O filho
Capítulo 31
Eram sete da manhã quando Simon chegou ao trabalho. Dormira duas horas e meia, bebera um copo e meio de café e estava com meia dor de cabeça. Algumas pessoas conseguiam ficar bem dormindo pouco. Simon não era uma delas.
Talvez Kari fosse. Pelo menos parecia surpreendentemente bem ao vir em sua direção.
— E aí? — perguntou Simon.
Ele desabou na cadeira e abriu o envelope marrom que estava na sua caixa de correio.
— Nenhum dos três que prendemos ontem está falando — contou Kari. — De fato, não dizem uma palavra sequer. Não querem dizer nem o nome.
— Que bons rapazes. E nós sabemos como se chamam?
— Sim. Nossos infiltrados os reconheceram. Todos os três já têm condenações prévias. E ontem à noite apareceu um advogado do nada e acabou com nossas tentativas de conseguir alguma informação deles. Um tal de Einar Harnes. Rastreei o aparelho que o Filho usou para mandar a mensagem. É o número de Fidel Lae. Dono de canil. Não atende nossas ligações, mas as estações de base indicam que o aparelho se encontra na fazenda dele. Mandamos dois carros de patrulha até lá.
Simon entendeu por que ela não parecia que tinha acabado de sair da cama, assim como ele. Nem tinha dormido. Trabalhara a noite inteira.
— E teve também esse Hugo Nestor que você me pediu para procurar... — continuou ela.
— Sim?
— Não atende ao telefone, não está em casa, nem no escritório, mas tudo isso pode ser armado. Até agora, tudo o que eu sei é que um dos nossos infiltrados disse que ele estava no Vermont ontem à noite.
— Hmm. Você acha que eu tenho mau hálito, inspetora Adel?
— Não que eu tenha percebido, mas o que...
— Então não devo interpretar isto como uma indireta?
Simon mostrou-lhe três escovas de dente.
— Parecem usadas — disse Kari. — Quem lhe deu?
— Boa pergunta.
Simon pegou o envelope. Continha uma folha de papel com o logotipo do hotel Radisson no topo. Mas não havia nenhum remetente. Apenas um bilhete curto, escrito à mão:
Verifique o DNA. S.
Ele mostrou a folha a Kari e olhou para as escovas de dente.
— Deve ser um doido qualquer — disse Kari. — O pessoal da forense já está muito ocupado com todos esses homicídios, e...
— Mande-as para lá — pediu Simon.
— Quê?
— É ele.
— Ele quem?
— S. É o Sonny.
— Como você sabe?
— Peça que priorizem a análise.
Kari olhou para ele. O telefone de Simon começou a tocar.
— Está bem — disse ela, e se virou para sair.
Estava de frente para o elevador quando Simon parou ao seu lado. Havia vestido o casaco.
— Primeiro você vem comigo para outro lugar — disse ele.
— Onde?
— Era Åsmund Bjørnstad ao telefone. Acharam mais um corpo.
Um galo-lira deu um grito oco na floresta de abetos.
Åsmund Bjørnstad perdera qualquer traço de arrogância. Estava pálido. Tinha ligado e dito simplesmente “Precisamos de ajuda, Kefas.”
Simon estava ao lado do inspetor da Polícia Federal e de Kari, olhando através das grades da jaula para os restos de um corpo que tinham provisoriamente identificado com a ajuda de diversos cartões de crédito. Hugo Nestor. A confirmação só viria quando comparassem os dentes com os raios X de visitas ao dentista. Devido às obturações dos dentes expostos, Simon podia concluir que o defunto já fora ao dentista. Os dois policiais do setor canino, que transportaram os dogos argentinos, haviam dado uma simples explicação sobre o estado do corpo:
— Os cães estavam famintos. Receberam pouca comida.
— Nestor era o chefe de Kalle Farrisen — comentou Simon.
— Eu sei — gemeu Bjørnstad. — Vai ser um inferno quando a imprensa souber disso.
— Como é que acharam Lae?
— Dois carros de patrulha seguiram o sinal do telefone — respondeu Bjørnstad.
— Fui eu que os mandei — disse Kari. — Recebemos uma mensagem.
