O filho
Capítulo 36
Iver Iversen oscilou para a frente e para trás e balançou a haste da taça vazia de martíni. Olhou para os convidados da festa, aglomerados na varanda branca e na sala de estar. A sala era tão grande quanto um salão de baile e mobiliada de acordo com o gosto de alguém que não precisava morar lá. “Decoradores com orçamento ilimitado e talento limitado”, como Agnete costumava dizer. Os homens estavam todos de smoking, como constava no convite. O número de mulheres era bastante inferior, mas as que estavam presentes se destacavam ainda mais. Incrivelmente belas, tentadoramente jovens e de uma variação étnica interessante. Vestidos de fenda alta, costas nuas e decote profundo. Elegantes, exóticas e importadas. O tipo de beleza que é sempre raro. Iver Iversen não se impressionaria nem se alguém andasse pela sala com um leopardo-das-neves.
— Parece que todos os financistas de Oslo estão aqui.
— Só aqueles que não são muito minuciosos — disse Fredrik Ansgar, então ajeitou a gravata-borboleta e bebeu um gole do gim-tônica. — Ou que não estão em suas casas de veraneio.
Errado, pensou Iversen. Se alguém tem algum negócio não resolvido com o Gêmeo, esse alguém vem para a cidade. Porque não se atreve a não fazê-lo. O Gêmeo. Iversen olhou para o homem enorme ao lado do piano. Poderia ter sido modelo para pôster de propaganda soviética ou para as esculturas do parque Vigeland. Tudo nele era grande, sólido e bem esculpido: a cabeça, os braços, as mãos, as pernas. Testa alta, queixo consistente, lábios carnudos. A pessoa com quem ele falava era corpulenta e tinha mais de 1,80 metro, mas parecia um anão ao lado do Gêmeo. Iversen pensou reconhecê-lo vagamente. Usava um tapa-olho. Devia ser um financista importante que vira nos jornais.
Iversen pegou mais um martíni da bandeja de um dos garçons que andavam pelo local. Sabia que não deveria, que já estava bêbado, mas não se importava. Afinal, era um viúvo em luto. No entanto, sabia que beber era exatamente o que não deveria fazer, pois podia acabar dizendo algo do qual viria a se arrepender.
— Você sabe de onde veio esse apelido do Gêmeo?
— Conheço a história — respondeu Fredrik.
— Ouvi dizer que o irmão se afogou, mas que foi um acidente.
— Um acidente? Em um balde?
Fredrik riu e deixou que seu olhar acompanhasse uma beldade de pele negra que passou por eles.
— Olhe só — disse Iver —, tem até um bispo aqui. Como será que ele faz parte desta rede?
— É mesmo um grupo impressionante. É verdade que ele também tem um diretor de prisão entre os colaboradores?
— Digamos que a lista não para aí.
— A polícia também?
Iver não respondeu.
— Até o topo?
— Você ainda é jovem, Fredrik, e, mesmo já estando envolvido, ainda não é tarde demais para sair. Mas quanto mais vier a saber, mais preso vai ficar, acredite em mim. Se eu tivesse uma chance de fazer escolhas diferentes das que fiz...
— E Sonny Lofthus? E Simon Kefas? Isso vai ser resolvido?
— Ah, vai.
Iver olhava para uma garota pequena e delicada, sentada sozinha ao bar. Tailandesa? Vietnamita? Tão jovem, bonita e toda enfeitada. Tão bem instruída. Tão desprotegida e com medo. Assim como Mai. Ele quase tinha pena de Simon Kefas, pois também estava preso. Vendera sua alma pelo amor de uma mulher mais jovem e, assim como Iver, também sentiria humilhação. Iver esperava que ele pelo menos tivesse a oportunidade de sentir humilhação antes que o Gêmeo fizesse o que precisava ser feito. Um lago em Østmarka? Talvez ele e Lofthus acabassem cada qual com seu próprio lago.
Iver Iversen fechou os olhos. Pensou em Agnete. Teve vontade de jogar a taça de martíni na parede. Em vez disso, esvaziou-a de um gole só.
— Centro de operações da Telenor, assistência à polícia.
— Boa noite, quem fala é o inspetor-chefe Simon Kefas.
— Posso ver o número do qual você está ligando, e que se encontra no hospital Ullevål.
— Impressionante, mas preciso que rastreie outro número.
— Tem mandado?
— É um caso urgente.
— Tudo bem. Vou pôr no relatório, e amanhã você explica para a promotoria pública. Nome e número?
