O filho

Jo Nesbo · Capítulo 21 de 44

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O filho

Capítulo 21

 

 

Eram dez da manhã e o sol já começara a brilhar havia muito tempo na rua Waldemar Thrane, onde Martha estacionava seu Golf conversível. Desceu do carro e caminhou com passos leves, passou pela confeitaria a caminho do refeitório do Centro Ila. Percebeu que alguns homens — até mesmo algumas mulheres — lhe lançaram olhares quando ela passou. Não que isso fosse incomum, mas achava que estava recebendo ainda mais atenção hoje. Devia ser porque estava exalando bom humor, mesmo que não tivesse motivo. Ela discutira com sua futura sogra sobre a data do casamento, com Grete, a diretora do centro, sobre a escala de trabalho, e com Anders sobre praticamente tudo. Talvez estivesse bem-humorada porque tinha o dia de folga, porque Anders passaria o fim de semana com a mãe no chalé da família e porque ela poderia curtir aquele sol sozinha por pelo menos dois dias.

Quando entrou no refeitório, viu todas as paranoicas cabeças se erguerem. Todas menos uma. Ela sorriu, acenou para todos que a chamavam e foi direto às duas garotas que estavam ao balcão. Deu uma chave a uma delas.

— Não se preocupem, tudo vai correr bem. Lembrem-se de que vocês são duas.

A garota acenou, mas parecia ligeiramente pálida.

Martha serviu-se de café. Estava de costas para o salão. Sabia que tinha falado um pouco mais alto do que o necessário. Virou-se. Sorriu surpresa quando encontrou o olhar dele. Foi até a mesa à janela, onde estava sentado sozinho. Levou a xícara aos lábios e falou por sobre a borda:

— Acordou cedo?

Ele ergueu as sobrancelhas, e ela percebeu que tinha sido uma pergunta idiota. Já passava das dez horas.

— É que a maioria aqui se levanta bem tarde — emendou ela.

— É verdade. — Ele sorriu.

— Eu queria pedir desculpas pelo que aconteceu ontem.

— Ontem?

— É. Normalmente Anders não é assim, mas às vezes... De qualquer maneira, ele não tinha o direito de falar daquele jeito. Chamar você de drogado e... Bem, sinto muito.

Stig balançou a cabeça.

— Não precisa se desculpar, você não fez nada errado. Ele também não. Afinal, eu realmente sou um drogado.

— E eu sou uma barbeira no volante, mas não quero que me chamem de barbeira.

Ele riu. Ela percebeu que o sorriso suavizava seu rosto, dava-lhe um aspecto mais pueril.

— É, e você dirige mesmo assim. — Ele apontou com o queixo para a janela. — Aquele é o seu carro?

— É. Sei que é uma lata velha, mas eu gosto de dirigir. Você não gosta?

— Não sei. Nunca dirigi.

— Nunca? Sério?

Ele deu de ombros.

— Que triste — comentou ela.

— Triste?

— Não tem sensação melhor que andar de conversível com a capota abaixada quando faz sol.

— Mesmo para um...

— Sim, mesmo para um drogado. — Ela riu. — Não tem viagem melhor. Juro.

— Então quem sabe um dia você possa me levar.

— Lógico — concordou ela. — Que tal agora mesmo?

Ela percebeu uma leve surpresa no olhar dele. Falara sem pensar, e sabia que os outros estavam prestando atenção. Mas qual era o problema? Ela podia passar horas com outros moradores, conversando sobre os problemas pessoais deles, sem que ninguém achasse estranho. Muito pelo contrário, fazia parte do seu trabalho. Além do mais, tinha o dia de folga e podia fazer o que quisesse, não podia?

— Com prazer — respondeu Stig.

— Mas eu só tenho algumas horas. — Martha percebeu que transmitia um pouco de nervosismo. Será que já havia se arrependido?

— Tudo bem, desde que eu possa experimentar — disse ele. — Dirigir um pouco. Deve ser muito legal.

— Conheço um lugar ótimo. Venha comigo.

Enquanto saíam, Martha sentia que todos os olhares estavam voltados para ela.

 

Ele parecia tão concentrado que ela teve que rir. Todo curvado para a frente e segurando o volante com muita força, dirigia em círculos, com extrema lentidão, no estacionamento em Økern, que ficava vazio nos fins de semana.

— Muito bem, agora tente dirigir fazendo um oito.

Assim ele fez. Acelerou um pouco mais, mas, quando o motor ganhava força, reduzia instintivamente.

