O filho

Jo Nesbo · Capítulo 20 de 44

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O filho

Capítulo 20

 

Simon passou pelos campos de futebol e dobrou na rua onde moravam. O vizinho estava fazendo churrasco de novo. As risadas altas, regadas a sol e cerveja, intensificavam a percepção do silêncio que reinava no bairro durante o verão. A maioria das casas estava vazia e havia apenas um carro estacionado na rua.

— Chegamos — anunciou Simon, dobrando em frente à garagem.

Não sabia por que dissera isso. Else podia muito bem ver que estavam em casa.

— Obrigada por me levar ao cinema — agradeceu-lhe Else, e pôs a mão sobre a dele, por cima da alavanca do câmbio, como se ele a tivesse acompanhado a pé até em casa e fosse deixá-la ali. Nunca, pensou Simon, e sorriu para ela.

Ele se perguntava quanto do filme ela conseguira assistir. A ideia do cinema fora dela. Durante o filme, ele a olhou várias vezes, e percebeu que Else pelo menos ria na hora certa. Mas Woody Allen é mais humor auditivo do que visual. De qualquer maneira, tinha sido uma ótima noite. Mais uma ótima noite.

— Aposto que você sentiu falta da Mia Farrow — comentou ela, de forma marota.

Ele riu. Essa era a piada deles. O primeiro filme ao qual assistiram juntos foi O bebê de Rosemary, o repugnante e genial longa de Roman Polanski, no qual Mia Farrow dá à luz um bebê que acaba por ser o filho do diabo. Else ficou horrorizada, e por um bom tempo acreditou que essa era a maneira de Simon de lhe dizer que não queria um filho, principalmente quando ele insistiu para assistirem ao filme outra vez. Somente depois — após verem o quarto filme de Woody Allen com Mia Farrow — foi que ela entendeu que ele era fascinado por Mia, não por filhos do demônio.

No momento em que caminhavam até a porta da casa, Simon viu um clarão vindo da rua. Curto como a luz de um farol. Viera do carro estacionado.

— O que foi isso? — perguntou Else.

— Não sei — disse ele, e abriu a porta. — Pode fazer um café para nós? Eu já venho.

Simon atravessou a rua. Ele vira o carro quando chegaram. Não pertencia a nenhum dos vizinhos. Nem aos mais distantes. Em Oslo, limusines eram em geral usadas por embaixadas, pela família real ou por ministros. Simon só conhecia uma pessoa que andava pela cidade com vidros fumês, bastante espaço para as pernas e motorista particular. Um motorista que tinha acabado de sair e abrir a porta traseira para Simon.

Ele se inclinou, mas não entrou. O pequeno homem lá dentro tinha o nariz pontudo, a cara redonda e as bochechas avermelhadas. Parecia o tipo de gente que se costuma chamar de aprazível. O blazer azul com botões dourados (vestimenta comum dos armadores, financistas e cantores de música brega dos anos 1980) sempre fizera Simon imaginar se, no fundo, o sonho de todo homem norueguês era ser capitão de navio.

— Boa noite, inspetor-chefe Kefas — cumprimentou o pequenino, numa voz alegre.

— O que está fazendo na minha rua, Nestor? Ninguém aqui quer comprar o lixo que você vende.

— Opa, opa. Sempre na luta contra o crime, hein?

— Só preciso de um motivo para prendê-lo.

— Acho que não será necessário, a não ser que seja crime ajudar alguém necessitado. Não quer se sentar, Kefas? Assim podemos conversar com calma e tranquilidade.

— Não vejo razão para isso.

— Então você também tem a vista ruim?

Simon o encarou. Braços curtos e um torso pequeno e gordo. E mesmo assim as mangas do blazer ficavam tão curtas que se podiam ver as abotoaduras no formato das letras HN. Hugo Nestor se dizia ucraniano, mas, segundo os arquivos da polícia, tinha nascido e crescido em Florø, Noruega. De família de pescadores, chamara-se Hansen antes de mudar o nome, e nunca passara muito tempo no exterior, com exceção de uma curta estadia em Lund, na Suécia, durante a faculdade de economia, que não terminou. Sabe-se lá onde arranjara aquele sotaque estranho, mas na Ucrânia com certeza não tinha sido.

