O filho
Capítulo 27
Quando saiu do elevador e entrou no escritório do Departamento de Homicídios, às oito e oito da manhã de segunda-feira, Simon pensava em três coisas. Que Else tinha lavado os olhos no banheiro sem nem se dar conta de que ele estava no quarto, olhando para ela; que talvez tivesse dado muito trabalho para Kari fazer em um domingo; e que odiava escritórios abertos, ainda mais depois que um arquiteto, amigo de Else, lhe contara que a economia de espaço era um mito, pois, em razão do barulho, era preciso haver tantas salas de reunião e zonas de buffer que uma coisa anulava a outra.
Ele foi até a mesa de Kari.
— Começou cedo hoje.
Um rosto amassado de sono olhou para cima.
— Bom dia para você também, Simon Kefas.
— Obrigado. Conseguiu achar alguma coisa?
— Primeiro procurei uma conexão entre Iversen e Kalle Farrisen. Não achei nada. Depois pesquisei as condenações de Sonny Lofthus e outros suspeitos em potencial. Lofthus foi condenado pelo homicídio de uma garota não identificada, possivelmente vietnamita, que morreu de overdose e por cuja morte a polícia primeiro suspeitou de Kalle Farrisen. Mas Lofthus também cumpriu pena pelo homicídio de Oliver Jovic, traficante sérvio de Kosovo que estava entrando no mercado quando, de repente, foi encontrado no parque Sten com uma garrafa de Coca-Cola na garganta.
Simon fez uma careta.
— Cortaram a jugular?
— Não, assim não. Enfiaram uma garrafa de Coca pela boca e fizeram descer pela garganta.
— Descer pela garganta?
— É, o gargalo primeiro. Assim desliza mais fácil. Empurraram até o fundo da garrafa ficar preso atrás dos dentes.
— Como é que você...
— Eu vi as fotos. O pessoal da Narcóticos achou que era uma mensagem para a concorrência, para mostrar o que aconteceria com quem tentasse ficar com uma parte muito grande do mercado de cocaína. — Ela olhou rapidamente para Simon e acrescentou: — Coca, de cocaína.
— Sim, eu entendi.
— Começaram uma investigação, que não levou a lugar nenhum. O caso nunca foi arquivado, mas quase nada aconteceu até que Sonny Lofthus foi preso pelo homicídio da garota asiática. Aí ele aproveitou para confessar o homicídio de Jovic. No protocolo da interrogação consta que Jovic e ele se encontraram no parque para tratar de uma dívida, mas que Lofthus não tinha dinheiro, então Jovic o ameaçou com uma pistola. Lofthus pulou para cima dele e o jogou no chão. A polícia deve ter achado que parecia razoável, até porque Lofthus era lutador.
— Hmm.
— O mais interessante é que a polícia achou uma impressão digital na garrafa.
— E?
— E não era de Lofthus.
Simon assentiu.
— E como Lofthus explicou isso?
— Ele disse que tinha apanhado a garrafa vazia em uma lixeira nas proximidades. Que viciados como ele fazem isso o tempo todo.
— E?
— Viciados não recolhem garrafas usadas para vender para reciclagem. Desse jeito, demorariam muito para conseguir juntar dinheiro, e eles precisam da dose diária. Além disso, no relatório constava que a impressão digital era de um polegar, no fundo da garrafa.
Simon já sabia o que ela queria dizer, mas não quis tomar a dianteira e arruinar a história.
— Quem é que coloca o polegar no fundo da garrafa para beber? Agora, quando se quer empurrá-la goela abaixo...
— E você acha que a polícia não pensou nisso, naquele tempo?
Kari deu de ombros.
— O que eu acho é que a polícia nunca priorizou casos de traficantes que matam outros traficantes. Tampouco acharam alguma impressão digital no banco de dados que correspondesse às digitais da garrafa. Então, quando alguém confessa a autoria de um caso que já está parado há algum tempo...
— Eles agradecem, marcam como solucionado e seguem com a vida.
— É assim que vocês trabalham, não é?
Simon suspirou. Vocês. Ele lera no jornal que a reputação da polícia entre a população estava subindo novamente, depois dos acontecimentos dos anos anteriores, mas ainda assim eles só eram um pouco mais populares que a companhia ferroviária. Vocês. Kari já devia estar soltando fogos de alegria por não ter que ficar naquele escritório de plano aberto por muito tempo.
— Então temos dois homicídios pelos quais Sonny Lofthus foi condenado — recapitulou Simon. — Em ambos os casos, os suspeitos parecem estar envolvidos com drogas. Você acha que ele é um bode expiatório profissional?
— Você não acha?
— Talvez, mas ainda não há nada que indique que ele ou Farrisen estejam ligados a Agnete Iversen.
— Há um terceiro homicídio — disse Kari. — Eva Morsand.
— A esposa do armador — lembrou Simon, pensando em café e na máquina de café. — Distrito policial de Buskerud.
— Isso. Cortaram o topo da cabeça. Sonny Lofthus também foi suspeito desse caso.
— Não pode ser. Ele estava preso quando aconteceu.
