O filho

Jo Nesbo · Capítulo 13 de 44

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O filho

Capítulo 13

 

 

— Ele já está descendo — disse a recepcionista para Simon e Kari, que estavam sentados num sofá de couro embaixo de um quadro gigante de algo que parecia o nascer do sol.

— Ele disse isso há dez minutos — sussurrou Kari.

— No céu é Deus que decide que horas são — disse Simon, e pôs uma porção de fumo na boca. — Quanto você acha que custa um quadro desses? E por que escolheram logo esse?

— A compra da decoração de prédios públicos é apenas uma forma oculta de subsidiar os artistas medianos do país — respondeu Kari. — Os compradores geralmente não se importam com o que põem nas paredes, contanto que combine com os móveis e com o orçamento.

Simon a olhou de lado.

— Alguém já disse que às vezes você fala como se estivesse reproduzindo citações decoradas?

Kari deu um sorriso irônico.

— E mascar fumo é um péssimo substituto para cigarros. Faz mal à saúde. Presumo que tenha sido sua esposa que pediu que você trocasse, por causa do cheiro de fumaça que impregnava as roupas dela.

Simon balançou a cabeça e riu. Devia ser alguma tendência de humor entre os jovens de hoje em dia, esses tipos de comentários.

— Bom palpite, mas você errou. Ela pediu que eu parasse porque me quer por perto pelo maior tempo possível. E não sabe que eu uso snus. Guardo as caixinhas no escritório.

— Mande-os entrar, Anne — rugiu uma voz.

Simon olhou para a passagem de segurança, onde um homem com um uniforme e uma boina que agradariam ao presidente da Bielorrússia tamborilava os dedos no portão de metal.

Simon se levantou.

— Mais tarde vamos decidir se eles podem sair — disse Arild Franck.

Simon notou, pelo suspiro quase imperceptível da recepcionista, que era uma piada velha.

— E então, como é estar de volta à sarjeta? — perguntou Franck enquanto os acompanhava através da passagem de segurança em direção à escadaria. — Você está no Departamento de Fraudes, não é? Ah, não. Desculpe, devo estar senil. Esqueci que foi expulso.

Simon nem esboçou rir do insulto deliberado.

— Estamos aqui para falar de Per Vollan.

— Já me informaram. Pensei que esse caso tivesse sido arquivado.

— Não arquivamos casos com perguntas não respondidas.

— Desde quando?

Simon fez um arremedo de sorriso.

— Per Vollan esteve aqui em visita a prisioneiros no mesmo dia em que morreu, não é verdade?

Franck abriu a porta de seu escritório.

— Vollan era o capelão do presídio, então presumo que tenha sido isso que ele veio fazer aqui. Posso verificar o livro de visitas, se quiser.

— Quero sim, obrigado. Também gostaríamos de saber com quem ele falou.

— Sinto informar que não sei o nome de todos com quem ele falou quando esteve aqui.

— Bom, sabemos o nome de pelo menos um prisioneiro com quem ele falou naquele dia — disse Kari.

— É mesmo? — indagou Franck, e se sentou à mesa que o acompanhara ao longo de toda a sua carreira. Não havia razão para desperdiçar dinheiro público. — Se estão pensando em se demorar, a senhorita talvez pudesse pegar as xícaras de café que estão ali naquele armário, enquanto eu verifico o livro de visitas.

— Obrigada, mas não bebo café — retrucou Kari. — O nome dele é Sonny Lofthus.

Franck olhou para ela inexpressivo.

— Será que poderíamos visitá-lo? — perguntou Simon, e sentou-se em uma das cadeiras, apesar de não ter sido convidado a fazer isso. Então olhou para Franck, cujo rosto já estava ficando vermelho. — Ah, me desculpe, devo estar ficando senil. Esqueci que ele fugiu. — Simon viu que Franck formulava uma resposta e adiantou-se em dizer: — Estamos interessados nele porque a coincidência entre a morte de Vollan e sua fuga faz com que a morte seja ainda mais suspeita.

Franck puxou o colarinho da camisa.

— Como vocês sabem que eles conversaram?

