O filho
Capítulo 33
Simon e Kari caminhavam sob o sol na praça da Câmara Municipal, que era um pouco grande demais, um pouco aberta demais e, durante o verão, um pouco silenciosa demais.
— Utilizamos a descrição de Fidel Lae e encontramos o carro de aluguel — disse Kari. — Foi devolvido, mas, por sorte, ainda não tinha sido lavado. Os peritos acharam manchas de lama que correspondem à do caminho do canil. E eu que pensava que lama era tudo igual.
— Todos os tipos têm uma mistura única de minerais — explicou Simon. — Foi alugado sob o nome de quem?
— Sylvester Trondsen.
— Quem é esse?
— Tem 33 anos, não trabalha, recebe seguro-desemprego. Não o encontramos no endereço que consta no registro. Cumpriu duas penas por agressão física. Nossos informantes o ligaram a Nestor.
— Certo. — Simon parou na frente de uma entrada localizada entre duas lojas de roupa. A porta era alta e larga e indicava solidez e seriedade. Apertou um dos botões do quarto andar. — Algo mais?
— Um dos moradores do Centro Ila disse a um dos nossos informantes que o morador do quarto 323 parecia se relacionar bem com uma das coordenadoras do local.
— Martha Lian?
— Foram vistos saindo do centro no mesmo carro.
— Iversen Empreendimentos Imobiliários — atendeu uma voz através da saída de som na placa de bronze do interfone.
Quando estavam no elevador, Simon disse:
— Quero que você espere na recepção enquanto falo com Iversen.
— Por quê?
— Porque não vou seguir o manual, e não quero que você se envolva nisso.
— Mas...
— Sinto muito, mas isso foi uma ordem de verdade, sabe como é.
Kari revirou os olhos, mas não insistiu.
— Iver — apresentou-se o jovem ao recebê-los. Deu um firme aperto de mão em Simon e depois em Kari. — Meu pai vai conversar com vocês.
Algo no rapaz dizia a Simon que ele normalmente sorria e ria, que não estava acostumado com a dor e a preocupação que se viam em seu olhar, sob a franja, e que era por isso que parecia tão perdido e confuso.
— Por aqui.
O pai devia tê-lo informado de que a polícia viria, e ele presumia, assim como o pai, que a visita se tratava da investigação da morte da mãe.
O escritório tinha vista para Vestbanen e para o fiorde. Ao lado da porta havia um armário de vidro com um modelo detalhado de um arranha-céu no formato de uma garrafa de Coca-Cola.
O pai era uma réplica mais velha do filho. A mesma franja grossa, pele lisa e saudável, um olhar iluminado, porém comedido. Alto, boa postura, queixo firme e um olhar direto. Amigável, juvenil, quase brincalhão. Essas pessoas do oeste de Oslo tinham um jeito seguro de si, pensou Simon, como se todos tivessem sido moldados na mesma forma, membros do movimento de resistência, exploradores polares, tripulação do Kon-Tiki, comissários de polícia.
Iver pediu que Simon se sentasse e ele próprio se sentou à mesa, sob uma foto preta e branca antiga de um apartamento que definitivamente era
de Kristiania* no final do século XIX, mas que Simon não sabia exatamente que lugar seria hoje.
O inspetor esperou que o filho saísse do escritório e foi direto ao assunto:
— Há doze anos, esta jovem foi encontrada morta em um quintal em Kvadraturen. Esta era a aparência dela quando a encontraram.
Simon colocou a foto na mesa e analisou o rosto do homem enquanto ele olhava para a foto. Nenhuma grande reação.
— Um garoto chamado Sonny Lofthus confessou o homicídio — acrescentou o inspetor.
— Foi mesmo?
Ainda nenhuma reação.
— Ela estava grávida quando foi encontrada.
Reação. Narinas se abrindo, pupilas dilatadas.
Simon aguardou alguns segundos antes de disparar o segundo míssil:
— A análise do DNA das escovas de dente da sua casa mostra que um de vocês é o pai do feto.