— Só tenho o número.
— E do que precisa?
— Saber onde o telefone se encontra neste momento.
— Só podemos dar uma localização aproximada. E se o telefone não estiver em uso, pode demorar até que nossas estações de base recebam um sinal. Isso acontece uma vez por hora.
— Eu vou ligar agora para que vocês recebam o sinal.
— Então não se trata de alguém que não pode saber que o telefone será rastreado?
— Estou ligando direto na última hora, mas não tive resposta.
— Está bem. Me diga o número, ligue, e veremos o que eu consigo.
Pelle parou o carro no caminho deserto de cascalhos. À esquerda, a paisagem inclinada descia em direção ao rio, que brilhava ao luar. Ali também estava a ponte estreita que levava do caminho de cascalhos até a estrada principal, de onde tinham vindo. À sua direita havia um milharal, que ondulava e adejava sob as nuvens negras no céu, que mais parecia um negativo do céu claro de verão, onde o sol brilhara apenas poucas horas antes. Ao fim do caminho, dentro da floresta à sua frente, estava o destino: uma casa grande rodeada por uma cerca branca.
— Eu deveria levar você para a emergência, você está precisando de uns pontos — disse Pelle.
— Estou bem. — O garoto colocou uma nota de grande valor no encosto para braços, entre os bancos da frente. — Obrigado pelo lenço.
Pelle olhou no espelho. O garoto amarrara o lenço na testa. Estava coberto de sangue.
— Sério, vamos lá. Levo você de graça. Aposto que tem emergência aqui em Drammen também.
— Talvez amanhã. — O garoto pegou a mochila vermelha. — Primeiro tenho que fazer uma visita a esse homem.
— Tem certeza de que é seguro? Você não disse que ele tinha matado alguém?
Pelle olhou para a garagem, que era acoplada à casa. Tanto espaço, e, mesmo assim, garagem acoplada. O dono devia gostar de arquitetura americana. A avó de Pelle morara em uma pequena cidade de noruegueses que um dia moraram nos Estados Unidos ou tinham familiares que moravam lá. Os mais fanáticos tinham não somente casa com alpendre, mastro com a bandeira do país e carro americano, como também instalação elétrica de 110 volts, para ligar jukeboxes, torradeiras ou geladeiras que compraram no Texas ou herdaram de um avô em Bay Ridge, no Brooklyn.
— Ele não vai matar ninguém hoje à noite — disse o garoto.
— Mesmo assim. Não é melhor que eu espere aqui? Leva meia hora para voltar para Oslo, e outro táxi vai custar muito, porque vão ter que vir até aqui primeiro. Eu posso desligar o taxímetro.
— Muito obrigado, Pelle, mas acho que é melhor para nós dois se você não for uma testemunha aqui, entendeu?
— Não.
— Ótimo.
O garoto saiu do carro e ficou parado olhando para Pelle, que então deu de ombros e partiu. Ouviu o cascalho ser triturado pelos pneus enquanto acompanhava o garoto pelo retrovisor. Viu-o ali, parado. De repente ele desapareceu, engolido pela escuridão da floresta.
Pelle parou. Ficou sentado olhando no espelho. O garoto sumira. Assim como sua esposa.
Era isso que achava tão difícil de entender. Que pessoas que estiveram por perto, que foram o alicerce de sua vida, simplesmente evaporavam e nunca mais eram vistas. A não ser em sonhos. Sonhos bons. Pois nos sonhos ruins ele não a via. Via apenas a estrada e os faróis do carro vindo de encontro a eles. Nos sonhos ruins, ele, Pelle Granerud, que um dia fora um piloto de rallys promissor, não conseguia reagir a tempo, não conseguia realizar as simples manobras que evitariam uma colisão com um motorista bêbado na contramão. Em vez de realizar as manobras que fazia todos os dias na pista de treinos, ele congelava. Congelava porque sabia que poderia perder a única coisa imperdível, que não era sua própria vida, mas a de duas pessoas que eram a vida dele. As duas pessoas que acabara de buscar no hospital e que seriam sua nova vida. Que começaria naquele momento. Ele seria pai. Foi pai por somente três dias. E, quando acordou, estava de volta ao mesmo hospital. Primeiro lhe contaram sobre os ferimentos nas suas pernas. Foi um mal-entendido — houve troca de plantão, e a nova equipe não foi informada de que a esposa e o bebê haviam morrido no acidente. Passaram-se duas horas até que ele soube. Era alérgico a morfina (devia ser uma condição genética), e ficou deitado, com dores insuportáveis, gritando o nome dela, dia após dia. Mas ela não apareceu. Depois de horas, dias, pouco a pouco, ele começou a entender que nunca, jamais a veria novamente. Então continuou a chamá-la. Apenas para ouvir o nome dela. Ainda não tinham decidido qual seria o nome do bebê. Pelle deu-se conta de que só nessa noite, depois de o garoto colocar a mão em seu ombro, foi que a dor desapareceu por completo pela primeira vez.