— Primeiro acharam o telefone de Lae — contou Bjørnstad. — Estava em cima do portão, como se alguém o tivesse posto lá para que fosse rastreado e encontrado. Mas vasculharam a casa e não encontraram Lae. Já estavam prestes a ir embora quando um dos cachorros da polícia farejou algo e quis entrar na floresta. E foi onde acharam... isso. — Ele estendeu os braços.
— E Lae? — perguntou Simon, e acenou para o homem que estava sentado num toco de árvore, tremendo, enrolado num cobertor de lã.
— Ele diz que o homem o ameaçou com uma pistola, depois o trancou na jaula ao lado, tomou seu telefone e sua carteira. Lae estava trancado ali fazia um dia e meio. Viu tudo.
— E o que ele diz?
— Está perturbadíssimo, coitado. Não para de falar. Disse que Nestor era cliente dele, e que vendia cães ilegais. Mas não consegue nos dar uma descrição precisa do autor do crime. Não é incomum que vítimas não se lembrem do rosto de quem as ameaçou.
— Ah, elas lembram, sim — disse Simon. — Lembram-se do rosto por toda a vida. Só não se lembram da mesma forma que nós os vemos. Por isso suas descrições costumam ser erradas. Espere aqui.
Simon foi até Lae. Sentou-se no toco de árvore ao lado dele.
— Como ele era? — perguntou Simon.
— Eu já dei uma descrição.
— Era este homem? — perguntou Simon, apanhando uma foto do bolso e a mostrando para ele. — Tente imaginá-lo sem barba e com o cabelo cortado.
Lae olhou para a foto por bastante tempo. Por fim, assentiu devagar.
— O olhar. Ele tinha este mesmo olhar. Como se fosse inocente.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Obrigado.
— Ele também dizia isso o tempo inteiro. “Obrigado.” E chorou quando os cachorros atacaram Nestor.
Simon colocou a foto de volta no bolso.
— Só mais uma coisa. Você contou à polícia que ele ameaçou você com uma pistola. Com que mão ele segurava a pistola?
Lae demorou a responder, como se ainda não tivesse pensado nisso.
— Com a esquerda. Era canhoto.
Simon se levantou e voltou para Bjørnstad e Kari.
— Trata-se de Sonny Lofthus.
— Quem? — perguntou Åsmund Bjørnstad.
Simon olhou para o inspetor por bastante tempo.
— Não foi você quem levou a Tropa de Choque para o Centro Ila para prendê-lo?
Bjørnstad balançou a cabeça.
— De qualquer forma... — Simon apanhou a fotografia novamente. — Precisamos emitir uma descrição e um aviso de procurado, para que o público possa nos ajudar. Precisamos levar esta foto à redação da NRK e da TV2.
— Duvido que alguém vá reconhecê-lo com base nessa foto.
— Então que cortem o cabelo e a barba no Photoshop. Quando você acha que eles podem divulgar a informação?
— Na primeira oportunidade que tiverem, pode ter certeza — garantiu Bjørnstad.
— O noticiário da manhã começa daqui a quinze minutos. — Kari apanhou o celular e ativou a função de câmera. — Segure a foto com firmeza. Para quem podemos mandar esta foto na NRK?
Morgan Askøy coçava cuidadosamente uma casquinha de ferida nas costas da mão. O motorista de ônibus freou bruscamente, ele arrancou a casca, e uma gota de sangue brotou. Desviou rapidamente o olhar, pois não suportava ver sangue.
Morgan desceu na parada ao lado da Prisão de Segurança Máxima Staten, onde trabalhava havia dois meses. Estava andando atrás de um grupo de agentes penitenciários quando outro cara uniformizado apareceu ao seu lado.
— Bom dia.
— Bom dia — respondeu Morgan automaticamente.
Olhou para ele, mas não o reconheceu. Mesmo assim, ele continuou a andar ao seu lado, como se fossem conhecidos. Ou como se quisesse vir a conhecê-lo.
— Você não é do pavilhão A — disse o cara. — É novo aqui?
— Sou do B — respondeu Morgan. — Dois meses.
— Ah, sim.