— Todos os interrogatórios policiais constam no banco de dados compartilhado — respondeu Kari, ainda de pé. — Quando procurei pelo nome de Per Vollan, vi que tinha sido mencionado em um interrogatório que tratava da fuga de Lofthus. Por um detento chamado Gustav Rover.

— Rover acabou de ser solto. Foi interrogado porque esteve com Lofthus pouco antes da fuga. Queríamos saber se Lofthus contou algo que poderia nos ajudar a encontrá-lo.

— Nos ajudar? Nós quem? — Simon levantou uma sobrancelha grisalha. — A rigor, a responsabilidade de encontrar um fugitivo é da polícia, não sua.

— Lofthus é meu prisioneiro, Kefas.

— Parece que Rover não pôde ajudá-lo — disse Simon —, mas durante o interrogatório ele falou que, quando ia saindo da cela, Per Vollan entrou para falar com Lofthus.

Franck deu de ombros.

— E o que é que tem?

— Tem que ficamos nos perguntando sobre o que podem ter falado. E por que logo em seguida um morreu e o outro fugiu.

— Pode ser só coincidência.

— Claro. Você conhece um tal de Hugo Nestor, Franck? Também chamado de Ucraniano?

— Já ouvi falar.

— Conhece, portanto. Há algo que indique que Nestor pode estar envolvido na fuga?

— De que maneira?

— Bom, pode ser que ele o tenha ajudado a fugir. Também pode ser que o tenha ameaçado, de modo que Lofthus se sentiu obrigado a fugir.

Franck tamborilou com uma caneta na mesa. Parecia estar pensando.

Pelo canto do olho, Simon viu que Kari lia mensagens no celular.

— Eu sei o quanto você precisa mostrar resultado, Kefas, mas não vai encontrar nenhum peixe grande aqui — rebateu Franck. — Aliás, Sonny Lofthus fugiu por iniciativa própria.

— Uau — zombou Simon, recostando-se na cadeira e unindo a ponta dos dedos de uma das mãos aos da outra. — Um jovem viciado, um mero amador, conseguiu fugir da sua poderosa Staten sem ajuda de ninguém?

Franck sorriu.

— Quer apostar que ele não é amador, Kefas? — O sorriso ficou ainda mais largo quando Simon não respondeu. — Devo estar ficando senil. Esqueci que você não aposta mais. Mas posso mostrar seu amador.

 

— Esta é a gravação das câmeras de segurança — explicou Franck, e apontou para a tela de 24 polegadas do computador. — Nesse momento, todos os oficiais da sala de controle estão deitados com o rosto no chão, e Halden abriu todas as portas da prisão.

A tela estava dividida em dezesseis janelas, uma para cada câmera, que mostravam diferentes partes da prisão. No fundo da tela havia um relógio.

— Aí vem ele — disse Franck, e apontou para a janela que mostrava um dos corredores.

Simon e Kari viram uma pessoa sair de uma das celas e correr em direção à câmera. Usava uma camisa branca e larga que ia até os joelhos, e Simon constatou que o cabeleireiro dele devia ser pior que o seu. Parecia que o cabelo tinha sido arrancado de sua cabeça a chutes.

O jovem desapareceu de uma das telas e apareceu em outra.

— Aí está ele na passagem de segurança — continuou Franck —, enquanto Halden está na sala de controle contando tudo que vai fazer com a família dos oficiais se tentarem impedi-lo de fugir. O mais interessante é o que vai acontecer agora, nos vestiários.

Eles viram Lofthus entrar correndo em um local com vários armários, mas, em vez de continuar correndo direto para a saída, dobrou à esquerda e desapareceu atrás da última fila de armários. Franck bateu irritado com o dedo na tela do computador e o cronômetro no fundo da tela parou de correr.

— O que acontece agora é que ele arromba a porta do armário de Sørensen, um oficial nosso que está de licença médica. Ele troca de roupa e passa a noite lá. Quando amanhece, ele sai e espera os outros.

Franck colocou o cursor sobre o horário e digitou 07h20. Depois, reproduziu as imagens com velocidade quatro vezes maior que o tempo real. Homens uniformizados começaram a aparecer nas diferentes janelas da tela. Entravam e saíam do vestiário e a porta de saída era aberta e fechada com frequência. Era impossível distinguir uns dos outros, até que Franck clicou novamente, congelando as imagens.