— A polícia visitou o centro um dia desses — comentou Martha. — Perguntaram se tínhamos distribuído novos tênis. Algo a ver com o assassinato da Sra. Iversen, se é que você ouviu falar disso.

— Sim, eu li no jornal.

Ela olhou para Stig. Gostou de saber que ele lia. Muitos dos moradores do Centro Ila não liam uma só palavra, não procuravam se atualizar, não sabiam quem era o primeiro-ministro nem o que o 11 de Setembro significava. No entanto, sabiam o preço exato da anfetamina, o percentual de pureza da heroína e os princípios ativos de todo medicamento novo no mercado.

— Por falar em Iversen, não era esse o nome da pessoa que lhe arranjaria trabalho?

— É, sim. Estive lá, mas não havia mais vagas.

— Ah, que pena.

— É, mas não vou desistir. Tenho outros nomes na minha lista.

— Que bom! Você tem uma lista?

— Tenho.

— Vamos tentar trocar de marcha?

 

Duas horas depois, passavam a toda por Mosseveien. Era ela quem dirigia agora. A um lado, o fiorde de Oslo brilhava ao sol. Ele tinha aprendido muito rápido. No começo, tivera dificuldade com as marchas e a embreagem, mas quando pegou o jeito, era como se o cérebro dele tivesse se programado, e o movimento tornou-se automático. Depois de três tentativas, conseguiu até trocar de marcha na subida sem usar o freio de mão. Depois que ele entendeu a geometria das balizas, conseguia fazê-las com uma facilidade quase irritante.

— Que banda é essa?

— Depeche Mode — respondeu ele. — Você gosta?

Ela escutava os vocais entoados e o ritmo mecânico.

— Gosto. — Ela aumentou o volume do CD player. — Soa bastante... inglês.

— É verdade. E o que mais você gosta de ouvir?

— Hmm... Gosto de coisas que soem como uma distopia alegre. Como se não levassem a própria depressão a sério, se é que você me entende.

Ele riu.

— Acho que entendo.

Depois de mais alguns minutos na rodovia, ela dobrou no sentido Nesoddtangen. Os caminhos ficaram mais estreitos, e o tráfego, mais leve. Então parou no acostamento.

— Pronto para a hora da verdade?

Ele assentiu.

— Sim, estou pronto.

Saíram do carro e trocaram de lugar. Ela o viu se sentar à direção e se concentrar. Ele respondera que estava pronto com tanta ênfase que a fez pensar se estava falando de algo mais. Stig pisou na embreagem e engatou. Pisou no acelerador com cuidado, hesitante.

— Espelho — disse Martha, enquanto ela mesma checava o retrovisor.

— O caminho está livre — afirmou ele.

— Seta.

Ele acionou o mecanismo, murmurou que a seta estava ligada e soltou a embreagem com cuidado.

Voltaram lentamente à rodovia, a rotação do motor ligeiramente alta.

— Freio de mão — disse ela, e agarrou a alavanca para soltá-lo. Ele fez o mesmo, e ela sentiu a mão dele cobrir a sua mas logo se afastar, como se estivesse queimando.

— Obrigado — disse ele.

Dirigiram por dez minutos em silêncio absoluto. Deixaram que um carro apressado os ultrapassasse. Um caminhão longo veio na direção contrária. Ela prendeu a respiração. Sabia que, naquele caminho estreito, ela reduziria e iria para o acostamento, mesmo sabendo que havia espaço suficiente para os dois. Mas Stig não se deixou abalar. E o mais estranho era que ela confiava nele. Observou as mãos dele, relaxadas no volante. Concluiu que faltava a ele aquilo que ela tinha de sobra: insegurança quanto às próprias habilidades. Notou as veias grossas nas costas da mão dele, para onde o coração calmamente bombeava sangue. Sangue para a ponta dos dedos. Viu as mãos girarem rápido o volante, mas não exageradamente para a direita, quando foram atingidos pelo deslocamento de ar do caminhão que passava.

— Caramba! — Ele riu, empolgado, e olhou para ela. — Sentiu isso?

— Sim — respondeu ela. — Senti.

Ela o guiou até a ponta de Nesodden, para um caminho de cascalhos, onde estacionaram atrás de uma fileira de casinhas baixas, com janelas pequenas nos fundos e grandes janelas com vista para o mar.

— São chalés de verão reformados, dos anos 1950 — explicou Martha, enquanto andava na frente dele no caminho de grama alta. — Eu cresci em uma delas. E aqui era nosso lugar secreto, onde aproveitávamos o sol...