O cara era mais jovem do que os outros apaixonados pelo uniforme. Em geral, só os mais velhos iam ao trabalho e voltavam para casa com o uniforme, como se o vestissem com orgulho. Assim como o próprio chefe, Franck. Morgan se sentiria um idiota se estivesse uniformizado no ponto de ônibus e alguém olhasse para ele, e talvez até perguntasse onde trabalhava. Na Staten. Uma prisão. Nem a pau. Olhou para o crachá do cara: Sørensen.
Passaram lado a lado pela guarita. Morgan cumprimentou o guarda lá dentro com um aceno de cabeça.
Quando se aproximaram da entrada, o cara pegou um celular e ficou um pouco para trás. Talvez estivesse mandando uma mensagem.
A porta se fechara depois que entraram os que estavam na frente de Morgan, então ele teve que usar a própria chave. Abriu a porta.
— Muito obrigado — agradeceu-lhe o tal de Sørensen, e entrou na frente dele.
Morgan entrou depois, e foi em direção ao vestiário. Viu que o cara entrou na passagem de segurança junto com os outros, em direção aos pavilhões.
Betty tirou os sapatos e desabou na cama. Que noite! Estava exausta, e sabia que não conseguiria dormir imediatamente, mas tinha que tentar. Para dormir, porém, precisava primeiro esquecer que deveria ter relatado à polícia o que acontecera na suíte 4. Depois que ela e o segurança verificaram rapidamente para ver se algo fora roubado ou destruído, Betty arrumara um pouco a suíte e já ia jogar fora o resto do limão quando descobriu uma seringa descartável na lixeira. Foi como se seu cérebro conectasse as duas coisas sozinho; a seringa e a cor estranha da polpa. Então passou o dedo pela casca da fruta e sentiu vários furos. Espremeu uma gota do limão na mão e viu que era meio turva, como se contivesse cal. Pôs a língua cuidadosamente na gota e sentiu que, além do gosto dominante de limão, havia também algo amargo, que parecia remédio. Teve que tomar uma decisão. Por acaso havia algo que dissesse que hóspedes não podiam ter limões com sabor esquisito? Ou seringas descartáveis, caso fossem diabéticos ou tivessem outras doenças? Ou algo que dissesse que não podiam fazer brincadeiras estranhas com seus convidados? Então levou o conteúdo da lixeira à recepção e jogou tudo fora. Depois, escreveu um relatório sobre a confusão na suíte 4 e sobre o homem que encontraram amarrado à latrina. Ele mesmo dissera que tudo não passara de uma brincadeira. O que mais ela poderia ter feito?
Ligou a televisão na parede, despiu-se, foi ao banheiro, tirou a maquiagem e escovou os dentes. Ouviu o som constante de vozes do canal de notícias TV2. Costumava deixar a televisão ligada naquele canal, com o som baixo, pois a ajudava a pegar no sono. Talvez porque a voz reconfortante do apresentador a lembrasse de seu pai. Uma voz como essa poderia anunciar a ruína de continentes, e mesmo assim ela ainda se sentiria segura. Mas só isso não era suficiente. Começara a tomar remédios para dormir. Eram fracos, mas mesmo assim. O médico lhe dissera que ela deveria pensar em pedir para deixar de trabalhar à noite, para ver se ajudava, mas o caminho para o sucesso não admite corpo mole, todos têm que fazer sua parte. Por cima do som da torneira e do rangido do escovar de dentes, ouviu uma voz dizer que a polícia procurava uma pessoa pelo homicídio de um homem em um canil ontem à noite, e que a mesma pessoa estava ligada ao homicídio de Agnete Iversen e ao homicídio triplo em Gamlebyen.
Enxaguou a boca, desligou a torneira e foi para o quarto. Parou à porta. Olhou a foto que era mostrada na televisão.
Era ele.
Com barba e cabelo comprido, mas Betty era treinada em despir um rosto de máscaras e disfarces, comparava fotos que o Plaza e outras cadeias de hotéis tinham de caloteiros conhecidos que, mais cedo ou mais tarde, apareceriam na recepção deles. E aquele homem com certeza era este da foto. Aquele que ela recebera no check-in, mas sem óculos e com sobrancelhas.
