O filho

Jo Nesbo · Capítulo 11 de 44

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O filho

Capítulo 11

 

Passava pouco das sete e meia, e a chuva caía no estacionamento da Staten.

— Era só uma questão de tempo — disse Franck, segurando a porta que levava aos vestiários. — Todos os usuários de drogas, lícitas ou ilícitas, têm fraqueza de caráter. Sei que isso não é uma asserção muito moderna, mas acredite no que eu digo. Conheço muitos deles.

— Para mim tanto faz, contanto que ele assine. — Einar Harnes queria entrar, mas teve que esperar um agente sair. — Eu mesmo estou pensando em celebrar com uma boa bebida hoje à noite.

— Eles pagam tão bem assim pelos seus serviços?

— Quando vi seu carro, percebi que deveria pedir um honorário maior. — Ele apontou, rindo, para o Porsche Cayenne. — Falei que era adicional de insalubridade, e o Nestor...

— Shh!

Franck colocou o braço na frente de Harnes para que outros passassem. A maioria estava à paisana, mas outros pareciam estar com tanta pressa para ir para casa depois do turno da noite que nem haviam tirado o uniforme verde e corriam para o carro. Harnes percebeu o olhar penetrante de um deles, que vestia por cima um casaco longo e largo. Um rosto que ele sabia ter visto antes, que era ligado à prisão, já que estivera ali tantas vezes ultimamente. E, apesar de não associar nenhum nome ao rosto, sabia que aquele homem sabia quem ele era: o advogado duvidoso que às vezes aparecia nos jornais envolvido em causas no mínimo tão duvidosas quanto sua reputação. Talvez aquele homem e outros se perguntassem o que Harnes fazia com tanta frequência na entrada dos fundos da Staten. E o fato de ouvirem falar o nome de Nestor tampouco ajudava...

Tiveram que passar por várias portas trancadas até chegarem ao primeiro andar.

Nestor deixara bem claro que era imprescindível obter a confissão hoje. Se a investigação de Yngve Morsand não se encerrasse logo, poderiam descobrir coisas que fariam com que a confissão de Sonny perdesse credibilidade. Harnes não sabia, nem queria saber, como Nestor conseguira esse tipo de informação.

O escritório do diretor do presídio era obviamente o maior, mas o do adjunto tinha vista para a mesquita e para o bairro Ekebergåsen. Ficava no final do corredor e era decorado com quadros ridículos de uma jovem artista especialista em pintar flores e falar da própria libido para revistas e tabloides.

Franck apertou um botão no interfone e pediu que o preso da cela 317 fosse levado ao seu escritório.

— O carro custou um milhão e duzentos.

— Aposto que metade disso foi pelo logotipo estampado no capô.

— É, e a outra metade vai toda para o governo em forma de impostos.

Franck suspirou e se sentou em sua cadeira, que tinha um encosto descomunal. Parecia um trono, pensou Harnes.

— Mas sabe de uma coisa? — indagou Franck. — Não tem problema. Quem compra Porsche deve mesmo contribuir mais.

Bateram na porta.

— Entre! — gritou o diretor-adjunto.

Um guarda entrou com o quepe debaixo do braço e fez uma continência sem entusiasmo. Às vezes Harnes se perguntava como Franck conseguia que seus funcionários aceitassem fazer cumprimentos militares em um ambiente moderno de trabalho. E quais outras regras eles tinham que engolir.

— Diga, Goldsrud.

— Encerrei meu turno agora, mas, antes de ir, queria saber se o senhor tem alguma pergunta sobre o relatório da noite de ontem.

— Ainda não vi. Mas já que você está aqui, aconteceu algo importante?

— Não muito, só uma tentativa de fuga. Se é que se pode chamar assim.

Franck uniu as palmas das mãos e sorriu.

— Alegro-me em saber que nossos presos mostrem tanta iniciativa e empenho. Quem, e como?

— Johannes Halden, cela 2...

— 238. O velho? Sério?