— Não. Foi durante uma saída temporária, e ele estava nas proximidades. Encontraram até um fio de cabelo dele na cena do crime.
— Você está de brincadeira — reclamou Simon, que já esquecera o café. — Isso teria saído nos jornais. Homicida notório ligado à cena do crime. A imprensa adora esse tipo de notícia.
— O responsável pela investigação em Buskerud decidiu não torná-la pública — disse Kari.
— Por que não?
— Pergunte para ele.
Kari apontou, e Simon percebeu a presença de um homem alto e largo que caminhava da máquina de café até eles com um copo na mão. Vestia um suéter grosso de lã, apesar do calor de verão.
— Henrik Westad — apresentou-se o homem, estendendo a mão. — Inspetor-chefe do distrito policial de Buskerud. Sou o responsável pelo caso Eva Morsand.
— Pedi que ele viesse hoje de manhã, para conversarmos — explicou Kari.
— Você veio de Drammen para cá na hora do rush? — perguntou Simon, apertando sua mão. — Obrigado.
— Antes da hora do rush — corrigiu Westad. — Estamos aqui desde as seis e meia. Não achei que houvesse muito a dizer sobre essa investigação, mas sua colega é bastante minuciosa. — Ele acenou para Kari e sentou-se na cadeira de frente para ela.
— Por que vocês não divulgaram a informação de que tinham encontrado o fio de cabelo de um assassino condenado? — questionou Simon, e olhou com inveja para o copo que o outro levava à boca. — É mais ou menos a mesma coisa que dizer que vocês solucionaram o caso. A polícia não costuma esconder notícias boas.
— Verdade — concordou Westad —, principalmente quando o dono do cabelo confessa o crime durante o primeiro interrogatório.
— Então o que foi que aconteceu?
— Leif aconteceu.
— Quem é Leif?
Westad assentiu lentamente.
— Eu poderia ter divulgado a informação logo depois do primeiro interrogatório. Mas havia algo estranho. Alguma coisa na... atitude dele. Então decidi esperar. No segundo interrogatório, ele retirou a confissão e alegou que tinha um álibi. Um cara que se chamava Leif, que tinha um adesivo de “Eu amo Drammen” em seu Volvo azul e que Sonny, por algum motivo, acreditava que tinha um problema cardíaco. Então eu verifiquei com o revendedor da Volvo em Buskerud e com o departamento de cardiologia do Hospital de Buskerud.
— E?
— Leif Krognæss, 53 anos. Mora em Konnerud, em Drammen, e imediatamente reconheceu o cara na foto que eu mostrei para ele. Disse que o havia visto em um ponto de parada da rodovia que passa por Drammensveien. Um daqueles lugares com mesas e bancos onde você pode se sentar para apreciar a natureza. Nesse dia, Leif Krognæss tinha decidido dar um passeio de carro e ficou horas sentado no ponto de parada, porque sentia uma exaustão fora do normal. Não são muitos os que costumam ficar por lá, a maioria prefere a estrada nova. Além disso, tem uma lagoa infestada de mosquitos ali perto. Bem, então naquele dia havia dois homens sentados à outra mesa. Ficaram sentados lá, sem fazer nada, durante horas, sem trocar uma palavra sequer, como se estivessem esperando alguma coisa. Então um deles olhou para o relógio e disse que podiam ir embora. Quando passaram pela mesa de Krognæss, o outro perguntou como ele se chamava e disse que deveria ir ao médico, pois havia algo de errado com seu coração. Depois, o outro cara o levou embora, e naquele momento Krognæss pensou que fosse um paciente psiquiátrico que tivessem levado para passear, e que os dois tinham se perdido.
— Mas ele não esqueceu esse episódio — disse Kari. — Por isso foi ao médico, que encontrou um problema no coração dele e o internou imediatamente. E é por isso que Leif se lembra de um cara com quem ele mal falou num ponto de parada na rodovia ao lado do rio Drammen.
— É — concordou Westad —, Leif Krognæss disse que esse cara salvou a vida dele. Mas a questão não é essa. A questão é que a perícia médica constata que isso aconteceu no momento em que Eva Morsand foi morta.
Simon assentiu.
— E o fio de cabelo, como é que acabou na cena do crime? Vocês não checaram?
Westad deu de ombros.
— Como eu falei, o suspeito tem um álibi.
Simon percebeu que Westad ainda não tinha dito o nome do garoto. Ele pigarreou.
— Então pode ser que o fio de cabelo tenha sido plantado na cena do crime. E se essa saída temporária foi arranjada para parecer que Sonny Lofthus é culpado, um dos oficiais da Staten também faz parte do esquema. É por isso que esse caso corre em silêncio?
Henrik Westad empurrou o copo de café para o centro da mesa de Kari. Talvez não lhe apetecesse mais.
— Recebi ordens para me manter em silêncio — contou ele. — Aparentemente, meu chefe recebeu o recado de alguém lá de cima para deixar o caso parado até que tudo seja verificado.
— Eles querem checar todos os fatos antes que o escândalo se torne público — completou Kari.