Olhou para o telefone que tinha colocado no criado-mudo.
Atenta, porém discreta. Colocar os interesses do hotel em primeiro lugar. Poderia ir longe.
Fechou os olhos novamente.
Sua mãe tinha razão. A maldita curiosidade.
Arild Franck estava à janela vendo os agentes do turno da noite passarem pelo portão. Viu os agentes que chegavam atrasado para o primeiro turno do dia. Isso o irritava. Ele se irritava com gente que não sabia trabalhar direito. Como o pessoal da Polícia Federal e do Departamento de Homicídios. Naquela ação no Centro Ila, tinham a informação correta, e mesmo assim Lofthus conseguira escapar. Assim não dava. E agora haviam pago pela incompetência da polícia. Hugo Nestor fora morto no dia anterior. Em um canil. Era inacreditável que um só homem, um dependente químico, pudesse causar tanta destruição. Era sua parte de cidadão de bem, obediente à lei, que se irritava com tanta incompetência. Irritava-se até mesmo com o fato de que a polícia nunca conseguira capturar a ele próprio, o corrupto diretor-adjunto da prisão. Pois era lógico que Simon Kefas desconfiava dele. Franck vira isso em seu olhar. Mas Kefas tampouco tinha se atrevido, aquele rato covarde. Só era valente quando se tratava de arriscar dinheiro. Maldito dinheiro. O que é que Franck tinha pensado? Que o dinheiro poderia lhe comprar um busto de cidadão exemplar, de pilar da sociedade? E quando você sentia o gosto do dinheiro, era a mesma coisa que heroína; as cifras da sua conta bancária deixam de ser o objetivo e passam a ser somente o meio. Pois não há mais nenhum objetivo significativo. E, tal como o viciado em heroína, você sabe disso e entende o que está acontecendo, mas mesmo assim não consegue parar.
— Um agente chamado Sørensen está entrando — avisou a secretária, na sala de espera.
— Não o deixe...
— Ele passou direto por mim. Disse que só precisava de um minuto.
— Ah, é?
Franck franziu a testa. Sørensen. Será que queria voltar ao trabalho antes do fim do período de licença médica? Um comportamento atípico para trabalhadores noruegueses. Ouviu a porta ser aberta atrás dele.
— Então, Sørensen — começou Arild Franck, sem se virar —, esqueceu de bater à porta?
— Sente-se.
Franck ouviu que a porta foi trancada e virou-se surpreso. Ficou paralisado quando viu a pistola.
— Se fizer algum barulho, dou um tiro na sua testa.
Uma das características de uma pistola é que, quando está apontada para alguém, essa pessoa vai se concentrar tanto na arma que vai demorar para reconhecer a pessoa que a empunha. Mas, quando o garoto levantou o pé e empurrou a cadeira, fazendo-a rolar até o diretor-adjunto, Franck viu quem era. Ele tinha voltado.
— Você está diferente — comentou Franck. Pretendera dizê-lo com mais autoridade, mas sua garganta estava seca, e quase nenhum som saiu.
A pistola foi erguida um pouco mais, e Franck se sentou imediatamente.
— Coloque os braços nos braços da cadeira — ordenou o garoto. — Agora eu vou apertar o botão do interfone, e você vai mandar Ina sair para ir comprar algo de comer. Agora.
O garoto apertou o botão.
Ouviu-se a voz prestativa de Ina:
— Pois não?
— Ina... — O cérebro de Franck procurava alternativas desesperadamente.
— Sim?
— Você pode... — A procura de Franck parou abruptamente quando ele viu o garoto puxar o gatilho ligeiramente. — ... comprar alguns pães para nós, por favor? Agora mesmo.
— Ok.
— Obrigado, Ina.