— Não sei se sua esposa sabia quem eram os atores do filme, Kefas, mas acho que ela percebeu que o Woody Allen não estava nele, não é? Aquele judeu tagarela tem uma voz irritante. Não que eu tenha algo contra judeus individualmente; só acho que Hitler tinha razão no que diz respeito à raça. É a mesma coisa com os eslavos. Embora eu mesmo seja do Leste Europeu, tenho que admitir que os eslavos não têm condições de liderarem a si próprios. Também não estou falando de indivíduos, mas da raça como um todo. Esse Allen também não é pedófilo?

Nos arquivos, constava que Hugo Nestor era a figura mais importante de Oslo no mercado de tráfico de drogas e de pessoas. Nunca condenado, nunca acusado formalmente, mas sempre um suspeito. Era muito esperto e cuidadoso. Uma enguia escorregadia.

— Não sei, Nestor. O que eu sei é que as más línguas dizem que foram seus capangas que deram fim ao capelão da prisão. Ele estava devendo dinheiro?

Nestor deu um sorriso prepotente.

— Não é muito baixo ficar dando ouvido a boatos, Kefas? Você pelo menos costumava ter um pouco de estilo, ao contrário de seus colegas. Se tivesse mais do que boatos... digamos, uma testemunha confiável, que fosse ao tribunal para apontar o dedo... bem, aí você já teria prendido alguém. Não é mesmo?

Uma enguia escorregadia.

— De qualquer maneira, tenho uma proposta para você e sua esposa. Dinheiro rápido. Dinheiro suficiente para uma caríssima cirurgia nos olhos, por exemplo.

Simon engoliu em seco. Percebeu que sua voz estava rouca quando perguntou:

— Foi Fredrik quem lhe contou isso?

— Seu antigo colega da Fraudes? Digamos que eu ouvi um boato sobre sua necessidade. Aliás, se você conta uma história dessas para ele, é porque quer que chegue aos meus ouvidos. Ou é mentira, Kefas? — Ele sorriu. — Bem, tenho uma proposta que acho que será boa para nós dois. E agora, quer entrar?

Simon agarrou a maçaneta da porta do carro e viu que Nestor automaticamente se afastou para lhe dar lugar no assento. Concentrou-se para respirar com tranquilidade e evitar que a voz saísse trêmula de ódio.

— Continue falando, Nestor. Me dê um só motivo para prendê-lo.

Nestor levantou a sobrancelha, intrigado.

— E que motivo seria esse, inspetor-chefe Kefas?

— Tentativa de suborno de policial.

— Suborno? — Nestor deu uma risada curta e aguda. — Eu diria que se trata de uma proposta de negócio, Kefas. Você verá que...

Simon não ouviu o resto da frase, porque aparentemente a limusine tinha isolamento acústico. Foi embora sem olhar para trás. Lamentou não ter batido a porta com mais força. Ele ouviu o carro ser ligado e depois o ruído dos pneus no asfalto.

— Você parece irritado, querido — disse Else quando ele se sentou à mesa para tomar café. — Quem era?

— Só alguém que tinha se perdido — respondeu Simon. — Eu expliquei o caminho.

Else foi até ele com passos arrastados, levando o bule de café. Simon olhava pela janela. Para a rua agora vazia. De súbito, uma dor ardente espalhou-se pelas suas coxas.

— Merda!

Ele bateu no bule de café que estava nas mãos dela, e o bule caiu no chão com um estrondo.

— Porra, você está derramando café em mim! Por acaso você é... — Uma parte do seu cérebro já reagira, tentara evitar que aquela palavra fosse dita, mas era como bater a porta do carro de Nestor; ele não queria estar lá, negara, queria destruir, preferia enfiar a faca em si mesmo. E nela. — ... cega?!

A cozinha ficou em completo silêncio. Só se ouvia a tampa do bule rolando pelo chão e o café derramando. Ah, não... Ele não queria ter causado isso. Não isso.

— Desculpa, Else, eu...

