tinha custado caro, mas que isso pelo menos significaria que o garoto teria uma casa habitável quando terminasse de cumprir sua pena.

Aos poucos, a população também se conformou com o fato de que a polícia não tinha nenhuma pista quanto ao paradeiro do Buda com a Espada. Afinal, sua cruzada parecia ter terminado após a morte de Levi Thou, codinome Gêmeo.

A visão de Else estava muito melhor agora. Quando Kari a visitou, algumas semanas após o velório, ela lhe contou que a operação nos Estados Unidos fora oitenta por cento bem-sucedida. Que nada é perfeito. Nem a vida, nem as pessoas, nem Simon. Apenas o amor.

— Ele nunca esqueceu Helene. Foi o grande amor da vida dele. — Era verão, e elas estavam sentadas em cadeiras reclináveis no jardim em Disen, bebendo vinho do Porto e vendo o sol se pôr. Kari percebera que havia algo que Else tinha decidido contar. — Ele me contou que os outros dois que tentavam conquistá-la, Ab e Pontius, eram mais inteligentes, mais fortes e mais espertos, mas que era somente ele que a enxergava como ela realmente era. É isso que era estranho em Simon. Ele enxergava as pessoas, com seus anjos e demônios. E, ao mesmo tempo, lutava contra o próprio demônio. Simon era viciado em jogos de azar.

— Ele me contou.

— Ele e Helene começaram a namorar quando a vida dele estava um caos, por causa das dívidas de jogos. O relacionamento não durou muito, mas Simon disse que ele já a estava arrastando para baixo, junto dele, quando Ab Lofthus apareceu e a salvou. Ab e Helene foram morar juntos. Simon ficou devastado. E logo depois ele soube que ela estava grávida. Ele começou a apostar feito desesperado, já havia perdido tudo e estava na beira do abismo, então foi ao Diabo e ofereceu a única coisa que ainda tinha. Sua alma.

— O Gêmeo.

— Sim. Simon era um dos poucos que sabiam quem ele era. Mas o Gêmeo nunca soube quem eram Simon e Ab, eles o informavam apenas por telefone e cartas. E, depois, por e-mail.

No silêncio que se seguiu, o zumbido do tráfego vindo da Trondheimsveien e da Sinsenkrysset as alcançara.

— Simon e eu falávamos sobre tudo, sabe? Mas, para ele, era muito difícil falar sobre isso. Sobre como vendeu sua alma. Ele dizia que talvez, no fundo, até desejasse essa vergonha, essa humilhação, o autodesprezo, que tudo isso lhe dava um torpor que amortecia a outra dor. Que era uma espécie de automutilação mental.

Ela passou a mão no vestido. Kari pensou que ela parecia muito frágil e, ao mesmo tempo, muito forte.

— Mas o pior para Simon era o que ele tinha feito a Ab. Ele o odiava, porque Ab tomara dele a única coisa valiosa que tinha. Então o levou junto para o mesmo abismo. Ab e Helene estavam com muitas dívidas quando a crise bancária começou e os juros subiram, e a única coisa que os impediria de ser despejados era dinheiro rápido. Então, depois que Simon fez o acordo com o Gêmeo, foi até Ab e lhe fez uma oferta por sua alma. De início, Ab recusou, e ameaçou denunciá-lo. Então Simon se aproveitou do calcanhar de aquiles de Ab: seu filho. Disse que era assim que o mundo real era e que seu filho é que teria que pagar o preço pelo comportamento honrado do pai, e cresceria na pobreza. Simon contou que isso tinha sido o pior de tudo, ver Ab também ser corroído por dentro e perder sua alma. Mas que isso, ao mesmo tempo, também o fizera se sentir menos solitário. Até a hora em que o Gêmeo quis o informante no topo da hierarquia policial, e não havia mais lugar para dois.

— Por que você está me contando isso, Else?

— Porque ele me pediu. Disse que isso poderia ser útil quando você fosse fazer suas escolhas.

— Ele pediu que você me contasse? Isso quer dizer que ele sabia que...

— Não sei, Kari. Ele disse apenas que via muito de si mesmo em você. Queria que você aprendesse com os erros dele como policial.

— Mas ele sabia que eu não continuaria na polícia.

— Você não vai continuar?

Os raios de sol brilharam opacos no vinho quando Else levou o copo aos lábios, bebeu cuidadosamente e o colocou de volta.

— Quando Simon se deu conta de que Ab Lofthus estava disposto a matá-lo para ser o informante, ele entrou em contato com o Gêmeo e disse que Ab precisava ser eliminado, que estava prestes a descobri-los e que era urgente. Disse que Ab e ele eram como gêmeos univitelinos que tiveram o mesmo pesadelo, que um queria matar o outro. Então Simon o matou antes que ele o matasse. Ele matou o melhor amigo.