Engrossamento da artéria carótida, mudança na cor do rosto, piscar descontrolado.
— A escova de dente vermelha é sua, não é, Iversen?
— Como... como é que...
Simon sorriu rapidamente e olhou para baixo, para as mãos.
— Eu também tenho uma jovem a quem ensino meu ofício. Está me esperando na recepção. E ela pensa um pouco mais rápido que eu. Foi ela quem chegou à conclusão simples, porém lógica, de que, se apenas dois dos três DNAs da família Iversen têm parentesco com o feto, então o pai da criança não pode ser o filho. Senão, todos os três teriam parentesco. Então só podia ser o outro homem da família. Você.
A cor saudável da pele de Iversen empalideceu, depois desapareceu.
— Você também vai sentir isso na pele quando chegar à minha idade — disse Simon, consolando-o. — Esses jovens ficam cada vez mais rápidos que nós.
— Mas...
— Essa é que é a questão com análise de DNA. Não deixa muito espaço para “mas” nem “porém”.
* * *
Iversen abriu a boca ao mesmo tempo que deu um meio sorriso forçado, por pura rotina. Era nesse momento de uma conversa difícil que ele diria algo cômico, algo que desarmasse, um comentário que deixasse a conversa menos perigosa. Mas nada veio. Não havia nada lá.
— Agora que este trem lento — continuou o policial, e bateu com o dedo na própria testa — teve mais tempo, conseguiu chegar ainda mais longe. A primeira coisa que pensei foi que um homem casado como você tem o motivo mais óbvio do mundo para se livrar de uma mulher grávida, que possivelmente trará problemas, não é?
Iversen não respondeu, mas seu pomo de adão reagiu por ele.
— Naquela época, apareceu uma foto da garota nos jornais, e a polícia perguntava se alguém a reconhecia. E, quando o amante secreto dela, o pai do bebê, fica quietinho e não faz nem uma denúncia anônima para a polícia, a situação fica ainda mais suspeita, não é?
— Eu não sabia... — começou Iversen, mas parou. Arrependeu-se. Depois se arrependeu de deixar claro que tinha se arrependido.
— Não sabia que ela estava grávida? — perguntou o policial.
— Não! — disse Iversen, e cruzou os braços. — Quer dizer, eu não sabia... eu não sei de nada disso que você está falando. Gostaria de ligar para meu advogado agora.
— Você obviamente sabe de algo, mas até acredito que você não saiba de tudo. Acho que era sua esposa, Agnete, quem sabia de tudo. E você, o que acha?
Kefas. Inspetor-chefe, era isso que ele tinha dito? Iver Iversen pegou o celular.
— O que eu acho é que você não tem nenhuma prova e que esta conversa está terminada, Sr. Kefas.
— Você está certo quanto à primeira coisa e errado quanto à segunda. Esta conversa não terminou; é importante que você saiba quais pontes queimará se pegar este telefone, Iversen. A polícia não tem nenhuma prova contra sua esposa, mas o homem que atirou nela tem.
— Como ele pode ter?
— Porque ele é um bode expiatório profissional, e escuta a confissão de criminosos desta cidade há doze anos. Ele sabe de tudo. — Kefas se inclinou para a frente e bateu com o indicador no tampo da mesa para cada palavra que falou: — Ele sabe que Kalle Farrisen matou essa garota, e sabe que fez isso a pedido de Agnete Iversen. Sabe disso porque foi ele mesmo que cumpriu pena por esse crime. O fato de ele não ter feito nada com você é o único motivo que me faz crer que você seja inocente. Mas pode pegar o telefone. Aí vamos fazer tudo segundo o manual. Ou seja, prender você como cúmplice do homicídio, contar à imprensa tudo que sabemos sobre você e sobre a garota, explicar para seus contatos profissionais por que você vai ficar afastado por um tempo, contar ao seu filho que... hmm, o que é mesmo que vamos contar ao seu filho?