Ele se levantou para abraçá-la, mas ela já estava a caminho da pia. Pegou um pano de prato e o colocou debaixo da torneira de água fria.

— Tire a calça, Simon, vou...

Ele a abraçou por trás. Apoiou a testa na cabeça dela. Suspirou.

— Desculpa, desculpa. Por favor, me perdoe. Eu... eu não sei mais o que fazer. Eu queria poder fazer algo por você, mas eu... eu não consigo, eu não sei, eu...

Ele ainda não escutava o choro, só sentia o corpo dela tremer, e o tremor passava para o seu. Um nó se formou em sua garganta, e ele conteve o próprio choro, mas não sabia se fora bem-sucedido. Sabia apenas que os dois tremiam.

— Sou eu que tenho que me desculpar. — Ela soluçou. — Você poderia estar com uma pessoa melhor. Com alguém que não... não queime você.

— Mas não tem ninguém melhor que você — sussurrou Simon. — Não faz mal. Você pode me queimar o quanto quiser. Eu nunca vou abandonar você. Entendeu?

E ele percebeu que ela sabia que era verdade. Que ele faria tudo, aguentaria tudo, sacrificaria tudo.

... é porque quer que chegue aos meus ouvidos...

Mas não conseguia se obrigar àquilo.

Ele ouviu ao longe as gargalhadas extáticas do vizinho na escuridão, enquanto as lágrimas dela caíam.

 

Kalle olhou para o relógio: 22h40. O dia fora bom; a venda de Superboy tinha superado a média dos fins de semana, então a contagem e o preparo de novas embalagens durara um pouco mais do que a média também. Tirou a máscara que usavam quando cortavam e misturavam a droga na bancada do local simples de vinte metros quadrados, que servia como escritório, fábrica e banco ao mesmo tempo. Logicamente, a droga que eles recebiam já vinha misturada, mas a Superboy era a mais pura que ele já vira ao longo da sua carreira como traficante. Tão pura que, se não usassem máscara, não apenas ficariam sob o efeito da droga, mas poderiam até morrer por inalar as pequenas partículas que pairavam no ar quando cortavam e manuseavam o pó amarronzado. Ele guardou as máscaras no cofre, na frente da pilha de notas e das embalagens de droga. Será que deveria ligar para Vera e avisar que se atrasaria? Ou será que estava na hora de mostrar para ela quem é que mandava? Quem levava a grana para casa e, por isso, não precisava ficar dizendo quando é que ia nem para onde é que ia?

Kalle pediu para que Pelvis verificasse o corredor.

O elevador ficava a poucos metros da porta de ferro do escritório, indo para a direita. No final do corredor ficava a porta para a escadaria, mas, ao contrário do que determinava o regulamento de incêndio, eles puseram uma corrente na porta, para que permanecesse sempre fechada.

— Cassius, vá dar uma olhada no estacionamento! — gritou Kalle, em inglês, enquanto trancava o cofre.

O escritório era pequeno, e não se ouvia nada além de um som baixo que vazava das salas de ensaio, mas Kalle gostava de gritar. Cassius era o maior e mais gordo africano de Oslo. Tinha um corpo tão grande e disforme que era difícil avaliar sua composição, mas se apenas dez por cento do corpo dele fossem músculos, já seria suficiente para deter a maioria das pessoas.

— Nenhum carro nem ninguém no estacionamento — informou Cassius, em inglês, depois de olhar pelas grades de ferro da janela.

— O corredor também está livre — acrescentou Pelvis, olhando através da janelinha na porta.

Kalle girou o botão de combinação do cofre. Gostava da engrenagem macia e oleosa, do clique suave. Sabia a combinação de cor e não a escrevera em nenhum lugar. Tampouco tinha qualquer lógica, não era uma data de aniversário nem besteiras do tipo.

— Então vamos — disse ele, e se levantou. — Preparem as armas, os dois.

Ambos olharam intrigados para ele.