Kari engoliu em seco. Lutou contra as lágrimas.

— Mas se arrependeu — sussurrou ela.

— É verdade, ele se arrependeu. Deixou de atuar como informante, quando poderia ter continuado. Mas depois Helene morreu também. Simon já estava no fim do caminho, perdera tudo que podia perder. Por isso não tinha mais nada a temer. Dedicou o resto da vida a fazer penitência. A fazer o bem. Começou uma caça incansável a todos que eram corruptos, assim como ele mesmo tinha sido, e dessa forma não se faz muitas amizades na polícia. Ele ficou solitário. Mas sem autopiedade, pois achava que merecia a solidão. Lembro que ele dizia que o ódio a si próprio é o tipo que se sente a cada manhã, quando você acorda e se olha no espelho.

— Foi você quem o salvou, não foi?

— Ele dizia que eu era seu anjo. Mas não foi meu amor por ele que o salvou. Ao contrário do que as pessoas que se acham espertas costumam dizer, acredito que ser amado nunca salvou ninguém. Foi o amor que ele sentia por mim que o salvou. Foi ele que salvou a si próprio.

— Porque retribuiu seu amor.

— Amém.

Elas ficaram ali até meia-noite, até Kari ir embora.

Na saída, Else mostrou-lhe uma foto. Três pessoas na frente de um montinho de pedras.

— Simon estava com essa foto no dia em que morreu. Essa aqui é ela, Helene.

— Eu vi uma foto dela na casa amarela, antes do incêndio. Eu disse para Simon que ela parecia uma cantora ou uma atriz.

— Mia Farrow. Ele me levou para ver O bebê de Rosemary só para vê-la. Embora dissesse que não via a semelhança.

A foto tocava Kari de uma maneira estranha. Era algo nos sorrisos. O otimismo. A fé.

— Vocês nunca pensaram em ter filhos?

Else balançou a cabeça.

— Ele tinha medo.

— Medo de quê?

— De que suas fraquezas fossem passadas para a frente. O gene da dependência. O apetite destrutivo pelo risco. A falta de limites. A depressão. Acho que ele tinha medo de que a criança fosse o filho do diabo. Eu o provocava, dizendo que ele tinha um filho ilegítimo em algum lugar, e que era por isso que ele tinha medo.

Kari assentiu. O bebê de Rosemary. Pensou na pequena velhinha que fazia a faxina na sede da polícia, de cujo nome Kari finalmente se lembrara.

Então Kari se despediu e saiu na noite de verão, na qual uma brisa leve — e depois o tempo — a rodopiou até pousá-la ali onde estava agora, dentro de um carro, olhando para a neve virgem e pensando em como ela modificava toda a paisagem. E em como as coisas frequentemente acontecem de forma diferente daquilo que se planeja. Como Sam e ela, que já estavam prestes a ter o primeiro filho. Como ela, para a própria surpresa, recusara uma oferta de trabalho interessante no Departamento de Justiça e, mais recentemente, um salário gordo em uma companhia de seguros.

Só quando já haviam saído da cidade e passavam pela ponte estreita e pelo caminho de cascalhos foi que ela pensou em perguntar a Åsmund do que se tratava.

— A polícia de Drammen telefonou e pediu para que viéssemos ajudá-los — contou Åsmund. — A vítima é um armador. Yngve Morsand.

— Meu Deus, é o marido.

— Sim.

— Homicídio? Suicídio?

— Não tenho nenhum detalhe.

Estacionaram atrás dos carros de polícia, passaram pelo portão da cerca de estacas e depois pela porta da grande casa. Um inspetor do distrito policial de Buskerud os recebeu, abraçou Kari e apresentou-se para Bjørnstad como Henrik Westad.

— Pode ser suicídio? — perguntou Kari enquanto entravam.

— Por que você acha isso?

— Tristeza pela morte da esposa — sugeriu Kari. — Porque suspeitavam que ele a matara, ou porque ele realmente a matou e não conseguia mais viver com a culpa.

— É possível — disse Westad, e os levou à sala de estar. O grupo de peritos praticamente rastejava por todo o corpo do homem que estava na cadeira. Como larvas brancas, pensou Kari. — Mas acho improvável.

Kari e Bjørnstad observaram o corpo.

— Puta merda — praguejou Bjørnstad, baixinho, para Kari. — Você acha que... que ele...?

Kari pensou no ovo cozido duro que comera no café da manhã. Ou talvez já estivesse grávida, será que era por isso que sentiu náusea? Afastou esse pensamento e se concentrou no corpo. Um dos olhos estava arregalado, um tapa-olho cobria o outro, e sobre o tapa-olho via-se uma borda irregular, onde o topo da cabeça tinha sido serrado.

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