O filho

Jo Nesbo · Capítulo 2 de 44

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O filho

Capítulo 2

 

Arild Franck gritou um breve “Entre!” sem tirar os olhos dos papéis na sua escrivaninha.

Ouviu a porta sendo aberta. Ina, sua secretária, assistente do diretor da prisão, já havia anunciado o visitante, e por um instante Franck cogitara pedir para dispensar o capelão alegando que estava ocupado. Nem era mentira, pois em meia hora teria um encontro com o comissário-chefe na Politihuset, sede da polícia de Oslo, mas Per Vollan não andava tão estável quanto necessário, então talvez não fosse uma má ideia conferir como ele estava lidando com a situação. Esse caso não permitia tropeços de nenhum deles.

— Nem precisa se sentar — disse Franck, assinando um papel e se levantando em seguida. — Vamos ter que conversar no caminho.

Ele se dirigiu à porta, apanhou o quepe no gancho e ouviu os passos do capelão o seguindo de má vontade. Avisou a Ina que voltaria em uma hora e meia e colocou o indicador no sensor de digitais ao lado da porta que levava à escadaria. A prisão de dois andares não tinha elevador. Ter elevador significa ter poços, que são ótimas rotas de fuga, além de precisarem ser fechados em caso de incêndio. E incêndio — e a subsequente evacuação caótica — era apenas um dos vários métodos que prisioneiros espertinhos utilizavam para fugir. Pelo mesmo motivo, os prisioneiros não tinham acesso às fiações elétricas, às caixas de fusível ou à tubulação de água. Tudo era embutido nas paredes ou ficava do lado de fora da prisão. Ali, tudo fora bem planejado. Ele tinha planejado tudo. Foi Franck quem se reuniu com os arquitetos e os especialistas estrangeiros quando o projeto ainda estava no papel. Staten era inspirada na prisão de Lenzburg, no Cantão Argóvia, na Suíça: hipermoderna, mas ao mesmo tempo simples, com destaque para segurança e efetividade acima de conforto. Ele, Arild Franck, criara a Staten. Staten era Arild Franck e vice-versa. Então por que ele era só diretor-adjunto, enquanto o conselho, em sua infinita sabedoria, malditos fossem os idiotas, tinham nomeado aquele imbecil do Halden como diretor? Tudo bem, Franck não era um cara polido e tampouco do tipo que adorava bajular políticos aplaudindo qualquer ideia nova sobre reformas no sistema prisional antes mesmo que as últimas reformas tivessem sido implementadas, mas sabia fazer seu trabalho: mantinha os presos atrás das grades sem que ficassem doentes, morressem ou se tornassem seres humanos muito piores. Era leal àqueles que mereciam sua lealdade e cuidava dos seus. Isso era muito mais do que se podia dizer de seus superiores nessa hierarquia podre do mundo da política. Antes de ser deliberadamente ignorado para o cargo de diretor, Franck havia imaginado que ao se aposentar ergueriam em sua homenagem um pequeno busto no foyer, pelos serviços prestados — mesmo que sua esposa tivesse dito que seu torso sem pescoço, a cara de buldogue e o cabelo lambido para trás não eram apropriados para uma boa escultura. Mas quem não recebe o que merece deve tomar o que merece. Essa era sua opinião sobre o assunto.

— Não posso mais continuar com isso, Arild — disse Per Vollan atrás dele, enquanto seguiam pelo corredor.

— Continuar com o quê?

— Eu sou um sacerdote. Isso que estamos fazendo com o garoto... ele está pagando por algo que não cometeu! Cumprindo pena por um marido que...

— Shh!

Do lado de fora da sala de controle, ou a “ponte”, como Franck gostava de chamar, passaram por um senhor que interrompeu a limpeza do chão para acenar amigavelmente para Franck. Johannes era o prisioneiro mais velho do lugar, e era exatamente o tipo de prisioneiro de que Franck gostava: uma alma gentil que contrabandeara drogas uma vez no século anterior e com o passar dos tempos já se tornara tão institucionalizado, condicionado e pacificado que hoje em dia só tinha medo do dia que saísse dali. Infelizmente, presos como ele não eram nenhum desafio para uma prisão como a Staten.

— Está com a consciência pesada, Vollan?

— Sim, Arild, estou.

Franck não se lembrava do dia em que funcionários começaram a chamar seus superiores pelo primeiro nome. Nem de quando a direção decidira ignorar o uniforme. Em alguns lugares, até os agentes andavam à paisana. Durante uma rebelião na Francisco de Mar, em São Paulo, tinham até atirado nos próprios colegas porque não conseguiam distinguir os agentes dos prisioneiros em meio a todo o gás lacrimogênio.

— Eu quero sair desse esquema — implorou o capelão.

— Ah, é? — Franck descia as escadas correndo. Estava em boa forma, para alguém que se aposentaria em menos de dez anos. Praticava esportes, mais uma virtude esquecida naquele setor onde a obesidade era a regra e não a exceção. Além disso, havia treinado a equipe local de natação, no tempo em que a filha competia. Trabalhara em prol da comunidade durante seu tempo livre, e dessa forma retribuíra um pouco para a sociedade de seu país, que tanto dava para tantas pessoas. Então, como ousavam não promovê-lo? — E como está sua consciência no que diz respeito aos garotinhos de quem temos provas de que você se aproveitou, Per?

Franck colocou o indicador no sensor da porta seguinte, que levava a um corredor: para a esquerda, chegava-se às celas; para a direita, ao vestiário dos funcionários e à saída que dava para o estacionamento.