O garoto soltou o gatilho, pegou um rolo de fita isolante no bolso, foi até a cadeira de Franck e começou a amarrar seus braços. Depois, passou a fita isolante em volta do peito dele e do encosto da cadeira, em volta dos pés e do apoio das rodinhas da cadeira. Um pensamento estranho passou pela cabeça de Franck: ele deveria estar com mais medo. O garoto matara Agnete Iversen. Kalle. Sylvester. Hugo Nestor. Será que Franck ainda não sabia que ia morrer? Talvez fosse pelo fato irrelevante de que se encontrava na própria sala na Staten, em plena luz do dia. De que tinha visto aquele garoto crescer em sua própria prisão sem que, com exceção daquele episódio com Halden, tivesse mostrado vontade nem habilidade para o uso de violência.
O garoto revistou seus bolsos e pegou a carteira e a chave do carro.
— Porsche Cayenne — leu o garoto, em voz alta. — Um carro muito caro para o seu cargo, não acha?
— O que você quer?
— Quero que responda três perguntas simples. Se fizer isso, talvez eu deixe você viver. Senão, sinto muito, mas vou ter que matar você. — E disse isso com um tom de comiseração real. — A primeira pergunta é: para qual conta bancária e no nome de quem Nestor enviava os pagamentos pelos seus serviços?
Franck refletiu um pouco. Ninguém sabia dessa conta, ele poderia falar qualquer coisa, inventar qualquer número, e ninguém poderia confirmar. Abriu a boca, mas foi interrompido pelo garoto:
— Se eu fosse você, pensaria bem antes de responder.
Franck olhou para o cano da pistola. O que ele queria dizer? Ninguém podia confirmar nem negar o número da conta dele. Ninguém, além de Nestor, que mandava o dinheiro, claro. Franck hesitou. Será que ele tinha forçado Nestor a dizer o número da conta antes de matá-lo? Aquilo era um teste?
— A conta é de uma empresa, Dennis Limited, registrada nas Ilhas Cayman.
— E o número, qual é?
O garoto segurava um cartão de visita dourado. Era ali que tinha anotado o número que Nestor lhe dera? E se fosse um blefe, qual era o problema? Mesmo que ele lhe desse o número da conta, não poderia sacar o dinheiro. Franck começou a dizer os números.
— Mais devagar — pediu o garoto, olhando para o cartão de visita —, e com mais clareza.
Franck obedeceu.
— Agora só restam duas perguntas — disse o garoto quando ele terminou. — Quem matou meu pai? E quem era o informante que ajudava o Gêmeo?
Arild Franck piscou devagar. Agora seu corpo entendera. E agora que entendera, suava por todos os poros. Entendera que deveria estar com medo. A faca. A arma mortal de Hugo Nestor, torta e pequena e feia.
Ele gritou.
* * *
— Agora eu entendi.
Simon guardou o celular no bolso do casaco enquanto saía do túnel e entrava na luz de Bjørvika e do Fiorde de Oslo.
— Entendeu o quê? — perguntou Kari.
— Uma das recepcionistas noturnas do Plaza acabou de ligar. Contou que o nosso procurado dormiu uma noite numa suíte do hotel onde ela trabalha. Registrou-se com o nome Fidel Lae. Contou também que outro homem foi encontrado amarrado ao vaso sanitário, depois de uma reclamação por parte dos quartos vizinhos. Esse homem foi embora assim que o soltaram. O hotel verificou o circuito interno, e as imagens mostram que Lofthus chegou com Hugo Nestor e com o homem que foi encontrado no quarto.
— Você ainda não respondeu o que foi que entendeu.
— Ah, sim. Entendi como os três homens na rua Enerhaug sabiam que estávamos a caminho. De acordo com os registros da recepção, o homem que estava amarrado saiu do hotel quando estávamos em frente à casa de tráfico. Ele deve ter ligado e avisado a todos que Nestor fora sequestrado, então mandaram evacuar todos os locais, para o caso de Nestor os delatar. Eles se lembravam do que aconteceu com Kalle, não é? Mas, quando iam sair com as garotas na van, descobriram que já estávamos lá. Então esperaram que fôssemos embora, ou que entrássemos juntos, para que pudessem sair despercebidos.
— Você pensou bastante sobre isso, não foi? — indagou Kari. — Sobre como eles sabiam que estávamos a caminho.
— Talvez. — Simon dobrou em direção à sede da polícia. — Mas agora eu sei o que aconteceu.
— Você sabe o que pode ter acontecido — corrigiu Kari. — Vai me contar no que está pensando agora?