— Esperemos que seja só isso mesmo — murmurou Simon. — Mas então por que você está contando isso para nós, Westad, se recebeu ordens de ficar calado?
Westad deu de ombros novamente.
— É muito difícil ser o único a saber dos fatos. E quando Kari me contou que trabalhava com Simon Kefas... Bem, você é conhecido por ser uma pessoa íntegra.
Simon olhou para Westad.
— Você sabe que isso é apenas outra palavra para encrenqueiro, não é?
— Sei — disse Westad. — Não quero encrenca. Como falei, só não queria mais ser o único a saber da história.
— Assim você se sente mais seguro?
Westad deu de ombros pela terceira vez. Sentado, não parecia mais tão alto e largo. E, apesar do suéter de lã, parecia sentir frio.
O silêncio era absoluto na sala retangular de reunião.
O olhar de Hugo Nestor estava fixo na cadeira na outra extremidade da mesa.
A cadeira de couro branco de búfalo com o encosto alto estava virada para o outro lado.
O homem na cadeira pedira uma explicação.
Nestor elevou o olhar para o quadro na parede, acima da cadeira. Era uma crucificação. Grotesca, sangrenta e excessivamente rica em detalhes. O homem na cruz tinha dois chifres na testa e olhos vermelhos ardentes. À exceção disso, a semelhança era óbvia. Diziam que o artista pintara o quadro depois que o homem na cadeira lhe cortara dois dedos em razão de uma dívida. Essa parte era verdade — o próprio Nestor estava lá quando aconteceu. Também diziam que o homem na cadeira tinha removido o quadro da galeria apenas doze horas depois de o artista colocá-lo em exposição. O quadro e o fígado do artista. Essa parte não era verdade. Foram só oito horas, e foi o baço que removeram.
Quanto ao couro de búfalo, Nestor não podia confirmar nem negar a história de que o homem na cadeira pagara 13.500 dólares para poder caçar e matar um búfalo branco, que é o animal mais sagrado para os indígenas Lakota Sioux, que ele caçou com uma besta e que, quando o animal não morreu mesmo depois de duas flechas no coração, o homem na cadeira montou no animal de meia tonelada e torceu-lhe o pescoço com a musculatura da coxa. Nestor não via nenhum motivo para duvidar da história. Afinal, a diferença de peso entre o homem na cadeira e o animal não era tão grande.
Hugo Nestor tirou os olhos do quadro. Além dele e do homem atrás da pele de búfalo, havia outras três pessoas presentes. Nestor ergueu e abaixou os ombros, sentiu a camisa colar-se às costas por dentro do paletó. Raramente suava. Não somente porque evitava sol, algodão de baixa qualidade, exercícios, sexo ou qualquer outra coisa que exigisse esforço físico, mas porque, de acordo com o médico, tinha um problema em seu termostato interno, que é o que faz com que as pessoas transpirem. Então, mesmo quando se esforçava, não suava, apenas corria o risco de superaquecimento. Uma condição genética que apenas confirmava aquilo que sempre soubera: que seus supostos pais na verdade não eram seus pais verdadeiros, e que os sonhos que tinha, deitado em um berço em um lugar que parecia a Kiev dos anos 1970, não eram apenas sonhos, mas suas primeiras lembranças de vida.
Mas o fato era que agora estava suando. Embora tivesse boas notícias, estava suando.
O homem na cadeira não tinha ficado furioso. Não tinha se irritado por causa da droga nem pelo dinheiro que fora roubado do escritório de Kalle Farrisen. Tampouco tinha gritado alguma coisa sobre o desaparecimento de Sylvester, nem rugido por que caralhos ainda não tinham encontrado Lofthus, mesmo sabendo tudo que estava em jogo. Havia quatro possíveis cenários, e três deles eram ruins. Cenário ruim um: Sonny matara Agnete Iversen, Kalle e Sylvester, e continuaria a matar todos com quem eles trabalhavam. Cenário ruim dois: Sonny era preso, confessava e revelava quem estava por trás dos homicídios que ele confessara autoria. Cenário ruim três: sem a confissão de Sonny, Yngve Morsand era preso pelo homicídio da esposa, não aguentava a pressão e contava à polícia o que acontecera.
Quando Morsand os procurara para dizer que queria que a esposa morresse, Nestor pensou que buscava um matador de aluguel, mas Morsand insistiu que ele mesmo queria ter o prazer de matá-la. Queria apenas alguém que confessasse a autoria do crime, pois um marido traído seria automaticamente o principal suspeito. E tudo pode ser comprado, só depende do preço. Nesse caso, três milhões de coroas. Um preço razoável por uma prisão perpétua, argumentou Nestor, e Morsand concordou. Depois, quando Morsand contou que queria amarrar a vadia, colocar a serra na testa dela e olhar em seus olhos enquanto lhe arrancasse a cabeça, os cabelos da nuca de Nestor se arrepiaram, em um misto de horror e excitação. Combinaram tudo com Arild Franck. A saída temporária do garoto, que passaria o tempo com um agente penitenciário bem pago, da confiança de Franck, um sujeito solitário de Kaupang com fetiche por gordas e que gastava todo o seu dinheiro com cocaína, pagamento de dívidas e putas tão imensas e feias que elas é que lhe deveriam pagar.