Kalle não dissera nada, mas notara algo de estranho naqueles olhos que vira através da janelinha da porta, mais cedo. Ele sabia que os olhos o tinham visto quando ele estava sentado à mesa. Ok, era só um cara de uma daquelas bandas ruins que sonhavam com um empresário, mas havia tanto dinheiro e tanta droga na mesa que qualquer idiota poderia ficar tentado a fazer besteira. Nesse caso, era melhor que o garoto tivesse visto também as duas pistolas sobre a mesa, que pertenciam a Cassius e Pelvis.

Kalle foi até a porta. Só ele tinha a chave, de modo que, quando saísse, podia trancar no escritório quem estivesse trabalhando ali dentro. As grades de ferro na janela não podiam ser abertas. Em resumo, nenhuma pessoa que trabalhava para Kalle podia fugir com dinheiro nem com droga, tampouco permitir a entrada de estranhos.

Kalle olhou através da janelinha. Não porque não se lembrasse de que Pelvis havia acabado de dizer que o corredor estava livre, mas porque simplesmente partia do princípio de que Pelvis tentaria enganá-lo se alguém lhe oferecesse dinheiro suficiente por isso. Kalle faria o mesmo. Já fizera o mesmo.

Olhou pela janelinha novamente. Verificou o espelho que pusera na parede oposta para que ninguém pudesse se esconder atrás da porta, embaixo da janelinha. O corredor estava escuro e vazio. Ele girou a chave e segurou a porta para os outros dois. Pelvis saiu primeiro, depois Cassius, e, por último, ele mesmo. Virou-se para trancar a porta.

— Mas que porra é essa?!

Era Pelvis.

Kalle se virou e só então percebeu o que não conseguira ver da janelinha por causa do ângulo: a porta do elevador estava aberta. Mas ele ainda não conseguia ver quem estava dentro, pois a luz do elevador estava apagada. Na luz fraca do corredor, só via algo metálico em uma das laterais da entrada do elevador. Silver tape. Bem nos sensores. E cacos de vidro no chão.

— Cuidado com...

Mas era tarde demais. Pelvis já dera os três passos em direção ao elevador.

O cérebro de Kalle percebeu a chama do cano da arma na escuridão do elevador antes de ouvir o disparo.

A cabeça de Pelvis girou como se tivesse levado um tapa. Ele olhou para Kalle com uma expressão atônita. Parecia que havia um terceiro olho na maçã do rosto. Então a vida o deixou e seu corpo caiu como um casaco do qual o proprietário se despira.

— Atira, Cassius! Atira, porra!

O pânico fizera Kalle esquecer que Cassius não falava norueguês, mas pelo visto não era necessário. Ele já havia apontado a pistola para o elevador e atirava. Kalle sentiu algo atingi-lo no peito. Nunca estivera no lado errado de uma pistola antes, mas agora entendeu por que aqueles para quem apontara a sua tinham paralisado de uma forma estranha, como se cheios de cimento. A dor se alastrou no peito. Não conseguia respirar, mas tinha que entrar no escritório. Do outro lado da porta à prova de balas havia ar, segurança e uma trava que poderia trancar. Mas a mão não obedecia, ele não conseguia enfiar a chave na fechadura novamente. Parecia um sonho, como se mover embaixo da água. Por sorte, estava coberto pelo corpo colossal de Cassius, que não parava de atirar. Então a chave finalmente encaixou na fechadura, Kalle a girou, abriu a porta e entrou. O estrondo seguinte teve uma acústica diferente, devia ter vindo de dentro do elevador. Ele deu a volta na porta para fechá-la, mas estava bloqueada por Cassius, que colocara meio ombro e um braço da grossura de uma coxa para dentro. Merda! Tentou empurrá-lo para fora, porém mais partes de Cassius estavam tentando entrar.

— Vê se entra logo então, seu covarde de merda! — bufou Kalle, e abriu a porta.

O africano foi entrando como uma massa de pão crescendo, seu corpo se espalhando, fluindo pelo limiar e pelo chão do escritório. Kalle olhou para sua expressão vidrada. Os olhos estavam arregalados, como os de um peixe de água profunda recém-pescado. A boca abria e fechava.

— Cassius!