Podia ver a silhueta de um homem na casa branca. Estava sentado atrás da enorme janela panorâmica sem cortinas. A sala estava iluminada, e era como se o homem estivesse em exposição. Como se esperasse alguém.
Iver viu que o grandalhão vinha em direção a Fredrik e ele com o convidado com quem estivera conversando ao lado do piano.
— É com você que ele quer falar, não comigo — sussurrou Fredrik, e se afastou. Aparentemente, avistara uma russa ao lado do bar.
Iver engoliu em seco. Por quantos anos ele e o grandalhão fizeram negócios juntos, estiveram no mesmo barco, dividiram bons e maus momentos, como quando as ondas da crise financeira mundial atingiram levemente a costa norueguesa? E mesmo assim ele ficava nervoso, quase com medo, cada vez que o grandalhão se aproximava. Diziam que ele levantava mais do que o próprio peso no supino. E não uma só vez, mas uma série de dez. Mas uma coisa era seu físico intimidante, outra coisa totalmente diferente era saber que nada que você dissesse, nenhuma palavra ou qualquer nuance no seu tom de voz, nenhum detalhe involuntário — ou melhor, muito menos os involuntários —, nada passaria despercebido. Inclusive, é claro, o que se revelava pela linguagem corporal, pela cor da face e pelas alterações na pupila.
— E então, Iver? — Aquela voz retumbante, de frequência baixa. — Como está? Agnete. É difícil, não?
— É — respondeu Iver, procurando um garçom.
— Queria que você conhecesse um amigo meu, pois vocês têm algo em comum. Ambos ficaram viúvos recentemente...
O homem com o tapa-olho estendeu a mão.
— ... e o autor do crime é o mesmo — concluiu o grandalhão.
— Yngve Morsand — apresentou-se o homem, e apertou a mão de Iver. — Sinto muito pela sua perda.
— Igualmente — disse Iver Iversen.
Então por isso ele o reconhecera. Era o armador. O marido da mulher que tivera o topo da cabeça arrancada. Tinha sido ele o principal suspeito por um tempo, até que acharam DNA no local do crime. DNA de Sonny Lofthus.
— Yngve mora nos arredores de Drammen — disse o grandalhão. — E hoje à noite está nos emprestando sua casa.
— Ah, é?
— Será usada como armadilha. Vamos pegar o cara que matou Agnete, Iver.
— O Gêmeo acha que há uma boa chance de que Sonny Lofthus vá até lá hoje à noite para tentar me matar. — Yngve Morsand riu e olhou em volta, procurando algo. — Eu apostei com ele que não. Pode pedir para seus garçons servirem algo mais forte do que martíni, Gêmeo?
— Pela lógica, é a próxima jogada de Sonny Lofthus — disse o grandalhão. — Felizmente, ele é tão sistemático e previsível que acho que vou ganhar seu dinheiro. — O grandalhão deu um sorriso largo. Dentes brancos sob o bigode, olhos como duas fendas no rosto carnudo. Colocou a mão gigantesca nas costas do armador. — E eu gostaria que você não me chamasse mais disso, Yngve.
O armador olhou para ele, sorrindo.
— De quê? De Gêm... Aaaaaah.
Sua boca se abriu e seu rosto se contorceu em uma careta desconcertada, congelada. Iver viu os dedos do grandalhão soltarem a nuca do armador, que se curvou para tossir.
— Combinado, não é? — O grandalhão ergueu a mão em direção ao bar e estalou os dedos. — Bebida!
Martha enfiava a colher no pudim de creme, desinteressada, enquanto ouvia as palavras que eram arremessadas contra ela de todos os cantos da mesa. Ele já a importunara antes? Era perigoso? E, meu Deus, se morava no centro, ela o encontraria novamente! Ele poderia denunciar Anders por agressão por ele ter tentado defendê-la? Esses viciados eram tão imprevisíveis... Mas ele devia estar sob o efeito de drogas, então não se lembraria de nada. Um tio o vira na televisão, e achava que ele era procurado por assassinato. Como se chamava? Era estrangeiro? Por que você não quer responder? É por causa da confidencialidade?