Contar ao filho. Simon aguardou. Deixou que ele digerisse a informação. Era importante para o que estava por vir. Deixar que a informação se consolidasse. Dar tempo a Iversen para que visse a abrangência da situação, entendesse as consequências. Para que se abrisse a alternativas que dois minutos antes seriam impensáveis. Assim como Simon precisara fazer. O que o trouxera até ali, para isso.
Iversen deixou a mão cair.
— O que você quer? — perguntou ele, numa voz rouca e vacilante.
Simon se endireitou na cadeira.
— Quero que me conte tudo agora. Caso eu acredite em você, talvez não precise acontecer mais nada. Afinal, Agnete já foi punida.
— Punida...! — Os olhos do viúvo flamejaram, mas a chama se apagou quando encontrou o olhar frio de Simon. — Está bem. Agnete e eu, nós... não tínhamos um casamento tão bom. Pelo menos não neste aspecto. Uma pessoa que conheço tinha algumas garotas. Eram asiáticas. Foi como eu conheci a Mai. Ela... ela tinha algo, algo de que eu precisava. Não era juventude, inocência ou coisa assim, mas uma... uma solidão na qual me reconheci.
— Ela era prisioneira, Iversen. Foi sequestrada, arrancada de sua casa e de sua família.
O homem deu de ombros.
— Eu sei, mas eu comprei a liberdade dela. Dei-lhe um apartamento onde nos encontrávamos. Só nós dois. Um dia, ela disse que não menstruava fazia meses, que talvez estivesse grávida. Eu disse que ela tinha que abortar, mas ela se recusou. Eu não sabia o que fazer, então perguntei a Agnete...
— Você perguntou à sua esposa?
Iversen levantou a mão, defendendo-se.
— Sim, claro, Agnete era uma mulher adulta. Não se importava que outras fizessem o que ela preferia não fazer. Digamos que ela se interessava mais por mulheres do que por homens.
— Mas ela deu um filho a você.
— A família dela encara as obrigações com seriedade. Além disso, ela era uma mãe afetuosa.
— Uma família que é a maior proprietária de imóveis privados de Oslo, que tem uma imagem tão perfeita e um nome tão imaculado, que seria impensável ter um filho asiático bastardo.
— Agnete era mesmo antiquada. E eu perguntei porque era ela que, afinal de contas, tinha que decidir o que deveria ser feito.
— Apesar de tudo, a empresa foi construída com o dinheiro dela — disse Simon. — Então Agnete decidiu se livrar do problema. Do problema inteiro.
— Não sei de nada disso — retrucou Iversen.
— Não, porque não perguntou. Apenas deixou que ela resolvesse a situação e entrasse em contato com as pessoas que executariam a solução. E essas pessoas precisaram contratar um bode expiatório quando uma testemunha contou à polícia que vira uma pessoa injetar uma agulha na garota em um quintal. As pistas precisavam ser apagadas, e foram vocês que pagaram.
Iversen deu de ombros.
— Eu não matei ninguém, só estou honrando minha parte do acordo e contando o que sei. O que quero saber é se você também vai honrar sua parte.
— A pergunta é: como alguém como a sua esposa conseguiu entrar em contato com gentalha como Kalle Farrisen.
— Não tenho a mínima ideia de quem seja Kalle Farrisen.
— Não — concordou Simon, cruzando as mãos na frente de si. — Mas sabe quem é o Gêmeo.
Fez-se um momento de silêncio absoluto na sala. Era como se até mesmo o tráfego lá fora prendesse a respiração.
— Perdão? — disse Iversen por fim.
— Trabalhei no Departamento de Fraudes da polícia durante muito tempo — contou Simon. — A Iversen Empreendimentos fez negócios com o Gêmeo. Vocês o ajudaram a lavar dinheiro proveniente de tráfico de drogas e de mulheres, e, em troca, ele ajudou vocês, provendo perdas fictícias de centenas de milhões de coroas, para que pudessem ser deduzidas dos impostos.