O quarto cenário, o único bom, era bastante simples: achar o garoto e matá-lo. Deveria ser simples. E já deveria ter acontecido havia muito tempo.
Apesar disso, o homem na cadeira falava sussurrando, com uma voz grave. E era a voz que fazia Nestor suar. Por trás do encosto da cadeira, ele pedira uma explicação para Nestor. Só isso. Uma explicação. Nestor pigarreou e torceu para que a voz não traísse o medo que sentia; o medo que sempre sentia quando estava na presença do grandalhão.
— Voltamos à casa e procuramos o Sylvester, mas tudo que achamos foi uma cadeira com um buraco de bala no encosto. Checamos com o nosso contato na central de operações da Telenor, mas nenhuma das estações Radio Base recebeu sinais do celular do Sylvester a partir de meia-noite. Isso significa que ou Lofthus o desmontou, ou o aparelho se encontra num lugar sem cobertura. De qualquer maneira, é provável que ele não esteja mais vivo.
A cadeira do outro lado da mesa se virou lentamente, e ele apareceu. Como uma réplica do quadro acima. O corpo monstruoso, músculos que faziam com que o terno ficasse apertado em todos os lugares, a testa alta, o bigode antiquado, as sobrancelhas densas e um olhar sonolento que enganava. E agora Hugo Nestor tentava encará-lo. Nestor já havia matado homens, mulheres e crianças e olhado em seus olhos enquanto o fazia, sem nem piscar. Muito pelo contrário, gostava de observá-los para ver se conseguia encontrar o medo de morrer, a ciência sobre o que está prestes a acontecer, a percepção que as pessoas à beira da morte têm no limiar do além. Como a bielorrussa cuja garganta ele cortara quando o outro se recusou a fazê-lo. Ele fitou seu olhar suplicante. Foi como se estivesse entorpecido com a mistura dos próprios sentimentos: o ódio do outro e a capitulação e fraqueza da mulher. Entorpecido por ter a vida de outra pessoa nas mãos e pelo poder de decidir se — quando — praticaria o ato que a encerraria. Ele poderia prolongar sua vida por um segundo, mais outro. Outro mais. Ou não. Era ele quem decidia. E imaginava que isso fosse o mais próximo que chegaria do êxtase sexual de que outras pessoas falavam, algo que, para ele, estava ligado a um sentimento de desconforto e uma tentativa constrangedora de aparentar ser uma pessoa normal. Ele lera em algum lugar que apenas uma em cada cem pessoas era assexual. Ou seja, ele era uma exceção. Mas não era anormal. Pelo contrário, podia se concentrar em conseguir o que queria, construir sua vida, sua reputação, gozar do medo e do respeito que sentiam por ele, sem toda a distração e perda de energia provenientes de uma vida de narcomania sexual. Isso não era racional e, portanto, normal? Ou seja, era uma pessoa normal que não tinha medo da morte, apenas curiosidade. Além disso, ele tinha boas notícias para o grandalhão. Ainda assim, não conseguia fitar o olhar dele nem por cinco segundos, pois o que via lá dentro era mais frio e vazio do que morte e aniquilação. Era perdição. Era a promessa de que você tinha uma alma, e de que ela seria tomada de você.
— Mas recebemos uma dica sobre seu possível paradeiro — acrescentou Nestor.
O grandalhão elevou uma das sobrancelhas marcantes.
— Dica de quem?
— Do Coco. Um traficante que até pouco tempo atrás morava no Centro Ila.
— O maluco com o canivete, não é?
Nestor nunca descobrira como o grandalhão conseguia todas as informações. Nunca estava nas ruas, e Nestor não conhecia ninguém que já houvesse falado com ele, muito menos que o houvesse visto. E mesmo assim ele sabia de tudo. Era sempre assim. Na época do informante, isso era compreensível, pois tinham acesso completo a tudo que acontecia na polícia. Mas depois que mataram Ab Lofthus, pois estava prestes a descobrir todo o esquema, as atividades do informante pareciam ter acabado. Isso acontecera quase quinze anos antes, e Nestor já havia se conformado com o fato de que provavelmente nunca descobririam quem era.
— Ele falou sobre um cara no Centro Ila que tinha tanto dinheiro que liquidou a dívida do companheiro de quarto — contou Nestor, com seu tom de voz ensaiado e com um R que ele achava ser eslavo oriental. — Doze mil coroas, em dinheiro.
— Ninguém do Centro Ila paga a dívida dos outros — disse Vargen, um homem mais velho, responsável pelo tráfico de garotas.
— Exatamente — concordou Nestor —, e ele fez isso mesmo depois que o outro o acusou de ter roubado uns brincos de ouro. Então eu pensei que...
— Você pensou no dinheiro que foi roubado do cofre de Kalle — deduziu o grandalhão. — E que os brincos foram roubados da casa dos Iversen, não é?