— Estou comendo pudim — disse Martha. — Está gostoso. Vocês também deveriam provar. Vou buscar mais.
Na cozinha, Anders apareceu atrás dela.
— Eu ouvi o que ele disse. — Anders arquejou. — Eu te amo? Era aquele cara do corredor do Centro Ila. Aquele com quem você se comunicou. Que tipo de relação vocês têm?
— Anders, não...
— Vocês treparam?
— Pare!
— Ele pelo menos tem a consciência pesada, senão teria puxado a arma. O que ele queria aqui? Me matar? Vou ligar para a polícia.
— E vai dizer o quê? Que você chutou a cabeça de um homem que não ameaçou você?
— E quem é que vai dizer para a polícia que ele não me ameaçou? Você?
— Ou o taxista.
— Você? — Ele agarrou o braço dela. — É isso que você quis dizer, não é? Que você ficaria do lado dele ao invés de apoiar seu próprio noivo. Sua put...
Ela se desvencilhou dele. Um prato de sobremesa caiu no chão e se quebrou. A sala agora estava em silêncio.
Ela marchou para o corredor, pegou o casaco e foi rumo à porta. Parou. Ficou ali por um instante. Então se virou e voltou à sala. Pegou uma colher que estava branca de pudim e bateu-a num copo oleoso. Olhou para cima e percebeu que fora desnecessário, pois já tinha a atenção de todos.
— Caros amigos e familiares — disse ela —, só queria dizer que Anders tinha razão. Nós realmente não aguentamos esperar até o verão...
Simon xingou. Tinha estacionado no meio de Kvadraturen e estudava o mapa da cidade, a área onde a Telenor informara que o telefone celular se encontrava. O telefone que Sonny Lofthus usara para lhe enviar mensagens. Agora Simon sabia que era um pré-pago, registrado no nome de Helge Sørensen. O que fazia sentido, pois ele tinha usado a identidade do agente penitenciário, que estava de licença médica.
Mas onde ele poderia estar?
Apesar de ser formada por alguns poucos quarteirões, a região era a mais populosa de Oslo. Lojas, escritórios, hotéis, apartamentos. Ele deu um pulo quando bateram na janela lateral do carro. Deparou-se com uma garota gordinha, com muita maquiagem, calça apertada e os seios espremidos numa espécie de espartilho. Ele balançou a cabeça. Ela respondeu com uma careta e foi embora. Simon esquecera que aquela era a região da cidade com mais prostitutas, e que um homem sozinho dentro de um carro parado seria visto como possível cliente. Boquete no carro, uma rapidinha no hotel Bismarck, ou encostados na muralha do Forte Akershus. Ele sabia por experiência própria. Não era algo do qual se orgulhava, mas houvera um tempo em que pagava por um pouco de contato humano e uma voz que dissesse que o amava. O último serviço era considerado especial, e custava duzentas coroas a mais.
Tentou ligar mais uma vez. Analisou as pessoas que andavam pela calçada, esperou que uma delas pegasse um telefone e se revelasse. Suspirou e desligou novamente. Olhou para o relógio. Pelo menos o telefone continuava no mesmo lugar, o que significava que Sonny estava quieto e não aprontaria nada de diabólico essa noite. Então por que é que Simon tinha o pressentimento de que havia alguma coisa errada?
Bo estava na sala desconhecida, olhando pela enorme janela panorâmica. Estava sentado em frente a uma lâmpada forte voltada para a janela, de modo que, se alguém lá fora olhasse para dentro, veria somente sua silhueta. Esperava que Sonny Lofthus não conhecesse o formato de Yngve Morsand. Lembrou que era exatamente assim que Sylvester se sentara. O bom Sylvester, tão burro, leal e espalhafatoso. E aquele maldito Sonny o matara. Como ele tinha feito isso, nunca saberiam. Pois provavelmente não haveria nenhum interrogatório, nenhuma sessão de tortura; Bo jamais teria a chance de sentir o gosto de vingança, de saboreá-la como um copo de Retsina, com aquele gosto típico de resina de pinheiro que ninguém suportava mas que para Bo era o sabor de sua infância na ilha Telendos: amigos, o balanço de um barco, e ele deitado no piso do barco olhando para o céu azul da Grécia, enquanto as ondas e o vento cantavam em dueto. Ele ouviu um clique no ouvido direito.