Iversen balançou a cabeça.
— Não conheço nenhum Gêmeo.
— Conhece, sim — disse Simon. — Tenho provas de que vocês trabalharam juntos.
— É mesmo? — Iversen uniu a ponta dos dedos. — Se vocês têm provas, por que nunca abriram um caso contra mim?
— Porque fui impedido internamente. Mas eu sei que o Gêmeo utilizou o dinheiro sujo dele para comprar imóveis de vocês, que depois vendeu de volta por um preço mais alto. Pelo menos no papel. Isso lhe proporcionou lucro, que fez com que ele pudesse pôr seu dinheiro sujo na conta bancária sem que a Receita começasse a perguntar de onde vinham essas cifras. Ao mesmo tempo, isso deu a vocês um prejuízo aparente, que vocês puderam deduzir da declaração do imposto de renda, deixando, assim, de contribuir com a sociedade. Um acordo vantajoso tanto para vocês quanto para ele.
— Teoria interessante. — Iversen deu de ombros. — Mas agora eu já contei tudo que sei. Há algo mais?
— Sim. Quero me encontrar com o Gêmeo.
Iversen suspirou forte.
— Já falei que não conheço nenhum Gêmeo.
Simon assentiu para si mesmo.
— Sabe de uma coisa? Muitos dos meus colegas da Fraudes duvidavam que o Gêmeo existisse. Achavam que era só um mito.
— Pode ser que seja, Kefas.
Simon se levantou.
— Tudo bem. Mas mitos não controlam o mercado de drogas e de sexo de uma cidade inteira, ano após ano. Mitos não liquidam mulheres grávidas a pedido de seus parceiros de negócio. — Ele se inclinou, espalmou as mãos na escrivaninha e expirou, para que Iversen pudesse sentir seu hálito de velho. — Além disso, homens não ficam tão apavorados a ponto de querer pular de um precipício só por causa de um mito. Eu sei que ele existe.
Simon se endireitou e seguiu em direção à porta, balançando o celular no ar.
— Vou convocar uma coletiva de imprensa quando estiver no elevador, então talvez seja a hora de ter uma daquelas conversas de pai para filho.
— Espere!
Simon parou em frente à porta sem se virar.
— Eu vou... vou ver o que posso fazer.
Simon pegou um cartão de visita e o colocou no alto do armário de vidro com o arranha-céu de Coca-Cola.
— Vocês têm até as seis horas.
— Dentro da Staten? — repetiu Simon, incrédulo, no elevador. — Lofthus atacou Franck dentro da própria sala?
Kari assentiu.
— Por enquanto, é só isso que eu sei. O que Iversen disse?
Simon deu de ombros.
— Nada. Obviamente, queria falar primeiro com seu advogado. Amanhã o procuramos novamente.
Arild Franck estava sentado no canto da cama esperando ser levado à sala de cirurgia. Usava uma camisola hospitalar azul-clara e uma pulseira com seu nome no pulso. Não sentira nada na primeira hora, mas agora estava com muitas dores, e a injeção minúscula que tinha sido aplicada pelo anestesista já não estava ajudando muito. Mas prometeram-lhe uma injeção de verdade pouco antes da cirurgia, que deixaria o braço inteiro dormente. Um cirurgião que disse ser “cirurgião de mão” aparecera e lhe contara tudo que se podia fazer com uma microcirurgia hoje em dia, que o dedo já chegara ao hospital e que fora cortado tão bem que, uma vez que fosse devolvido ao dono, os nervos se reconstruiriam e em alguns meses ele poderia usar o dedo para “uma coisa ou outra”. A tentativa de humor tinha sido bem-intencionada, mas Franck não estava no clima para brincadeiras. Então o interrompera e perguntara quanto tempo demoraria para recolocar o dedo, para que ele pudesse voltar ao trabalho. E quando o cirurgião disse que a operação levaria horas, Franck olhou para o relógio e — para a surpresa do cirurgião — xingou baixinho, porém audivelmente.