Simon deu de ombros.
— Que precisamos pegar Lofthus antes que ele cause ainda mais estrago.
— Que cara engraçado — comentou Morgan Askøy para seu colega mais velho enquanto caminhavam pelo corredor amplo de celas abertas, prontas para a inspeção matinal. — Sørensen. Veio falar comigo do nada.
— Não pode ser. Só tem um Sørensen no pavilhão A, e ele está doente.
— Era ele, sim. Eu vi o crachá com o nome no uniforme.
— Mas eu falei com o Sørensen faz poucos dias, e ele tinha acabado de ser internado de novo.
— Então se recuperou rápido.
— Que estranho. Você disse que ele estava de uniforme? Não pode ser o Sørensen, ele odeia o uniforme. Sempre deixa no vestiário. Foi lá que Lofthus furtou o uniforme dele.
— O fugitivo?
— É. Está gostando do trabalho, Askøy?
— Estou.
— Muito bem. Não deixe de tirar folgas. Não queira trabalhar demais.
Deram mais seis passos, até que ambos pararam repentinamente e se entreolharam. Os olhos dos dois estavam arregalados.
— Como era esse cara? — perguntou o colega.
— Como era Lofthus? — perguntou Askøy.
Franck respirou pelo nariz. O grito fora interrompido pelo garoto, que lhe tapara a boca com a mão. Então ele tirara o sapato e a meia e a colocara dentro da boca de Franck, cobrindo-a depois com fita isolante.
Agora o garoto estava cortando um pedaço da fita que prendia o braço de Franck à cadeira, apenas o suficiente para que ele pudesse segurar a caneta que lhe fora entregue e levá-la à folha no canto da mesa.
— Responda.
Franck escreveu:
Não sei.
Soltou a caneta.
Ele ouviu a fita isolante sendo rasgada e sentiu o cheiro de cola antes que a fita cobrisse suas narinas e bloqueasse a passagem de ar. O corpo de Franck se debateu na cadeira, como se não pudesse mais controlá-lo. Estava se contorcendo. Dançando para aquele maldito garoto. A pressão na cabeça aumentou, parecia que ia explodir a qualquer momento. Já estava se preparando para morrer quando viu o garoto enfiar a ponta da caneta na fita esticada sobre suas narinas.
Abriu-se um buraco, e a narina esquerda de Arild Franck sugou ar, enquanto lágrimas mornas desciam-lhe pelas bochechas.
O garoto lhe deu a caneta novamente. Franck se concentrou.
Tenha piedade. Eu escreveria o nome se soubesse.
O garoto leu. Fechou os olhos e fez uma careta, como se estivesse sentindo dor. Rasgou um novo pedaço de fita. O telefone na mesa começou a tocar. Franck olhou esperançoso para o aparelho. A tela se iluminou, estampando um número interno. Era Goldsrud, o chefe da guarda. Mas o garoto não se importou, apenas se concentrou em colocar um novo pedaço de fita isolante no nariz de Franck. E Franck sentiu o tremor que acompanhava o próprio pânico. Era quase como se não soubesse se estava tremendo ou rindo.
— O chefe não atende — disse Geir Goldsrud, e desligou. — E a Ina também não. Ela sempre atende quando ele não atende. Mas antes de tentarmos de novo, me conte essa história mais uma vez. Você está dizendo que o cara que viu se chamava Sørensen e se parecia com esse aqui... — O chefe da guarda apontou para a foto de Sonny Lofthus na tela do computador.
— Não parecia! — gritou Morgan. — Eu já disse que é ele.
— Calma — pediu o colega mais velho.
— Calma! — bufou Morgan. — Ele é procurado por apenas seis assassinatos.
— Vou ligar para o celular da Ina, e se ela não souber onde o chefe está, vamos começar a procurar aqui. Mas sem pânico, entendeu?
Morgan olhou para seu colega e depois para o chefe da guarda, que parecia mais próximo de entrar em pânico do que ele. Morgan estava apenas empolgado. Muito empolgado. Um prisioneiro que tinha voltado para a prisão? Parecia inacreditável.