Haviam chegado a uma parte rochosa. O mar se estendia lá embaixo, e eles podiam ouvir os gritos alegres de crianças nadando. Um pouco mais distante estava o cais, com a barca norte, sentido Oslo, que em dias claros parecia estar a poucas centenas de metros de distância. A verdadeira distância era de cinco quilômetros, mas a maioria das pessoas que trabalhava em Oslo preferia ir de barca a dirigir os 45 quilômetros contornando o fiorde.

Ela se sentou e inspirou o ar salgado.

— Meus pais e os amigos deles chamavam Nesodden de Pequena Berlim — contou Martha —, por causa de todos os artistas que moravam aqui naquele tempo. Era mais barato morar nos frios chalés de veraneio do que no centro de Oslo. Se a temperatura caísse muitos graus abaixo de zero, todos se reuniam na casa menos fria, que no caso era a nossa. Ficávamos sentados juntos e bebendo vinho tinto até o sol raiar, até porque não havia colchões para todos. Depois, fazíamos um grande café da manhã.

— Devia ser bom.

Stig se sentou ao lado dela.

— E era mesmo. Muito bom. Todos se ajudavam.

— Bastante idílico.

— Às vezes eles também discutiam por dinheiro, criticavam a arte um dos outros, e também transavam com o marido ou a esposa do outro. Mas a vida era assim mesmo, emocionante. Minha irmã e eu de fato acreditávamos que morávamos em Berlim, até que um dia meu pai me mostrou no mapa onde Berlim realmente fica. Ele me explicou que era muito longe para ir de carro. Mil quilômetros, no mínimo. Mas disse que algum dia iríamos até lá, e então visitaríamos o Portão de Brandemburgo e o Palácio Charlottenburg, onde minha irmã e eu seríamos princesas.

— Vocês chegaram a ir?

— Para a Berlim verdadeira? Não. Meus pais sempre ganharam pouco. E não viveram o bastante. Eu tinha 18 anos quando eles morreram, e tive que cuidar da minha irmã mais nova. Mas sempre sonhei com Berlim. Já sonhei tanto que nem sei mais se realmente existe.

Stig assentiu lentamente, fechou os olhos e se deitou na grama.

Ela olhou para ele.

— Vamos ouvir um pouco mais daquela banda?

Ele abriu um só olho, com dificuldade de enxergar por causa do sol.

— Depeche Mode? O CD está no carro.

— Me empreste seu celular — pediu ela.

Ele lhe entregou o aparelho. Depois de ela mexer em alguns botões, começaram a sair sons respiratórios rítmicos. Então uma voz inexpressiva sugeriu levá-los a uma viagem. Ele ficou tão surpreso que Martha riu.

— Chama-se Spotify — explicou Martha, e colocou o telefone na grama entre eles. — Dá para ouvir músicas direto da internet. Você não conhecia?

— Não podíamos ter telefone na prisão — respondeu ele, e apanhou o celular avidamente.

— Prisão?

— É. Eu cumpri pena.

— Por tráfico?

Stig cobriu os olhos, protegendo-os do sol.

— Foi.

Ela assentiu e deu um sorriso breve. Lógico. Mas o que é que ela tinha pensado? Que ele era um viciado em heroína que obedecia às leis? Fizera o que precisava fazer, assim como todos os outros.

Ela pegou o celular de novo. Mostrou-lhe a função GPS, que podia mostrar onde se encontravam e traçar o caminho mais curto para todos os lugares do mundo. Tirou uma foto dele com a câmera do telefone, depois apertou o botão do gravador de voz, segurou o aparelho na frente do rosto dele e pediu que dissesse algo.

— O dia está muito bonito — disse ele.

Ela parou a gravação e a reproduziu para ele ouvir.

— Essa é a minha voz? — perguntou ele, surpreso e claramente envergonhado.

Ela interrompeu o áudio e reproduziu a segunda gravação. A voz dele soou metálica: “Essa é a minha voz?”

Ela riu quando viu a expressão no rosto dele, e riu ainda mais quando ele pegou o celular, achou o botão para gravar e disse que agora era a vez dela de falar. Não, de cantar.

— Não! — Ela riu. — Prefiro que você tire uma foto.

Ele balançou a cabeça.

— Voz é melhor.

— Por quê?

Ele fez um movimento como se quisesse colocar o cabelo atrás da orelha. Um movimento automático para pessoas que tiveram cabelo longo por tanto tempo que até esqueceram que cortaram, pensou ela.

— Pessoas mudam de aparência, mas vozes são eternas.