— Lembre-se de que Sonny Lofthus também está pagando pelos pecados que você cometeu.

Nova porta, novo sensor. Franck pressionou o indicador nesse também. Ele adorava esse mecanismo que tinha reproduzido da prisão Obihiro, em Kushiro, no Japão. Em vez de distribuir chaves, que poderiam ser copiadas, perdidas ou utilizadas indevidamente, as impressões digitais de todos com permissão para passar por aquelas portas estavam registradas no banco de dados. Dessa forma, eles não somente haviam eliminado o risco de manuseio negligente das chaves como também podiam registrar quem passara por qual porta e quando. Também tinham câmeras de vigilância, é claro, mas o rosto você pode esconder, as impressões digitais, não. A porta se abriu com um sopro, e eles entraram em uma pequena passagem de segurança com uma porta de ferro gradeada em cada extremidade. Uma só podia ser aberta quando a outra já estivesse fechada.

— Estou lhe dizendo que não aguento mais, Arild.

Franck pôs o dedo indicador nos lábios. Além das câmeras de vigilância, que cobriam praticamente toda a prisão, as passagens de segurança também eram equipadas com sistema de áudio para que fosse possível se comunicar com a sala de controle caso alguém, por algum motivo, ficasse preso lá. Eles saíram da passagem e seguiram em direção aos vestiários, onde haviam duchas e armários privados para que os funcionários guardassem suas roupas e outros pertences. Franck achava que os outros não precisavam saber que ele tinha uma chave mestra que abria todos os armários. Muito pelo contrário.

— Pensei que você soubesse com quem estava lidando — disse Franck. — Você não pode simplesmente sair disso. Para essa gente, a lealdade é uma questão de vida ou morte.

— Eu sei. — A respiração ofegante de Per Vollan adquirira uma terrível aspereza. — Mas estou falando de vida ou morte eternas.

Franck parou em frente à saída e olhou na direção dos vestiários, para conferir se estavam mesmo sozinhos.

— Você sabe o risco que está correndo?

— Juro que não dou um pio para ninguém, Deus é minha testemunha. Quero que você diga exatamente isso para eles, Arild, que minha boca é um túmulo e que eu só quero sair disso. Você pode dar um jeito de me ajudar?

Franck olhou para baixo. Para o sensor. Saída. Só existiam duas saídas. Aquela ali, pela porta dos fundos, e através da recepção. Nenhum tubo de ventilação, esgoto ou escada de incêndio.

— Talvez — disse ele, pondo o dedo no sensor. Uma luzinha vermelha no topo da maçaneta piscou para indicar que o banco de dados estava sendo acessado. A luz vermelha se apagou, e em seu lugar se acendeu a verde. Franck abriu a porta. Ofuscado pelo intenso brilho do sol de verão, pôs os óculos escuros enquanto cruzavam o grande estacionamento. — Vou avisá-los de que você quer sair — consentiu Franck, e procurou as chaves do carro enquanto olhava para a guarita de segurança.

A guarita contava com dois guardas armados 24 horas por dia, todos os dias da semana, e tanto a entrada quanto a saída tinham barras de aço que nem o novo Porsche Cayenne de Franck conseguiria forçar. Talvez o Hummer H1 que ele queria ter comprado conseguisse, mas o carro era muito largo, e eles fizeram a entrada bastante estreita exatamente para evitar que veículos maiores entrassem. Pela mesma razão tinham colocado barricadas de aço no lado interno da cerca de seis metros de altura que cercava a prisão inteira. Franck queria ter posto uma cerca elétrica, mas não obteve autorização do órgão responsável, pois estavam no centro de Oslo e cidadãos inocentes poderiam se machucar. Inocentes? Rá. Se alguém de fora quisesse tocar a cerca, primeiro teria que escalar cinco metros de um muro com arame farpado no topo.

— Está indo para onde? — perguntou Franck.

— Praça Alexander Kielland — respondeu Per Vollan, esperançoso.

— Desculpe, é fora do meu caminho.

— Tudo bem. O ônibus passa aqui em frente.

— Ótimo. A gente se fala.

O diretor-adjunto do presídio entrou em seu carro e seguiu até a guarita. As instruções eram de que todos os veículos deveriam ser parados, inclusive o seu, de modo que os ocupantes fossem verificados. Apenas dessa vez ele pôde passar direto, pois os guardas o viram sair do prédio e entrar no carro, portanto levantaram a cancela para que passasse. Franck retribuiu a continência dos guardas. Parou no sinal da via principal, cem metros adiante. Ficou ali parado admirando sua amada prisão pelo retrovisor. Ela era quase perfeita, mas sempre havia alguém para atrapalhar: a Secretaria de Planejamento Urbano, os novos regulamentos idiotas do ministério ou o RH semicorrupto. Franck só queria o melhor para todo mundo, para os cidadãos honestos e trabalhadores, que mereciam uma vida segura e com certo conforto. Tudo bem, as coisas poderiam ter se dado de outra maneira, não é que ele quisesse que fosse assim. Mas é como ele sempre dizia para seus alunos de natação: nadem ou afundem. Ninguém vai ajudá-los. Em seguida, seus pensamentos se voltaram para a tarefa diante de si. Ele precisava entregar uma mensagem, e não tinha a menor dúvida de qual seria o desfecho daquilo.

O sinal ficou verde e ele pisou fundo.