A porta se abriu. Franck torcia para que fosse o anestesista, porque agora estava com muita dor, e não só no dedo, mas também no corpo e na cabeça.
Mas não era ninguém vestido de verde ou branco. Era um homem alto e magro, de paletó cinza.
— Pontius?
— Olá, Arild. Só passei para ver como você está.
Franck semicerrou um dos olhos, como se dessa forma pudesse ver melhor a razão da visita do comissário de polícia. Parr se sentou na cama, ao lado dele. Acenou para a mão enfaixada.
— Está doendo?
— Vai ficar boa. E vocês, estão fazendo as buscas?
O comissário deu de ombros.
— É como se Lofthus tivesse evaporado. Mas vamos encontrá-lo. O que você acha que ele queria?
— Queria? — Franck bufou. — Sei lá. Isso tudo é obviamente uma cruzada atrapalhada.
— Exatamente — disse Parr. — Então a pergunta é onde e quando ele vai agir novamente. Ele deu alguma pista?
— Pista? — Franck gemeu e dobrou o braço de leve. — Tipo o quê?
— Vocês conversaram sobre alguma coisa.
— Ele falou. Eu estava amordaçado. Ele queria saber quem era o informante.
— É. Eu vi.
— Você viu?
— Nos papéis que encontramos na sua sala. Os que não estavam cobertos de sangue.
— Você foi à minha sala?
— Esse caso tem prioridade máxima, Arild. O cara é um assassino em série. Uma coisa é lidar com a imprensa, mas agora até o governo está envolvido. Daqui para a frente, quero atuar diretamente no caso.
Franck deu de ombros.
— Entendi.
— Tenho uma pergunta...
— Estou aguardando ser operado e morrendo de dor, Pontius. Não dá para esperar?
— Não. Sonny Lofthus foi interrogado pelo homicídio de Eva Morsand, mas negou a autoria do crime. Alguém contou para ele que o marido era nosso suspeito principal antes de acharmos o cabelo de Lofthus na cena do crime? Que praticamente tínhamos provas de que Yngve Morsand a matara?
— Não sei, por quê?
— Só queria saber. — Parr colocou a mão no ombro de Franck, que sentiu a dor percorrer seu braço até chegar à mão. — Mas agora pense só na sua cirurgia.
— Obrigado, mas não há muito em que pensar.
— Não. — Parr tirou os óculos retangulares. — Acho que não. — Ele começou a limpar as lentes de um jeito distraído. — É só ficar deitado e deixar que as coisas aconteçam, não é?
— É.
— Deixar que costurem você. Que façam você voltar a ser completo.
Franck engoliu em seco.
— Então. — Parr recolocou os óculos. — Você contou para ele quem era o informante?
— Quer dizer, que era o próprio pai dele? Ab Lofthus, ele confessou. Se eu tivesse escrito isso, ele teria arrancado minha cabeça.
— O que você contou a ele, então?
— Nada! O que eu poderia contar?
— É exatamente isso que quero saber, Arild. Quero saber como é que ele tinha tanta certeza de que você tinha essa informação, a ponto de entrar na penitenciária para conseguir extrair isso de você.
— O cara é maluco, Pontius. Esses viciados ficam psicóticos, mais cedo ou mais tarde, você sabe disso. O informante? Meu Deus, essa história desapareceu junto com Ab Lofthus.
— Então o que você respondeu?
— Como assim?
— Ele só cortou seu dedo. Todas as outras pessoas foram mortas. Você foi poupado, deve ter dito alguma coisa a ele. Lembre-se de que eu conheço você bem, Arild.
A porta se abriu e entraram duas pessoas sorridentes, vestidas de verde.
— Alguém aí está animado? — Uma delas riu.
Parr ajeitou os óculos.
— Você é fraco, Arild.