— Ali ele — disse Kari. — De uniforme e casaco.

— O uniforme e o casaco de Sørensen — acrescentou Franck. — Deve ter saído do armário antes de os outros virem, trocado de roupa e esperado no vestiário. Sentou no banco de cabeça baixa e fingiu que amarrava os sapatos enquanto os outros iam e vinham. São tantos que ninguém estranhou um funcionário novo que demorava um pouco mais para se trocar. Ele esperou até que o fluxo da manhã estivesse mais intenso e saiu do presídio. E ninguém o reconheceu sem a barba e o cabelo comprido, que ele cortou na cela. Nem eu...

Franck apertou mais uma tecla e continuou a reproduzir as imagens, dessa vez em tempo real. As imagens mostravam Lofthus saindo de uniforme e casaco enquanto Arild Franck e uma pessoa de terno cinza e cabelo penteado para trás entravam.

— E os guardas lá fora não o pararam?

Franck apontou para a janela no canto superior direito da tela.

— Estas são as imagens da guarita. Como vocês podem ver, deixamos pessoas e carros passarem sem verificar sua identidade durante a troca de guarda, porque teríamos filas imensas se realizássemos todos os procedimentos de segurança. Mas a partir de agora vamos verificar a identidade de todos que saem, até mesmo durante a troca de guarda.

— É, acho que não tem uma fila muito grande de gente querendo entrar — comentou Simon.

No silêncio que se sucedeu, Kari tentou disfarçar um bocejo pela adaptação de Simon da piada que Franck fizera ao chegarem.

— Bem, esse é o seu amador — concluiu Franck.

Simon Kefas não respondeu, apenas olhou para as costas da figura que passou pela guarda. Começou a sorrir por algum motivo. Descobriu que era pelo modo de andar. Conhecia esse modo de andar.

 

Martha estava de braços cruzados, analisando os dois homens à sua frente. Eles não podiam ser da Narcóticos. Ela achava que conhecia a maioria que trabalhava lá e nunca vira esses dois antes.

— Nós estamos procurando... — começou um deles, mas o resto da frase foi abafado pela sirene estridente que passou na rua Waldemar Thrane.

— Quê? — gritou Martha.

Ela se perguntava onde havia visto aqueles ternos antes. Em um anúncio?

— Sonny Lofthus — repetiu o menor deles.

Tinha cabelo louro e parecia já ter quebrado o nariz várias vezes. Martha via esse tipo de nariz todos os dias, mas achava que esse em específico era resultado de artes marciais.

— A informação sobre nossos moradores é confidencial — disse ela.

O outro, um homem alto porém compacto, com cachos negros que faziam um estranho semicírculo na cabeça, mostrou-lhe uma foto.

— Ele fugiu da prisão Staten e é considerado um indivíduo perigoso. — Uma nova ambulância passou. Ele se inclinou e praticamente gritou na frente do rosto de Martha: — Então, caso ele esteja aqui e você decida não nos contar, será sua responsabilidade se acontecer alguma coisa, entendeu?

Não eram da Narcóticos. Isso explicava por que ela nunca os vira. Martha assentia lentamente enquanto analisava a foto. Voltou a olhar para eles. Abriu a boca para dizer algo quando um vento soprou sua franja escura no rosto. Quando ia tentar novamente, ouviu um grito atrás de si. Era Toy, que gritava na escada.

— Ei, Martha, o Burre se cortou. Não fui eu, viu. Ele está no refeitório.

— Temos um trânsito muito intenso de pessoas durante o verão — disse ela. — Muitos dos moradores preferem dormir no parque, e assim outros aproveitam a vaga para dormir aqui. É muito difícil se lembrar de todos os rostos...

— Como já dissemos, ele se chama Sonny Lofthus.

— ... e nem todos veem razão para se registrar com o nome verdadeiro. Não esperamos que nossa clientela tenha identidade nem outros tipos de documentos, então simplesmente aceitamos o nome que nos dão.

— Mas eles não precisam se identificar para a Seguridade Social? — questionou o louro.

Martha mordeu o lábio.

— Ô Martha, o Burre está sangrando pra cacete!

O de cabelo cacheado pôs a mão grande e cabeluda no braço dela.