— Exatamente. Então eu visitei Coco e mostrei a ele uma foto do garoto. E ele confirmou que é Sonny Lofthus. Sei até o quarto dele. 323. A pergunta é somente quando vamos... — Nestor uniu a ponta dos dedos das mãos e fez um barulho com os lábios como que para avaliar o sabor de sinônimos para “matá-lo”.
— Não vamos conseguir entrar — disse Vargen. — Pelo menos não despercebidos. O portão é trancado, tem recepcionistas e câmeras por toda parte.
— Podíamos usar um dos moradores para o serviço — sugeriu Voss, que fora chefe de uma companhia de segurança, mas tinha sido demitido após se envolver com a importação e venda ilegal de anabolizantes.
— Não podemos deixar isso na mão de viciados — retrucou Vargen. — Lofthus não só conseguiu escapar dos nossos caras supostamente competentes, como também parece ter matado um deles.
— Então o que é que vamos fazer? — perguntou Nestor. — Esperar por ele na rua? Colocar um atirador emboscado no prédio ao lado? Atear fogo no local e fechar as saídas de emergência?
— Não é hora para brincadeira, Nestor — disse Voss.
— Você deveria saber que eu nunca brinco. — Nestor percebeu que ficou com o rosto quente. Quente, mas não suado. — Se não o capturarmos antes da polícia...
— Boa ideia. — As duas palavras foram sussurradas muito baixo, quase inaudíveis. E mesmo assim soaram como um estrondo.
O momento seguinte foi de silêncio.
— Qual?
— Não o capturar antes da polícia — disse o grandalhão.
Nestor olhou ao redor para conferir que não era o único que não havia entendido.
— O que você quer dizer? — indagou.
— Exatamente o que eu disse — sussurrou o grandalhão, que então sorriu rapidamente e olhou para a única pessoa no local que ainda não tinha dito nada: — Você sabe o que estou dizendo, não é?
— Sei — respondeu a pessoa. — O garoto vai acabar na Staten. Talvez se mate, como o pai.
— Muito bem.
— Então vou informar a polícia sobre o possível paradeiro do garoto — disse a pessoa, e levantou o queixo, afastando a pele do pescoço da gola da camisa do seu uniforme verde.
— Não é necessário. Eu me encarrego da polícia — garantiu o grandalhão.
— É mesmo? — perguntou Arild Franck, surpreso.
O grandalhão se virou e se dirigiu a todos à mesa:
— E essa testemunha de Drammen?
— Está no hospital, na cardiologia — alguém disse enquanto Nestor voltava a olhar para o quadro.
— E o que vamos fazer quanto a isso? — questionou, ainda olhando para o quadro.
— O que temos que fazer — disse a voz grave.
Nestor continuou olhando para o Gêmeo pendurado na cruz.
Enforcamento.
Martha estava no sótão.
Olhava fixamente para a viga.
Dissera aos outros que queria verificar se o trabalho de organização dos arquivos estava bem-feito. Com certeza estava, não estava preocupada com isso. Não estava preocupada com nada. Só pensava nele, Stig, e era tão banal quanto trágico: estava apaixonada. Sempre dissera que não tinha a capacidade de sentir grandes emoções. Obviamente, já se apaixonara antes, várias vezes, mas não dessa maneira. As outras vezes foram como uma coceira no estômago, um jogo emocionante, que a deixava com os sentidos aguçados e as bochechas quentes. Mas isso... isso era uma doença. Algo que invadira seu corpo e agora controlava tudo que ela pensava e fazia. Perdidamente apaixonada. Era o termo correto. Estava perdida. Era demais. Era indesejado. Estava acabando com ela.
A mulher que tinha se enforcado ali... será que também sofrera do mesmo mal? Também se apaixonara por um homem que no fundo sabia que não era certo para ela? E será que estava tão apaixonada que começara a argumentar consigo mesma sobre o que é certo e o que é errado e tentara esculpir um novo sentido de moral; um que estivesse em harmonia com essa doença maravilhosa? Ou será que, assim como Martha, só descobrira tudo isso quando já era tarde demais? Durante o café da manhã, Martha fora ao quarto 323 e verificara os tênis de corrida mais uma vez. As solas tinham cheiro de detergente. Quem é que lava sola de tênis quase novos com detergente? Alguém que está escondendo algo. E por que ela havia ficado tão desesperada que precisara ir ao sótão? Meu Deus, ela nem o queria.
Ainda olhava para a viga.
Mas Martha não faria como ela. Não o denunciaria. Simplesmente não podia. Devia haver um motivo, só não sabia qual. Mas ele não era assim. No trabalho dela, Martha ouvia diariamente tantas mentiras, desculpas e tantas versões diferentes da realidade que já nem acreditava mais que alguém realmente era o que dizia ser. Mas de uma coisa ela sabia: Stig não era nenhum assassino a sangue-frio.
Sabia disso porque estava apaixonada.