— Ele tinha uma espécie de pistola que conseguiu não sei onde. Deve ter sido um impulso repentino. Eu só queria dizer que não foi tão dramático como talvez possa parecer no relatório. Se quiser minha opinião, não precisa penalizá-lo com tanta rigidez. Ele trabalhou tão bem durante tantos anos e...

— É muito inteligente conquistar a confiança de alguém para em seguida pegá-lo com a guarda baixa. Porque foi isso que ele fez, não foi?

— Veja bem...

— Quer dizer que você se deixou ludibriar, Goldsrud? Até onde ele chegou?

Harnes tinha dó do pobre agente, que passou o dedo no suor no buço. Sempre tinha pena daqueles que defendiam um caso fraco. Podia se colocar facilmente no lugar deles.

— Até a passagem de segurança. Mas nunca houve nenhum perigo real de que ele saísse, mesmo que tivesse chegado ao estacionamento. A guarita tem vidros à prova de balas, seteiras e...

— Obrigado pela informação, Goldsrud, mas eu praticamente projetei essa prisão sozinho. E entendo que você tenha certa afeição por esse cara, temo que tenha fraternizado demais, até. Não vou dizer mais nada antes de ler o relatório, mas prepare sua equipe para perguntas críticas. Quanto a Halden, não podemos deixar por menos; nossa clientela se aproveita de qualquer sinal de fraqueza, compreendido?

— Compreendido.

O telefone começou a tocar.

— Pode se retirar — disse Franck, e atendeu.

Harnes esperava ver nova continência e algum ritual militar de despedida, mas Goldsrud se retirou como um civil. Distraído em observá-lo sair, o advogado levou um susto quando ouviu Franck esbravejar:

— Como “sumiu”?!

 

Franck olhava para a cama arrumada da cela 317. Na frente havia apenas um par de sandálias. No criado-mudo, uma Bíblia; na escrivaninha, uma seringa descartável não utilizada; e na cadeira, uma camisa branca. Só. Mesmo assim, o guarda atrás de Franck afirmou o óbvio:

— Ele não está aqui.

Franck olhou para o relógio. Ainda faltavam catorze minutos para que as celas fossem abertas, portanto o prisioneiro não podia estar em nenhuma das áreas comuns.

— Ele deve ter saído quando Johannes abriu todas as portas ontem à noite, na sala de controle. — Foi Goldsrud quem falou. Estava ao lado da porta.

— Meu Deus do céu — sussurrou Harnes, e, como de costume, levou a ponta do dedo ao dorso do nariz, onde ficavam os óculos até o ano anterior, quando pagara quinze mil coroas em dinheiro para fazer uma cirurgia a laser na Tailândia. — Se ele tiver escapado...

— Cale a boca — ralhou Franck. — Ele não passou pela guarita, então só pode estar aqui dentro. Goldsrud, soe o alarme. Tranque todas as portas. Ninguém entra nem sai.

— Tudo bem, mas eu tenho que levar meus filhos para...

— Isso inclui você.

— E a polícia? — perguntou um dos agentes. — Não deve ser avisada?

— Não! — gritou Franck. — Já disse que Lofthus ainda está aqui dentro! Nem um pio para ninguém.

 

Arild Franck encarou o velho à sua frente. Trancara a porta e se assegurara de que não havia nenhum agente do lado de fora.

— Cadê o Sonny?

Deitado na cama, Johannes esfregava os olhos de sono.

— Não está na cela dele?

— Você sabe muito bem que não.

— Então deve ter fugido.

Franck agarrou o velho pela gola da camisa e o puxou.

— Tire esse sorriso da cara, Halden! Os guardas da guarita já me disseram que não viram nada, então ele tem que estar na prisão. E se você não me contar onde, pode esquecer seu tratamento de câncer. — Franck viu o olhar surpreso do velho. — Eu sei que médicos devem manter o sigilo, mas eu tenho olhos e ouvidos em todos os lugares desta prisão. Então, vai contar ou não?