A única resposta foi um estalo molhado, quando uma grande bolha de ar cor-de-rosa espocou nos lábios do africano. Kalle pressionou as pernas contra a parede para tentar empurrar a montanha negra e fechar a porta. Não conseguiu. Agachou-se e tentou puxá-lo. Era pesado demais. Ouviu passos leves do lado de fora. A pistola! Cassius caíra em cima do próprio braço. Kalle montou no defunto, tentou desesperadamente colocar a mão embaixo do corpo, mas depois de cada camada de gordura que encontrava havia outra camada, e nada de pistola. Já estava com o braço enterrado em gordura até o cotovelo quando ouviu os passos se apressarem lá fora. Sabia o que ia acontecer; tentou escapar, mas era tarde demais. A porta o atingiu na testa e tudo escureceu.

Quando abriu os olhos, estava deitado de costas, olhando para um cara de capuz, luvas amarelas de borracha e uma pistola apontada para ele. Virou a cabeça, mas não viu mais ninguém, apenas Cassius, deitado com metade do corpo para dentro. Daquele ângulo, Kalle via o cano da pistola saindo por baixo da barriga de Cassius.

— O que é que você quer?

— Quero que você abra o cofre. Você tem sete segundos.

— Sete?

— Comecei a contar antes de você acordar. Seis.

Kalle se levantou. Estava tonto, mas conseguiu andar até o cofre.

— Cinco.

Ele girou o botão de combinação.

— Quatro.

Só mais um número. Então o cofre se abriria e o dinheiro seria levado. Ele mesmo teria que restituir o valor. Eram as regras do jogo.

— Três.

Ele hesitou. E se conseguisse apanhar a pistola embaixo de Cassius?

— Dois.

Será que ele ia mesmo atirar ou estava só blefando?

— Um.

O cara tinha matado dois num piscar de olhos. Um a mais, um a menos...

— Aqui — disse Kalle, e se afastou. Não suportava olhar para a pilha de cédulas e de embalagens de droga sendo levadas.

— Ponha tudo aqui — ordenou o cara de capuz, estendendo uma mochila vermelha.

Kalle fez como ele mandou. Nem rápido nem devagar, apenas colocou o conteúdo do cofre na mochila enquanto seu cérebro contava automaticamente. Cem mil, duzentos mil...

Quando ele terminou, o cara pediu que jogasse a mochila no chão, na frente dele. Kalle obedeceu. Foi quando se deu conta de que, se fosse baleado, seria agora. Ali. O cara não precisava mais dele. Kalle deu dois passos na direção de Cassius. Precisava apanhar a pistola agora.

— Se você não fizer isso, não vou atirar em você — disse o cara.

Que merda era essa? O cara lia pensamentos?

— Coloque as mãos na cabeça e saia.

Kalle hesitou. Será que isso significava que o deixaria viver? Ele passou por cima de Cassius.

— Encoste na parede com as mãos na cabeça.

Novamente, Kalle fez como ele mandou. Virou a cabeça. Viu que ele já havia apanhado a pistola de Pelvis e que agora estava agachado com a mão embaixo de Cassius e o olhar fixo em Kalle. Conseguiu pegar a segunda arma também.

— Pegue a bala naquela parede, por gentileza — disse o cara de capuz, e apontou.

Kalle lembrou onde o vira antes. No rio. Estava fazendo caminhada por ali. Devia tê-los seguido. Kalle olhou para cima e viu o fundo de uma bala deformada cravada no gesso da parede. Gotas finas de sangue escorriam pela parede até o lugar de onde vieram: a cabeça de Pelvis. A bala não viajara com tanta velocidade, então Kalle conseguiu retirá-la da parede com as unhas.

— Me dê aqui — pediu o cara, e apanhou a bala com a mão livre. — Agora você vai procurar minha outra bala e os dois cartuchos vazios. Você tem trinta segundos.

— E se a outra bala estiver dentro do Cassius?

— Duvido. Vinte e nove.

— Olhe o tamanho dessa montanha de gordura, cara!

— Vinte e oito.

Kalle se pôs de joelhos e começou a procurar. Que merda, devia ter comprado lâmpadas melhores.