Escondeu o rosto nas mãos. Queria chorar. Ficou sentada, em silêncio, tremendo. Ele quisera beijá-la. E ela quisera beijá-lo. Queria beijá-lo. Aqui, agora, sempre! Queria desaparecer naquele grande, maravilhoso e morno mar de sentimentos. Queria a droga, queria sucumbir, empurrar o êmbolo, sentir o efeito, o alívio e a maldição.
Ouviu o choro. Percebeu que os pelos do braço se arrepiaram. Olhou para o radiocomunicador. Choro de criança, sofrido e lamentoso.
Pensou em desligá-lo, mas mudou de ideia. O choro soava diferente dessa vez. Como se a criança estivesse com medo e clamasse por ela. Mas era a mesma, sempre a mesma. A criança dela. A criança perdida. Presa no vazio, no nada, tentando achar um caminho de volta para casa. E não havia ninguém que pudesse ou quisesse ajudá-la. Ninguém que se atrevesse. Pois não sabiam o que era, e as pessoas temem o que não sabem. Martha escutou o choro. Ficou cada vez mais alto. Depois, ouviu um chiado, e uma voz histérica:
— Martha! Martha! Responda...
Ela congelou. O que estava acontecendo?
— Martha! Estão entrando aqui! Estão armados! Meu Deus do céu, cadê você?
Martha pegou o rádio e apertou o botão.
— O que está acontecendo, Maria?
Soltou o botão.
— Uns homens de preto e com máscaras, e eles têm escudos e rifles, e são muitos! Venha logo!
Martha se levantou e correu. Ouviu os próprios pés como uma avalanche escada abaixo. Praticamente arrancou a porta que levava ao corredor do segundo andar. Viu um dos homens de preto girar e apontar para ela com um rifle curto, ou talvez fosse uma metralhadora. Viu os outros três em frente à porta do quarto 323. Dois deles seguravam um mesmo aríete curto.
— O que é...? — começou Martha, mas parou quando o homem com a metralhadora se colocou na frente dela e levou o dedo ao lugar em que devia estar sua boca, por baixo da balaclava. Ela ficou parada por um momento, até que percebeu que era somente aquela arma idiota que a impedia.
— Eu quero ver um mandado de busca agora! Vocês não podem simplesmente...
Ouviu-se um barulho ensurdecedor quando o aríete atingiu a porta, logo abaixo da fechadura. O terceiro homem abriu a porta um pouco e jogou o que pareciam ser duas granadas. Então se viraram e cobriram as orelhas. Meus Deus, será que...? O clarão que veio do vão da porta foi tão intenso que projetou a sombra dos três policiais no corredor, que já estava bem iluminado, e o estrondo foi tão forte que os ouvidos de Martha chiaram. Então eles invadiram o quarto.
— Volte para onde estava!
As palavras abafadas vieram do policial à sua frente. Parecia estar gritando.
Martha ficou parada por um momento, olhando para ele. Assim como os outros da Tropa de Choque, usava uniforme preto e colete à prova de balas. Então ela se afastou e retornou à escada. Apoiou-se na parede. Verificou os bolsos. Achou o cartão, que ainda estava no bolso traseiro da calça, como se soubesse desde o início que viria a precisar dele. Ligou para o número embaixo do nome.
— Alô?
Vozes são um meio de medição estranhamente preciso. A voz de Simon Kefas parecia cansada, estressada, mas sem a agitação que uma grande batida policial como aquela lhe daria. Além disso, ela constatou que sua voz não tinha a acústica de quem estivesse em frente ao Centro Ila ou em algum dos quartos. Estava em um local amplo, rodeado de outras pessoas.
— O seu pessoal está aqui — disse Martha —, lançando granadas!
— Perdão?
— Aqui é Martha Lian, do Centro Ila. A Tropa de Choque está aqui. Estão nos atacando.
Na pausa que se seguiu, ela ouviu uma voz anunciar algo em um alto-falante, o nome de alguém que deveria ir ao corredor do pós-operatório. O inspetor se encontrava num hospital.
— Estou indo agora mesmo — disse ele.
Martha desligou, abriu a porta e voltou ao corredor. Ouviu o chiado e o rangido de rádios.
Um homem apontou a arma para ela.
— Ei, o que foi que eu falei?
Uma voz metálica veio do rádio dele:
— Vamos levá-lo agora.
— Se quiser, pode atirar, mas eu que sou a responsável aqui, e ainda não vi nenhum mandado de busca — disse Martha, e passou pelo homem.
No mesmo momento ela os viu sair do quarto 323. Ele estava algemado, sendo levado entre os dois policiais. Estava seminu, apenas com uma cueca branca um pouco grande demais, e aparentava grande vulnerabilidade. Apesar do torso musculoso, parecia magro, caído, acabado. Uma risca fina de sangue escorria de sua orelha.
Ele ergueu o olhar. Encontrou o dela.
Então passaram por ela e saíram.
Tinha terminado.
Martha respirou aliviada.