Ele soltou Johannes, que caiu de volta no travesseiro.

O velho alisou o cabelo ralo e pôs as mãos atrás da cabeça. Pigarreou.

— Sabe de uma coisa, chefe? Acho que eu já vivi tempo suficiente. Não tem ninguém me esperando lá fora. Além do mais, meus pecados foram perdoados, e pela primeira vez na vida eu tenho a chance de ir lá para cima, entende? Acho que é melhor aproveitar essa chance enquanto é possível. O que o senhor acha?

Arild Franck cerrou os dentes com tanta força que sentiu como se suas restaurações fossem explodir.

— O que eu acho, Halden, é que você vai descobrir que nenhum dos seus malditos pecados foi perdoado. Aqui dentro eu sou Deus, e prometo que o câncer vai matá-lo de forma lenta e dolorosa. Você vai ficar dentro da cela, onde o câncer vai comê-lo todo, e você nunca chegará nem perto de um analgésico. E você nem seria o primeiro.

— Melhor isso do que o inferno para onde o senhor vai, chefe.

Franck não sabia ao certo se os ruídos que vieram da garganta do velho eram de agonia ou risadas.

No caminho de volta à cela 317, Franck perguntou pelo rádio novamente. Ainda nenhum sinal de Sonny Lofthus. Ele sabia que não tinha muito mais tempo até que fossem obrigados a emitir um mandado de busca.

Entrou na cela 317, sentou-se na cama e deixou que o olhar varresse o chão, as paredes e o teto novamente. Era impossível, literalmente impossível! Pegou a Bíblia no criado-mudo e a arremessou na parede. O livro caiu no chão e se abriu. Ele sabia que Per Vollan usava a Bíblia para trazer heroína. Olhou para as páginas cortadas. Agora eram só credos danificados e frases pela metade que não tinham mais sentido.

Xingou e jogou o travesseiro na parede.

Viu-o despencar no chão. Olhou para os fios de cabelo que haviam caído. Fios curtos e meio ruivos que pareciam restos de barba, assim como outros mais longos. Chutou o travesseiro, de onde cachos emaranhados de cabelo louro, longo e sujo saíram.

Cabelo cortado. Barba feita.

Naquele momento, ele entendeu.

— O turno da noite! — gritou no rádio. — Verifiquem todos os agentes que saíram depois do turno da noite!

Olhou para o relógio. Oito e dez. Ele sabia o que tinha acontecido. E sabia que já era tarde demais para fazer alguma coisa. Levantou-se e chutou a cadeira, que quebrou o espelho de acrílico ao lado da porta.

O motorista de ônibus observou o guarda à sua frente, que olhava desorientado para a passagem de ônibus e para a nota de cinquenta coroas que tinha recebido de troco pela de cem. Sabia que era um agente penitenciário porque ele usava um uniforme por baixo do casaco comprido. Tinha até um crachá pendurado, no qual constava o nome “Sørensen” sobre a foto de alguém com quem ele não se parecia nem um pouco.

— Faz tempo que você não anda de ônibus? — perguntou o motorista.

O homem de cabelo mal cortado apenas assentiu.

— O bilhete custa só 26 coroas se você comprar com antecedência — explicou o motorista, mas percebeu que o passageiro ainda assim achava a passagem muito cara. Era uma reação comum entre os que não andavam de ônibus em Oslo havia alguns anos.

— Obrigado pela ajuda — disse o homem.

O motorista partiu com o ônibus enquanto observava as costas do guarda pelo retrovisor. Não sabia bem por quê, talvez fosse algo na voz dele, tão acolhedora e sincera, como se realmente agradecesse de coração. Ele o viu sentar-se e olhar pela janela estupefato, quase como os turistas estrangeiros que pegavam o ônibus de vez em quando. Viu que ele tirou um molho de chaves do bolso e olhou como se nunca tivesse visto aquilo antes. Do outro bolso, tirou um pacote de chicletes.

Depois, o motorista precisou se concentrar no trânsito à sua frente.