Quando a contagem estava em treze, havia achado quatro cartuchos da arma de Cassius e um dos cartuchos do cara. Seis segundos depois, achara a outra bala disparada contra eles. Devia ter atravessado Cassius e atingido a porta de metal, que tinha uma marca.

Quando o tempo acabou, ainda não encontrara o último cartucho.

Ele fechou os olhos. Sentiu uma das pálpebras, que era um pouco apertada, arranhar o olho, enquanto pedia a Deus que pudesse viver por mais um dia. Ouviu o disparo, mas não sentiu dor. Abriu os olhos. Ainda estava de quatro no chão.

O cara afastou de Cassius o cano da pistola de Pelvis.

Meu Deus, ele tinha atirado em Cassius mais uma vez, com a pistola de Pelvis, para garantir que estivesse morto. Depois, foi até Pelvis, posicionou a arma no mesmo lugar onde a primeira bala entrara, ajustou o ângulo e atirou.

— Caralho! — gritou Kalle, e ouviu o choro na própria voz.

O cara colocou as pistolas dos dois na mochila vermelha e apontou para Kalle com a própria arma.

— Vamos dar uma volta de elevador.

Elevador. Cacos de vidro. Seria lá. Tinha que atacar lá.

Foram até o elevador e entraram. A luz do corredor permitiu que Kalle visse que havia mais cacos de vidro no piso do elevador. Escolheu um oblongo que seria ideal. Ficaria completamente escuro quando as portas fechassem. Bastaria que ele se abaixasse, apanhasse o caco e atacasse num movimento rápido e uniforme. Tinha que...

As portas se fecharam. O cara enfiou a pistola no cós da calça. Perfeito! Seria fácil como matar uma galinha. Ficou escuro. Kalle se agachou. Seus dedos encontraram o caco de vidro. Levantou-se. E se viu preso.

Kalle não sabia que tipo de aperto era aquele. Só sabia que estava imobilizado. Não conseguia mexer um só dedo. Tentou se soltar, mas era a mesma coisa que puxar o lado errado de um nó. O aperto ficou ainda pior, e seus braços e pescoço doíam muito. Devia ser alguma técnica de artes marciais. O caco de vidro escapuliu de sua mão. O elevador começou a descer.

As portas se abriram novamente. Ouviram o barulho incessante do andar térreo, e Kalle foi solto. Abriu a boca e respirou. A pistola estava apontada para ele e sinalizava que deveria seguir pelo corredor.

Kalle foi conduzido a uma das salas de ensaio vazias, onde o cara ordenou que se sentasse no chão com as costas apoiadas no aquecedor. Estava sentado, imóvel, e olhava para uma bateria enorme com o nome The Young Hopeless, enquanto o cara o amarrava no aquecedor com um longo cabo preto. Não havia sentido em resistir. Se o cara quisesse matá-lo, ele já estaria morto. A droga e o dinheiro poderiam ser restituídos. Obviamente, teria que pagar por isso, mas, naquele momento, o que o preocupava mais era como explicaria a Vera que aquela viagem para fazer compras numa cidadezinha interessante teria que esperar. O cara pegara duas cordas de guitarra do chão e usado a mais grossa para amarrar sua cabeça e o dorso do seu nariz, e com a outra, o queixo. Devia ter amarrado a outra ponta no aquecedor, pois Kalle sentiu o metal da corda mais fina escavar sua pele e apertar sua gengiva.

— Mexa a cabeça — mandou o cara.

Ele tinha que falar alto por causa da música no fim do corredor. Kalle tentou mexer, mas as cordas estavam apertadas demais.

— Ótimo.

O cara colocou o ventilador em cima da cadeira da bateria, ligou e o apontou para o rosto de Kalle, que fechou os olhos e sentiu o suor secar na pele. Quando os abriu novamente, viu que o cara tinha posto um saco de um quilo de Superboy sobre a cadeira na frente do ventilador e colocou seu capuz na frente da boca e do nariz. Que merda ele pretendia fazer? Então Kalle viu o caco de vidro.

Foi como se uma mão fria lhe apertasse o coração.