Simon caminhava na rua enquanto inclinava a cabeça contra o vento que vinha do fiorde, passava por Aker Brygge e Munkedamsveien antes de ser comprimido pelos edifícios e seguir seu caminho rumo a Ruseløkkveien. Parou em frente à igreja que ficava espremida entre dois prédios residenciais. A Catedral de São Paulo era mais modesta do que suas homônimas em outras capitais. Um templo católico em um país protestante. Virada para o lado errado, para o oeste, e tinha somente uma sugestão de campanário no topo da fachada. Três degraus, só isso. Mas estava sempre aberta. Pois ele já havia estado ali antes, tarde da noite nos seus tempos de crise, e hesitara antes de subir os três degraus. Isso fora logo depois que perdera tudo, antes de encontrar a salvação em Else.
Simon subiu as escadas, agarrou a maçaneta de cobre, abriu a porta pesada e entrou. Queria fechar a porta rapidamente, mas as molas rígidas ofereceram resistência. Sempre fora dura assim? Não lembrava mais, estava bêbado na época. Soltou a porta, que continuou a se fechar atrás dele, pouco a pouco. Mas ele se lembrava do cheiro. Estranho. Exótico. A atmosfera de espiritualidade. Magia e misticismo, cartomante e circo itinerante. Else amava o catolicismo, não tanto a ética, mas a estética, e tinha explicado para ele como todos os elementos de uma igreja, até os mais práticos, como os tijolos, a argamassa e os vitrais, tinham um simbolismo religioso que beirava o cômico. E, apesar disso, esse simples simbolismo tinha uma seriedade, um subtexto, um contexto histórico e a fé de tantas pessoas pensantes que não podia ser descartado. O local estreito, caiado e de decoração sóbria tinha fileira de bancos que levavam ao altar, com Jesus pregado na cruz. Derrota como símbolo de vitória. Na parede esquerda, a meio caminho do altar, estava o confessionário. Tinha dois compartimentos, um deles com uma cortina na frente da entrada, como uma cabine de tirar fotos. Quando ele viera naquela noite, não entendera qual dos compartimentos era destinado ao pecador que se confessava, até que seu cérebro alcoolizado entendera que, se o padre não deveria ver o pecador, era o padre que tinha que se sentar na cabine de fotos. Então ele desabara no compartimento sem cortina e começara a falar para a tábua de madeira perfurada que separava os compartimentos. Tinha confessado seus pecados. Desnecessariamente alto. Ao mesmo tempo esperava e não esperava que alguém estivesse sentado do outro lado, ou que alguém, não importava quem, o escutasse e quisesse fazer o que precisava ser feito. Oferecer-lhe perdão. Ou condenação. Qualquer coisa, menos esse vácuo sufocante onde se encontrava sozinho, acompanhado apenas dos próprios atos. Mas nada aconteceu. E no dia seguinte ele acordou com uma estranha ausência de dor de cabeça, e entendeu que a vida apenas continuaria como se nada tivesse acontecido, e que ninguém se importava. Foi a última vez que esteve em uma igreja.
Agora, Martha Lian estava diante do altar, ao lado de uma mulher que gesticulava de forma autoritária, usando um terno elegante e o tipo de cabelo curto que mulheres acima dos 50 anos usam na esperança de parecerem mais jovens. Essa mulher apontava e explicava, e Simon escutou palavras como “flores”, “cerimônia”, “Anders” e “convidados”. Já havia quase chegado até elas quando Martha se virou. A primeira coisa de que ele se deu conta foi como ela estava diferente desde a última vez que a vira. Vazia. Sozinha. Infeliz.
— Oi — cumprimentou ela, inexpressiva.
A outra mulher parou de falar.
— Perdão por interromper — disse Simon —, mas me disseram no Centro Ila que você estava aqui. Espero não estar atrapalhando nada importante.
— Não, não tem prob...
— Está, sim. Estamos planejando o casamento de meu filho com Martha. Então, se isso puder esperar, Sr....?
— Kefas. Não, não pode esperar. Sou da polícia.
A mulher olhou para Martha com as sobrancelhas erguidas.