— Você pode nos deixar dar uma olhada. Pode ser que o encontremos. — Ele percebeu o olhar dela e puxou a mão de volta.

— Por falar em documento — disse ela —, que tal me mostrar o de vocês?

Martha viu que a expressão do louro se fechou. E a mão do cacheado veio outra vez, dessa vez fechando-se em volta do braço dela.

— O Burre já está quase sem sangue, hein. — Toy tinha vindo até eles, cambaleante, e olhou para os dois homens com seu olhar vacilante. — Ei, o que é que está acontecendo aqui?

Martha escapou das garras do cacheado e pôs a mão no ombro de Toy.

— Vamos lá salvar a vida dele. Com licença, senhores. Se não se importam, vão ter que esperar aqui fora.

Eles foram em direção à entrada do refeitório. Uma nova ambulância passou. Três ambulâncias. Ela estremeceu involuntariamente.

Quando chegaram à porta, ela se virou.

Os dois homens tinham ido embora.

 

* * *

 

— Então você e Harnes de fato viram o Sonny de perto? — perguntou Simon enquanto Franck os acompanhava até o térreo.

Franck olhou para o relógio.

— O que vimos foi um jovem de barba feita, cabelo curto e uniformizado. O Sonny que conhecíamos usava uma camisa suja e tinha cabelos e barba compridos.

— Então vocês acreditam que pode ser difícil encontrá-lo pela aparência de agora? — perguntou Kari.

— As imagens das câmeras de segurança têm uma qualidade muito baixa — disse Arild Franck, e se virou para ela —, mas vamos encontrá-lo.

— Uma pena que não pudemos falar com esse Halden — comentou Simon.

— Pois é, como eu disse, o quadro de saúde dele ficou crítico de repente — retrucou Franck, e acompanhou-os à recepção —, mas eu aviso assim que ele puder receber visitas novamente.

— E você não tem nenhuma ideia sobre o que nosso fugitivo falou com Per Vollan?

Franck balançou a cabeça.

— Deve ter sido sobre as angústias e sofrimentos habituais. Lofthus era como um conselheiro espiritual aqui.

— Ah, era?

— Estava sempre isolado dos outros presos. Ele era neutro; não pertencia a nenhuma das facções que geralmente se vê numa prisão. E não falava. Essa é a definição de um bom ouvinte, não é? Então ele virou uma espécie de confessor; alguém com quem os presos podiam falar sobre tudo. Afinal, para quem ele iria contar? Além disso, ele ficaria aqui por um bom tempo.

— Que tipo de homicídio ele cometeu? — perguntou Kari.

— Homicídio de gente — disse Franck friamente.

— Quero dizer...

— Homicídios dos mais cruéis. Matou uma garota asiática a tiros e estrangulou um sérvio de Kosovo. — Franck abriu a porta de saída para eles.

— Só de imaginar um criminoso perigoso como esse à solta... — comentou Simon, e sabia que era só para que Franck sofresse.

Ele não era sadista, mas costumava abrir uma exceção quando se tratava de Arild Franck. Não que Franck fosse uma pessoa difícil de se gostar; na verdade, sua personalidade era um fator atenuante. Não era que Franck não trabalhasse bem; todos sabiam que na prática era ele quem comandava a Staten, e não aquele que carregava o título de diretor no peito. Era por causa de outra coisa. Era por aquelas aparentes coincidências, cuja soma havia criado uma suspeita que já corroía Simon por tanto tempo que se tornara o tipo mais frustrante de certeza: o tipo que não se pode provar. Que Arild Franck era corrupto.

— Dou no máximo 48 horas para que ele seja encontrado, inspetor — afirmou Franck. — Ele não tem dinheiro, família ou amigos. É sozinho no mundo e estava na prisão fazia doze anos, desde os 18. Não sabe nada do mundo lá fora e não tem nenhum lugar para onde ir nem onde se esconder.

Enquanto Kari se apressava para manter o passo do colega a caminho do carro, Simon pensou nas 48 horas e ficou tentado a fazer a aposta, pois havia reconhecido algo no garoto. Não sabia exatamente o que era; talvez fosse só seu jeito de se movimentar. Ou talvez tivesse herdado mais que isso.