— Um carro entrou na rua e deu a volta.
— Alguém saiu? — perguntou Bo.
O plugue de orelha, o fio e o microfone eram tão pequenos que não podiam ser vistos na contraluz do lado de fora.
— Não conseguimos ver, mas o carro está se afastando. Pode ter sido alguém que errou o caminho.
— Ok, mas estejam preparados.
Bo ajeitou o colete à prova de balas. Não que Lofthus fosse ter a chance de atirar, mas era melhor estar prevenido. Havia posicionado dois homens no jardim para pegá-lo quando ele passasse pelo portão ou pulasse a cerca, e mais um no corredor, logo após a porta da casa, que estava destrancada. Todos os outros acessos tinham sido fechados e trancados. Estavam lá desde as cinco da tarde e já não aguentavam mais. A noite mal tinha começado, mas os pensamentos de Bo sobre Sylvester o manteriam acordado. E a vontade de pegar aquele maldito. Pois ele viria. Se não viesse hoje, viria no dia seguinte ou depois, mas com certeza viria. Às vezes Bo pensava como era estranho que o grandalhão, um homem tão desprovido de humanidade, entendesse tão bem as pessoas. Suas vontades, fraquezas e motivações. Como reagem a pressão e medo, e como ele, com certa informação sobre temperamento, inclinações e inteligência, previa seus passos com uma exatidão impressionante — ou decepcionante, como ele mesmo dizia. Infelizmente, suas ordens eram que o garoto não deveria ser capturado, mas morto de imediato — ou seja, uma morte rápida e indolor.
Bo se empertigou na cadeira quando ouviu algo. E, antes mesmo de se virar, passou-lhe um pensamento pela cabeça. Que não tinha o mesmo talento do grandalhão para prever o próximo passo daquele cara. Não tivera ao deixar Sylvester só, tampouco tinha agora.
O garoto usava um pano amarrado na cabeça. Estava na porta lateral, a que levava da sala direto à garagem.
Mas como é que ele tinha entrado por ali se haviam trancado a garagem? Devia ter vindo por trás, da floresta. Abrir uma garagem trancada devia ser uma das primeiras coisas que um viciado aprende. Mas esse não era o maior problema. O maior problema era que o garoto segurava uma Uzi, a pistola-metralhadora israelense que cospe nove balas de 19mm mais depressa que um pelotão de fuzilamento.
— Você não é Yngve Morsand — disse Sonny Lofthus. — Onde ele está?
— Ele está aqui — disse Bo ao microfone.
— Onde?
— Ele está aqui — repetiu Bo, um pouco mais alto. — Na sala.
Sonny Lofthus olhou ao redor enquanto seguia na direção de Bo com a metralhadora na mão, o dedo no gatilho. Parecia ter um pente para 36 balas. Parou. Devia ter visto o plugue e o fio com o microfone.
— Você está falando com outras pessoas — disse o garoto, e teve tempo de dar um passo para trás antes de a porta do corredor se abrir de uma vez e Stan entrar com uma pistola.
Bo pegou sua Ruger ao ouvir a tosse seca da Uzi e o barulho da cascata de vidro quando a janela panorâmica atrás dele se quebrou. O revestimento dos estofados e pedaços do assoalho voaram. O garoto distribuía balas generosamente, sem um alvo específico. Mesmo assim, uma Uzi sempre vencerá de duas pistolas, então tanto Bo quanto Stan se jogaram ao chão, atrás do sofá mais próximo. De repente, tudo ficou em silêncio. Bo estava deitado de costas, segurando a pistola com as duas mãos, para o caso de a cara de Sonny aparecer sobre a borda do sofá.
— Stan! — gritou Bo. — Pegue ele!
Nenhuma resposta.
— Stan!
— Vá você! — berrou Stan, de trás do sofá no outro canto da parede. — Ele tem uma porra de uma Uzi, caralho!
Bo ouviu um clique no plugue.
— O que está acontecendo aí, chefe?
No mesmo instante, Bo ouviu um carro ser ligado e acelerar. Morsand tinha ido à festa do Gêmeo, em Oslo, com seu imponente Mercedes 280CE Cupê, modelo 1982, mas o carro da esposa, um Honda Civic pequeno, ainda estava lá. Sem a esposa, claro, pois Morsand a matara, mas as chaves continuavam na ignição. Devia ser assim que tratavam mulheres e carros ali no campo. Bo ouviu os rapazes lá fora:
— Ele está tentando fugir!