— É exatamente isso que eu quero dizer, Martha, quando falo desta realidade na qual você vive, minha cara.
— Realidade da qual a senhora será poupada, Sra....?
— Perdão?
— A polícia e o Centro Ila vão falar disso sob sigilo. Confidencialidade, sabe como é.
A mulher se retirou pisando duro, e Simon e Martha sentaram-se na primeira fileira de bancos.
— Você foi vista no carro com Sonny Lofthus — falou Simon. — Por que não me contou isso?
— Ele queria aprender a dirigir. Eu o levei a um estacionamento para praticar um pouco.
— Ele agora é procurado em todo o país.
— Eu vi na televisão.
— Você o viu fazer alguma coisa, ou ele disse algo que possa nos dar um indício de onde ele possa estar agora? E eu quero que você pense bem antes de me dar uma resposta.
Martha pareceu pensar bem antes de balançar a cabeça.
— Ok. Algo sobre seus planos futuros?
— Ele disse que queria aprender a dirigir.
Simon suspirou e alisou o cabelo.
— Você sabe que corre o risco de ser acusada caso o ajude ou esconda alguma coisa da polícia, não sabe?
— E por que eu faria isso?
Simon olhou para ela sem dizer nada. Estava prestes a se casar. Por que parecia tão infeliz?
— Bem... — Ele se levantou.
Ela permaneceu sentada, olhando para o colo.
— Só uma coisa — disse ela.
— Sim?
— Você também acha que ele é um assassino louco, como todos dizem?
Simon hesitou.
— Não — respondeu ele.
— Não?
— Ele não é louco. Está punindo as pessoas. Uma espécie de vingança.
— Vingança pelo quê?
— Trata-se, provavelmente, do fato de que o pai dele morreu com a fama de policial corrupto.
— Você disse que ele pune... — Ela falou mais baixo. — Ele pune justamente?
Simon deu de ombros.
— Não sei, mas ele leva algumas coisas em consideração.
— Em consideração?
— Ele esteve com o diretor-adjunto da prisão, dentro da própria sala dele. Foi uma ação muito ousada, e teria sido muito mais fácil e menos arriscado se tivesse ido até a casa dele.
— Mas?
— Mas dessa forma também colocaria a esposa e os filhos na linha de fogo.
— Inocentes. Ele não faz nada com inocentes.
Simon assentiu lentamente. Viu que algo tinha acontecido nos olhos dela. Uma faísca. Esperança. Será que era tão simples assim? Estava apenas apaixonada? Simon endireitou as costas. Olhou para o retábulo com o Salvador na cruz. Fechou os olhos. Abriu-os novamente. Dane-se. Que se dane tudo.
— Sabe o que Ab, o pai dele, dizia? — Simon ajeitou a calça. — Que o tempo da misericórdia acabou e que o dia do juízo final chegou. Mas, já que o Messias está atrasado, somos nós que temos que fazer o trabalho dele. Sonny é o único que pode punir essas pessoas, Martha. A polícia de Oslo é corrupta e protege os bandidos. Acho que ele age assim porque acredita que deve isso ao pai, que foi por isso que o pai morreu. Por justiça. O tipo de justiça que está acima da lei.
Ele viu a outra mulher na frente do confessionário, falando em voz baixa com o padre.
— E você? — perguntou Martha.
— Eu? Eu sou a lei. Tenho obrigação de prendê-lo. Simples assim.
— E essa mulher, Agnete Iversen, qual foi o crime que ela cometeu?
— Não posso falar sobre isso.
— Li que as joias dela foram roubadas.
— E daí?
— Havia um par de brincos de pérolas entre as joias?
— Não sei. Isso é importante?
Ela balançou a cabeça.
— Não — respondeu ela. — Não é. Vou ver se consigo me lembrar de algo que possa ajudar vocês.
— Ótimo. — Simon abotoou o casaco. A senhora das solas pesadas se aproximou novamente. — Acho que você tem outras coisas em que pensar.
Martha olhou rapidamente para ele.