Ele sabia o que ia acontecer.

O cara girou o caco de vidro afiado. Kalle se enrijeceu. A ponta do caco de vidro atingiu o saco de plástico, fez uma longa abertura, e o pó branco espalhou no ar. Atingiu os olhos, o nariz e a boca de Kalle. Ele fechou a boca, mas tossiu. Fechou a boca novamente. Sentiu o gosto amargo do pó que se prendia às membranas mucosas, que ardiam e queimavam. A droga já estava entrando na sua corrente sanguínea.

A foto de Pelle com a esposa estava presa no painel do carro, entre o volante e a porta. Pelle passou o dedo na superfície macia e oleosa. Estava de volta à sua parada em Gamlebyen, mas não adiantava nada. Era verão, a cidade estava vazia, e as corridas que apareciam em seu monitor partiam de outros pontos da cidade. Mas ainda havia esperança. Viu uma pessoa sair da antiga fábrica. Caminhava com velocidade e determinação, o que significava que tinha pressa e queria pegar logo o único táxi da parada antes que a luz no teto se apagasse e o veículo desaparecesse. Mas, de repente, o sujeito parou e se apoiou na parede. Debruçou-se. Estava bem embaixo de um poste, então Pelle pôde ver quando expeliu algo no asfalto. Ele não entraria no táxi nem a pau. O cara continuou debruçado, vomitando. Pelle sabia muito bem como era. Sentia gosto de bile só de ver aquilo. Quando terminou, o cara limpou a boca na manga do casaco, se endireitou, colocou a mochila no ombro e continuou a caminhar em direção a Pelle. Só quando chegou ainda mais perto é que o motorista percebeu que era o mesmo cara que estivera em seu táxi uma hora antes. Aquele sem dinheiro suficiente para ir até o Centro Ila. E agora ele sinalizava que queria outra corrida. Pelle apertou o botão que trancava todas as portas e abriu só um pouco da janela. Esperou até o cara chegar ao lado do carro e puxar a maçaneta em vão.

— Desculpe, amigo, mas não vou fazer essa corrida.

— Por favor.

Pelle olhou para ele. Havia traços de lágrimas em suas bochechas. Não sabia o que tinha acontecido, mas não era problema dele. Ok, podia ser que tivesse acontecido algo triste, mas não dava para sobreviver como taxista em Oslo se você abrisse a porta para os problemas de todos.

— Escute, eu vi você vomitando. Se vomitar no carro, vai ter que me dar mil coroas, porque eu acabo perdendo um dia inteiro de trabalho. Além do mais, da última vez que você saiu do meu carro, não tinha nem mais um centavo. Então não vai dar, ok?

Pelle fechou a janela e olhou para a frente. Esperava que ele fosse embora sem criar confusão e preparou-se para sair dali se fosse necessário. Merda, seu pé estava doendo muito essa noite. Pelo canto do olho, viu o garoto abrir a mochila e tirar algo de dentro, que ele encostou na janela do carro.

Pelle virou um pouco a cabeça. Era uma nota de mil coroas.

Balançou a cabeça, mas o cara permaneceu lá, imóvel. Aguardou. Não estava preocupado. O cara não tinha criado confusão mais cedo. Muito pelo contrário, ao invés de reclamar que Pelle não dirigira um pouco mais, assim como os que não têm dinheiro suficiente costumam fazer, agradeceu quando Pelle parou no momento em que o taxímetro alcançou o valor que recebera. Agradeceu com tamanha sinceridade que Pelle até ficou com a consciência pesada por não tê-lo levado ao seu destino. Teriam sido só dois minutos mais.

Pelle suspirou e apertou o botão que destravava as portas.

O cara entrou no banco de trás.

— Obrigado. Muito obrigado.

— Tudo bem. Para onde você vai?

— Primeiro para Berg, por favor. Preciso só deixar uma coisa lá, então agradeceria se você fizesse a gentileza de esperar. Depois vamos para o Centro Ila. É claro que pagarei adiantado.

— Não precisa — disse Pelle, e ligou o carro.

Sua esposa tinha razão. Ele era bom demais para esse mundo.