Depois de bater na porta duas vezes, Betty pegou a chave mestra e entrou na suíte. Como de costume, se demorou um pouco, para que, caso o hóspede estivesse no quarto, ele tivesse tempo de evitar uma possível situação constrangedora. Esse era o código de conduta do Plaza Hotel, os empregados não deveriam ver nem ouvir o que não deveria ser visto nem ouvido. Mas esse não era o código de conduta de Betty. Muito pelo contrário. A mãe sempre dissera que toda a sua curiosidade a meteria em encrencas um dia. É verdade, já havia acontecido, e em mais de um dia. Mas, como recepcionista, sua curiosidade também lhe era útil. Não havia nenhum outro funcionário ali com um faro tão bom para caloteiros. Era como se fosse sua marca registrada, descobrir quem estava pensando em dormir, comer e beber sem pagar a conta. E ela era proativa. Nunca escondera sua ambição de ninguém. Durante a última reunião, seu chefe a elogiara por ser tão atenta mas ao mesmo tempo discreta e por sempre pôr em primeiro lugar os interesses do hotel. Ele dissera também que ela poderia crescer, que a recepção era apenas um lugar temporário para pessoas como ela.
Essa suíte era uma das maiores do hotel, com sala de estar e vista para a cidade toda. Bar, uma pequena cozinha, lavabo e um quarto separado, com banheiro próprio. Ouvia o chuveiro aberto no banheiro privativo.
De acordo com o registro, ele se chamava Fidel Lae, e aparentemente não tinha problemas financeiros. O terno que trazia era da marca Tiger, fora comprado em Bogstadveien mais cedo, enviado para o alfaiate para ajustes e, de lá, voltara para o hotel de táxi. Durante a alta temporada, eram os carregadores de malas que faziam isso, mas durante o verão o movimento ficava tão tranquilo que as próprias recepcionistas se encarregavam da tarefa. E Betty imediatamente se ofereceu para fazê-lo. Não porque tivesse algo concreto que justificasse sua suspeita. Quando ele fez o check-in, pagou duas noites adiantado, e caloteiros não faziam isso. Mas havia algo meio estranho nele. Não aparentava ser do tipo que se hospedava numa suíte na cobertura. Parecia mais do tipo que dormia na rua ou em albergues para mochileiros. Durante o check-in, ele parecera bastante inexperiente, como se fosse sua primeira vez num hotel, como alguém que tivesse aprendido tudo em teoria e agora tentava fazer com que parecesse natural. E pagara em dinheiro.
Betty abriu as portas do armário na sala de estar, viu uma gravata e outras duas camisas penduradas, também da marca Tiger, com certeza compradas no mesmo lugar. No chão havia um par de sapatos novos, de couro preto. Leu o nome Vass na palmilha. Pendurou o terno ao lado de uma mala alta e macia, com rodinhas. Era quase tão alta quanto ela. Betty já vira malas assim. Eram utilizadas para levar snowboard ou pranchas de surfe. Cogitou abrir o zíper, mas, em vez disso, empurrou o tecido com o dedo, e não sentiu resistência. Estava vazia, ou pelo menos não carregava nenhuma prancha. Do lado da mala estava o único objeto no armário que não parecia novo: uma mochila vermelha com os dizeres Clube de luta greco-romana de Oslo.
Fechou as portas do armário, foi em direção à porta do quarto, que estava aberta, e gritou à porta do banheiro:
— Sr. Lae! Com licença, Sr. Lae!
Ela ouviu o chuveiro ser desligado, e logo depois apareceu um homem com o cabelo molhado, penteado para trás, e o rosto todo coberto com espuma de barbear.
— Pendurei o terno do senhor no armário. Fui avisada de que deveria apanhar uma carta aqui, para ser enviada.
— Ah, sim. Muito obrigado. Pode esperar um minutinho?
Betty foi até a janela da sala. Olhou para a Ópera de Oslo e para o fiorde. Os novos arranha-céus estavam próximos uns dos outros, como estacas de uma cerca. Ekebergåsen. O prédio dos correios. A prefeitura. As vias férreas, que vinham de todo o país e uniam-se como um feixe de nervos bem embaixo, na Estação Central de Oslo. Viu uma carteira de habilitação sobre a grande escrivaninha. Não era de Lae. Ao lado da carteira havia uma tesoura e uma foto 3x4 de Lae, com seus óculos quadrados, proeminentes, de armação preta, que Betty tinha notado no momento do check-in. Também havia duas maletas idênticas sobre a mesa, aparentemente novas. Dava para ver um pedaço de uma sacola plástica saindo por baixo da tampa de uma delas. Prestou atenção na sacola. Plástico transparente, com traços de alguma coisa branca dentro.
Deu dois passos para trás, para olhar dentro do quarto. A porta do banheiro estava aberta, e ela via as costas do hóspede, que estava na frente do espelho. Estava coberto por uma toalha e bastante concentrado em fazer a barba. Isso significava que ela ainda tinha um pouco de tempo.
Tentou abrir a maleta onde a sacola de plástico estava. Trancada.
Olhou para o cadeado de números. Os pequenos cilindros de metal mostravam 0999. Olhou para a outra maleta. 1999. Será que as duas tinham a mesma senha? Nesse caso, talvez fosse 1999. Um ano. Talvez o ano de nascimento de alguém. Ou a música do Prince. Então não estava trancada.