Ele olhou para o mar, e ela acompanhou seu olhar. Não viu nada além de uma superfície brilhante, gaivotas, rochas e barcos à vela bem distantes.

— Algumas, de fato, são — concordou ela.

Estava pensando na voz de bebê em seu radiocomunicador, que nunca mudava.

— Acho que você gosta de cantar — disse ele —, mas não para outras pessoas.

— Por que acha isso?

— Porque você gosta de música. Mas, quando eu pedi que cantasse, você pareceu tão assustada quanto a garota do refeitório quando você deu a chave para ela.

Martha ficou surpresa. Será que ele podia ler seus pensamentos?

— Do que é que ela estava com tanto medo?

— Nada — respondeu Martha. — Ela e outra pessoa vão reorganizar uns arquivos no sótão. Ninguém gosta do sótão, então fazemos revezamento quando a gente precisa ir lá.

— Qual é o problema com o sótão?

Martha acompanhou com o olhar uma gaivota que planava, apenas se virando levemente de um lado a outro. O vento lá em cima devia estar bem mais forte do que ali embaixo.

— Você acredita em assombração? — perguntou Martha, em voz baixa.

— Não.

— Eu também não. — Ela se apoiou nos cotovelos, de modo que não podia vê-lo sem se virar. — O Centro Ila parece ter sido construído há muito mais de um século, não é? Mas, na verdade, é da década de 1920. Nos primeiros anos não passava de uma pensão comum...

— As letras de ferro fundido na fachada.

— Exatamente, são daquele tempo. Mas durante a guerra os alemães transformaram o local em uma casa para mães solteiras. Há muitas histórias tristes daquele tempo, e elas deixaram suas marcas. Uma das mulheres que morava ali deu à luz um bebê, mas ela alegava ser virgem, algo que não era incomum entre garotas que se metiam em problemas naquele tempo. O homem que desconfiavam ser o pai era casado, e obviamente negou a paternidade. Corriam dois boatos sobre ele. Um deles era que fazia parte do movimento de resistência. O outro boato dizia que ele na verdade era um espião dos alemães, que se infiltrara no movimento de resistência, e que era por isso que os alemães tinham dado um lugar para a mulher na casa e não o prenderam. O pai do bebê foi baleado um dia de manhã, em um bonde lotado no centro de Oslo. Nunca se soube quem foi o autor dos disparos. O movimento de resistência dizia que tinha liquidado um traidor, e os alemães afirmavam ter matado um membro do movimento. Para convencer os que ainda duvidavam, os alemães penduraram o corpo no alto do farol Kavringen.

Ela apontou para o mar.

— Os marinheiros que passavam pelo farol de dia viam o corpo ressecado e comido por gaivotas, e os que passavam à noite viam a enorme sombra que o corpo projetava na água. Até que um dia o corpo sumiu. Alguns diziam que o movimento é que o tinha retirado, mas a partir daquele dia a mulher ficou cada vez mais louca. Ela dizia que o homem a assombrava, que ele entrava no quarto dela à noite, que se debruçava sobre o berço do bebê, e quando ela gritava e o mandava embora, ele se virava para ela com buracos negros no lugar dos olhos que as gaivotas tinham comido.

Stig ergueu as sobrancelhas.

— Foi assim que Grete, a diretora do centro, me contou a história — esclareceu Martha. — A história conta que o bebê não parava de chorar, e quando as mulheres nos quartos vizinhos reclamavam e diziam que ela deveria consolar o filho, ela dizia que ele estava chorando pelos dois, e que continuaria a chorar para sempre. — Martha fez uma pausa. Estava chegando à sua parte favorita da história. — Diz a lenda que a mulher não sabia para quem o pai do bebê trabalhava, mas que, para se vingar por ele não ter assumido a paternidade, ela disse aos alemães que ele era parte do movimento de resistência, e disse ao movimento que ele era um espião dos alemães.

Uma rajada de vento fria e repentina a fez tremer. Ela se sentou e abraçou os joelhos.

— Então um dia ela não desceu para tomar café. Encontraram o corpo no sótão. Ela se enforcou na grande viga transversal. Ainda dá para ver uma listra clara na viga. Dizem que é a marca da corda.

— E agora ela assombra o sótão?

— Não sei. Só sei que é difícil ficar ali. Eu não acredito em fantasmas, mas é verdade que ninguém consegue ficar muito tempo naquele sótão. É como se desse para sentir toda a desgraça do lugar. As pessoas ficam com dor de cabeça, sentem que estão sendo expulsas do local. Muitos são funcionários novos ou gente que foi só fazer manutenção, pessoas que nem conhecem a história. E não, não é por causa do amianto na isolação.