— Ina? — Goldsrud praticamente gritava ao telefone, e Morgan viu o alívio em seu rosto. Era fácil acusar o chefe da guarda de querer fugir da responsabilidade, mas devia ser um inferno ser o responsável, apenas um nível abaixo do diretor-adjunto. — Precisamos falar com Franck imediatamente. Onde ele está?
Morgan viu que o alívio se transformou em espanto e, depois, em desespero. Goldsrud desligou.
— O que... — o colega mais velho começou a perguntar.
— Ela disse que ele está na sala dele, com visita. — Goldsrud se levantou e foi em direção aos armários nos fundos do local. — De uma pessoa chamada Sørensen.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Morgan.
Goldsrud colocou a chave na fechadura, girou-a e abriu a porta.
— Isso — disse ele.
Morgan contou doze rifles.
— Dan e Harald, vocês vêm também! — gritou Goldsrud, e Morgan já não ouvia espanto, desespero nem medo de responsabilidade em sua voz. — Rápido!
Simon e Kari estavam na frente do elevador no átrio da sede da polícia quando o telefone dele tocou.
Era do Instituto Médico Legal.
— Temos um resultado provisório da análise de DNA das escovas de dente.
— Ótimo — disse Simon —, e o resultado no final do primeiro tempo é...?
— Eu diria que é o resultado a trinta segundos do apito final. A probabilidade é de mais de 95 por cento.
— Probabilidade de quê? — perguntou Simon, e viu as portas do elevador se abrirem.
— De que a saliva em duas das escovas corresponda a uma pessoa no nosso registro. O estranho é que essa pessoa não é um criminoso conhecido nem um policial, mas uma vítima. Na verdade, quem usou as escovas é familiar próximo de uma vítima de homicídio.
— Eu já imaginava — disse Simon, e entrou no elevador —, pois são as escovas de dente da família Iversen. Eu vi que não estavam no banheiro deles, depois do homicídio. A saliva corresponde ao DNA de Agnete Iversen, não é?
Kari olhou rapidamente para Simon, que ergueu a mão em triunfo.
— Não — respondeu o médico-legista. — Agnete Iversen ainda não está cadastrada no registro central de DNA.
— Hã? Como...
— É uma vítima desconhecida.
— Vocês encontraram um parentesco entre o DNA de duas escovas de dente e uma vítima de homicídio desconhecida. Como assim, desconhecida?
— Não identificada. Uma pessoa do sexo feminino, muito jovem e muito morta também.
— Quão jovem? — perguntou Simon, e olhou para as portas do elevador, que se fechavam.
— Mais jovem do que costumam ser.
— Diga logo.
— Provavelmente 4 meses de vida.
O cérebro de Simon tentou processar a informação da melhor maneira que podia.
— Você está dizendo que Agnete Iversen fez um aborto tardio?
— Não.
— Não? Então quem é... Merda! — Simon fechou os olhos e apoiou a testa na parede do elevador.
— A ligação caiu?
Simon assentiu.
— Daqui a pouco saímos do elevador — disse ela.
O garoto fez dois furos na fita isolante. Um para cada narina. Arild Franck aspirou novos segundos de vida nos pulmões. Tudo o que queria era viver. E seu corpo apenas obedecia a essa vontade.
— Vai escrever algum nome agora? — perguntou o garoto, em voz baixa.
Franck respirou com força. Desejou ter narinas mais largas, vias nasais mais amplas, que pudessem absorver mais daquele doce e delicioso ar. Ouviu sons que sinalizavam que o resgate estava a caminho e, enquanto balançava a cabeça, tentava indicar com a língua seca, atrás da meia, seus lábios cobertos pela fita isolante, que não tinha nenhum nome, que não sabia quem era o informante, que queria apenas um pouco de piedade. Queria ir embora. Queria perdão.
Congelou quando viu o garoto posicionar-se na frente dele e levantar a faca. Não podia se mover, estava totalmente preso. Totalmente... A faca estava vindo. A faca feia e torta de Nestor. Ele pressionou a cabeça para trás, contra o encosto da cadeira, contraiu todos os músculos e deu um grito interno quando viu o sangue jorrar do próprio corpo.