Betty ouviu a torneira ser aberta lá dentro. Ele estava lavando o rosto. Ela não deveria...
Abriu a outra maleta. Levou um susto.
Estava completamente cheia de notas.
Betty ouviu passos vindos do quarto e apressou-se a fechar a maleta. Afastou-se rapidamente e colocou-se ao lado da porta para o corredor, o coração a mil.
Ele saiu do quarto e olhou sorridente para ela. Mas estava diferente. Talvez fosse a falta dos óculos. Talvez fosse o papel ensanguentado sobre o olho. Naquele momento ela entendeu. Tinha raspado as sobrancelhas. Mas quem é que faz uma coisa dessas? Com exceção de Bob Geldof em The Wall, claro. Mas ele era louco. Pelo menos fazia um papel de louco. E aquele homem ali na frente dela? Será que era louco também? Não. Loucos não costumam ter uma maleta cheia de dinheiro, só acham que têm uma maleta cheia de dinheiro.
Ele abriu a gaveta da escrivaninha, pegou um envelope marrom e lhe entregou.
— Acha que é possível enviar ainda hoje?
— Pode ter certeza — disse ela, torcendo para que ele não percebesse seu nervosismo.
— Muito obrigado, Betty.
Ela ficou surpresa. Depois, lembrou que seu nome estava no crachá.
— Tenha um bom-dia, Sr. Lae.
Ela sorriu e levou a mão à maçaneta.
— Espere, Betty...
Ela se deu conta de que seu sorriso congelou. Ele devia ter percebido que ela abrira a maleta, e agora ia...
— Talvez seja... comum dar uma gorjeta por esse tipo de serviço.
Ela respirou aliviada.
— Imagine, Sr. Lae. Não é necessário.
Só quando estava no elevador foi que percebeu como estava suada. Por que é que nunca conseguia controlar sua curiosidade? Não podia contar a ninguém que andara mexendo nas coisas dos hóspedes. E quem disse que era ilegal ter dinheiro em uma maleta? Ainda mais um policial, por exemplo. Pois era isso que estava no envelope. Sede da Polícia, rua Grønlandsleiret, 44. A/C: Simon Kefas.
Simon Kefas estava no quarto 323 e olhava ao redor.
— Quer dizer que a Tropa de Choque invadiu o local? — questionou ele. — E eles levaram o morador que dormia na cama de baixo? Johnny de quê?
— Puma — respondeu Martha. — Eu liguei porque pensei que você talvez...
— Não, eu não tive nada a ver com isso. Com quem é que Johnny divide o quarto?
— O homem se apresenta como Stig Berger.
— Hmm. E onde está esse Stig?
— Não sei. Ninguém sabe. A polícia já perguntou a todos por aqui. Mas olhe, se não foi você, gostaria de saber quem foi o responsável por chamar a Tropa de Choque.
— Não sei — disse Simon, e abriu o armário. — Eles só podem ser acionados com a autorização do comissário de polícia. Veja com ele. Essas são as roupas de Stig Berger?
— Até onde eu sei, sim.
Ele tinha a impressão de que ela estava mentindo, que ela sabia muito bem que eram as roupas dele. Pegou o tênis azul tamanho 43 que estava no piso do armário. Colocou-os de volta, fechou o armário e viu a foto pregada na parede ao lado. O pouco de dúvida que ainda tinha desapareceu.
— O nome dele é Sonny Lofthus — revelou Simon.
— O quê?
— O outro que dorme aqui. Ele se chama Sonny, e essa foto é do pai dele, Ab Lofthus. O pai era policial. O filho se tornou um assassino. E até agora matou seis pessoas. Se quiser, pode reclamar com o comissário, mas acho que podemos afirmar que a ação da Tropa de Choque foi justificada.
Ele percebeu que o rosto dela pareceu endurecer e as pupilas se contraíram, como se de repente estivesse claro demais. O pessoal do Centro Ila já havia visto de tudo, mas mesmo assim era obviamente um choque saber que haviam hospedado um assassino em série.
Simon se agachou e viu um objeto embaixo do beliche. Apanhou.
— O que é isso? — perguntou Martha.
— Uma granada de atordoamento — respondeu Simon, segurando um objeto cor de azeitona que parecia o manete do guidão de uma bicicleta. — Dispara um forte flash de luz e um estrondo de 170 decibéis. Não é perigoso, mas deixa as pessoas cegas, surdas, tontas e desorientadas por alguns segundos, para que a Tropa de Choque faça o que precisar fazer. Mas esqueceram de puxar o pino dessa, então não detonou. Pessoas cometem erros sob pressão. É assim que são as coisas. Não é?
Ele olhou para o tênis e depois para ela. Mas, quando ela o encarou, seu olhar era firme e decidido. Ele não viu nada lá.
— Tenho que voltar ao hospital — disse Simon. — Você me liga se ele voltar?
— Você está bem?
— Não muito — respondeu Simon —, mas é minha esposa que está internada. Ela está ficando cega.
Ele olhou para as próprias mãos e quase acrescentou: Assim como eu.