— A porta da garagem é por aqui.
Bo ouviu um rangido quando a marcha do Honda foi engatada e um gemido quando o motor engasgou. Será que o cara era mesmo um completo amador? Não sabia atirar nem dirigir.
— Peguem ele!
O carro foi ligado novamente.
— Ouvimos dizer que ele tinha uma Uzi...
— Ou é a Uzi ou o Gêmeo. Escolham!
Bo se levantou e correu para a janela panorâmica quebrada, ainda a tempo de ver o carro saltar da garagem. Nubbe e Evgeni haviam se posicionado na frente do portão. Nubbe atirava com a Beretta, tiro após tiro. Evgeni tinha uma Remington 870 de cano serrado com o pente na altura do queixo. Estremeceu quando puxou o gatilho. Bo viu o para-brisa explodir, mas o carro continuou a acelerar, e o para-choque atingiu Evgeni logo acima do joelho, jogou-o para cima, e o fez dar um salto mortal no ar antes de ser engolido pelo Civic sem o vidro da frente como uma orca engolindo focas. O Civic levou junto o portão e partes da cerca, atravessou o estreito caminho de cascalhos e entrou no milharal do outro lado. E continuou avançando sem reduzir a velocidade, gritando em primeira marcha, abrindo um caminho através dos eixos dourados, banhados à luz da lua, antes de fazer uma curva larga e continuar pelo caminho de cascalho mais abaixo. O motor gritava ainda mais alto; o motorista obviamente estava com um pé na embreagem, sem tirar o outro pé do acelerador. Então passou a segunda marcha e o motor ameaçou engasgar outra vez, mas ele se recuperou, e o carro continuou a descer o caminho de cascalho, onde rapidamente sumiu de vista, uma vez que o motorista não tinha ligado os faróis.
— Todos para o carro! — gritou Bo. — Temos que alcançá-lo antes que ele chegue à cidade.
Pelle olhou para o Honda sem acreditar no que via. Tinha ouvido disparos e visto no espelho que o Honda Civic atravessara o portão, lançando pelos ares pedaços da cerca branca. Vira o carro abrir caminho pelo campo onde cresciam produtos altamente subsidiados e continuar sua jornada duvidosa. O garoto não era um motorista experiente — isso estava claro —, mas Pelle suspirou aliviado quando viu, à luz da lua, um lenço ensanguentado ao volante, atrás dos restos do para-brisa estilhaçado. Pelo menos o garoto estava vivo.
Ouviu gritos na casa.
Armas sendo carregadas na tranquila noite de verão.
Um carro sendo ligado.
Pelle não tinha ideia de quem eram. O garoto lhe contara — verdade ou não — que o homem lá dentro tinha matado alguém. Talvez tivesse dirigido embriagado e provocado a morte de alguém, e agora saíra da prisão. Pelle não sabia. Só sabia que, após meses e anos nos quais se certificara de passar a maior parte do dia ao volante, estava lá novamente. Naquele lugar, onde podia reagir ou congelar. Alterar a órbita dos corpos celestes — ou não. Um jovem que não podia ter a mulher que amava. Passou o dedo na foto ao lado do volante. Depois, engatou a marcha e seguiu o Honda. Dirigiu colina abaixo, até uma ponte estreita. No topo da colina viu um par de faróis cortar a escuridão. Acelerou, ganhou velocidade, virou o volante um pouco para a direita, agarrou o freio de mão, pisando e soltando os pedais de forma rápida e musical, como um organista de igreja, ao passo que girava o volante bruscamente para a esquerda. A traseira do carro se moveu como ele queria quando puxou o freio de mão. Quando o carro parou, estava posicionado perfeitamente na diagonal da ponte. Ficou satisfeito. Ainda não tinha perdido o jeito. Então desligou o motor, engatou a primeira, foi para o lado do passageiro e saiu do carro. Havia, no máximo, vinte centímetros entre a balaustrada da ponte e o carro, nos dois lados. Trancou todas as portas com um simples toque na chave e começou a caminhar em direção à rodovia. Pensou nela; só pensava nela, o tempo inteiro. Se ela pudesse vê-lo agora. Vê-lo andar. Quase não sentia dores no pé, só mancava um pouco. Talvez os médicos tivessem razão. Talvez estivesse na hora de abandonar as muletas.