— Até mais, Martha.
Quando Simon saiu da igreja, seu telefone tocou. Ele olhou para a tela. Era um número de Drammen.
— Kefas.
— Aqui é Henrik Westad.
O policial que investigava o assassinato da esposa do armador.
— Estou no Setor de Cardiologia do Hospital de Buskerud.
Simon já sabia o que viria.
— Leif Krognæss, a testemunha com problemas de coração. Pensavam que ele estivesse fora de perigo, mas...
— Morreu de repente — completou Simon, e então suspirou e pressionou o dorso do nariz entre o polegar e o indicador. — Estava sozinho quando aconteceu. A autópsia não mostrará nada de anormal. E você está ligando porque não quer ser o único que não vai conseguir dormir hoje à noite.
Westad não respondeu.
Simon guardou o celular no bolso. O vento estava mais forte, e ele olhou para o céu entre os telhados das casas. Ainda não podia ver, mas já sentia uma dor de cabeça que lhe dizia que a baixa pressão atmosférica estava a caminho.
A motocicleta na frente de Rover estava ressurgindo do mundo dos mortos. Era uma Harley Davidson Heritage Softail, modelo 1989, com a roda dianteira grande, do jeito que Rover gostava. Quando ela chegara à oficina, era uma 1340 cilindradas decaída, que o dono tratara sem o cuidado, a paciência e a compreensão que uma HD — ao contrário de suas primas japonesas, mais maleáveis — exige. Rover tinha substituído os rolamentos, os anéis de pistão e recolocado as válvulas, e faltava pouco para virar uma 1700 cilindradas com 119 cavalos, medidos na roda traseira, onde antes só tinha 43. Rover estava limpando o óleo do braço que tinha a catedral tatuada quando notou uma mudança na luz. Seu primeiro pensamento foi que havia nuvens no céu, como anunciaram na previsão do tempo. Mas, quando olhou para cima, percebeu uma sombra e uma silhueta na entrada da oficina.
— Posso ajudar? — perguntou Rover, e continuou a limpar o braço.
O homem começou a caminhar em sua direção, sem fazer barulho. Como um predador. Rover sabia que a arma mais próxima estava longe demais, não teria tempo de pegá-la. E era assim mesmo que deveria ser. Deixara aquela vida para trás. Dizem que é muito difícil mudar depois que se sai da prisão, mas isso é conversa-fiada. É só uma questão de determinação. Simples assim. Se você quiser, consegue. Mas quem gosta de se enganar, volta para a mesma vida de antes já no dia seguinte.
O homem chegara tão perto que Rover agora via seus traços. Mas esse não era...?
— Oi, Rover.
Sim, era ele.
Segurava um cartão de visita desbotado que dizia “Oficina de motos do Rover”.
— O endereço estava certo. Você disse que poderia conseguir uma Uzi para mim.
Rover começou a limpar as mãos enquanto olhava para ele. Lera nos jornais. Vira a foto dele na TV. Mas agora não estava olhando para o garoto da cela da Staten, e sim para o próprio futuro. O futuro que tinha imaginado para si.
— Você matou Nestor — disse Rover, passando o pano entre os dedos.
O garoto não respondeu.
Rover balançou a cabeça.
— Isso significa que não só a polícia está procurando por você, mas o Gêmeo também.
— Eu sei que estou encrencado — falou o garoto. — Posso ir embora agora mesmo, se você quiser.
Perdão. Esperança. Ficha limpa. Uma nova chance. A maioria arruína tudo isso, e continua a cometer os mesmos erros idiotas a vida inteira, sempre acha uma desculpa para estragar tudo. Não sabia, ou pelo menos fingia não saber, mas já havia perdido o jogo antes mesmo de começar. Porque não queria. Mas Rover queria. Não era isso que o derrotaria. Agora ele era mais forte. Mais esperto. Mas é claro que, quanto mais se sobe, maior é a queda.
— Vamos fechar o portão — disse Rover. — Parece que vai chover.