Ela o analisou, mas ele não tinha uma expressão cética nem um pequeno sorriso, que ela meio que tinha esperado. Apenas escutava.

— E não acaba aí — continuou ela. — O bebê.

— O que é que tem ele?

— Adivinhe.

— Sumiu.

Ela ficou surpresa.

— Como você sabe?

— Você me pediu para adivinhar.

— Uns dizem que ela o entregou para o movimento de resistência na mesma noite em que se enforcou. Outros dizem que matou o bebê e o enterrou no quintal, para que nunca se separasse dela. De qualquer forma... — Martha respirou fundo. — Nunca foi encontrado. E o mais estranho é que às vezes escutamos sons nos nossos rádios que não sabemos de onde vêm. Não sabemos de onde vêm, mas sabemos o que são...

Pela expressão no rosto dele, ele parecia já saber o que era.

— Choro de bebê — concluiu ela.

— Choro de bebê — repetiu ele.

— Muitos funcionários, principalmente os novatos, ficam com medo quando escutam. Mas Grete diz a eles que isso não é estranho, que às vezes os rádios captam sinais de babás eletrônicas das casas em volta.

— Mas você não acredita nisso.

Martha deu de ombros.

— Pode ser que seja isso.

— Mas...?

Uma nova rajada de vento. Nuvens escuras surgiam no oeste. Martha lamentou não ter trazido uma jaqueta.

— Mas eu trabalho no Centro Ila há sete anos. Lembra que você falou que vozes são eternas?

— Sim.

— Juro. É sempre o mesmo bebê.

Stig assentiu. Não disse nada. Não comentou nada nem tentou sugerir alguma explicação. Apenas assentiu. Ela gostou.

— Você sabe o que aquelas nuvens significam? — perguntou ele, por fim, e se levantou.

— Que vai chover e que temos que ir embora?

— Não. Que temos que ir nadar logo, para podermos nos secar ao sol.

 

— Compassion fatigue — disse Martha. Estava deitada de costas, olhando para o céu. Ainda sentia o gosto de água salgada e o calor das rochas na pele, através da roupa de baixo molhada. — Isso significa que eu perdi a capacidade de sentir empatia. É algo tão impensável no setor de assistência do país que nem existe uma tradução para o norueguês.

Ele não disse nada, e tudo bem. Na verdade, ela nem estava falando com ele; estava apenas pensando alto.

— Talvez seja só uma forma de me proteger, de me desconectar quando a pressão é grande demais. Ou talvez o poço esteja vazio, talvez eu não tenha mais amor para dar. — Ela refletiu sobre isso. — Não, não é verdade. Eu tenho amor, apenas não...

Martha viu uma nuvem com o formato do Reino Unido passar no céu, que, antes de passar pela copa da árvore sobre ela, se transformou em um mamute. Era como estar deitada no divã de seu psicólogo. Ele era um dos que ainda tinham divã.

— Anders era o aluno mais esperto e mais bonito da escola — contou Martha para as nuvens. — Era capitão do time de futebol. Não me pergunte se era o presidente do conselho estudantil.

Ela esperou.

— Era?

— Sim.

Eles começaram a rir ao mesmo tempo.

— Você era apaixonada por ele?

— Muito. E ainda sou. Sou apaixonada por ele. É um cara legal. Muito mais que inteligente e bonito. Tenho sorte em tê-lo. E você?

— Eu o quê?

— Quantas namoradas você teve?

— Nenhuma.

— Nenhuma? — Ela se apoiou nos cotovelos. — Charmoso como você é? Não acredito.

Stig havia tirado a camiseta. Sua pele era tão clara à luz do sol que quase lhe doíam os olhos. Estranhamente, não viu nenhuma marca nova de agulha. Devia injetar nas coxas ou na virilha.

— Ah, vai. Diga a verdade.

— Eu beijei algumas garotas... — Ele passou a mão nas antigas marcas de agulha. — Mas essa aqui foi minha única paixão...

Martha olhou para as marcas. Também queria passar a mão sobre elas. Queria fazê-las desaparecer.

— Quando nos falamos pela primeira vez, você disse que tinha parado — disse ela. — Por enquanto não vou dizer nada para Grete, mas você sabe...

— Apenas usuários ativos podem morar no centro.

Ela assentiu.

— Você acha que vai conseguir?

— Tirar carteira?

Eles riram um para o outro.

— Hoje estou conseguindo — respondeu ele. — Vamos ver amanhã.

As nuvens ainda estavam longe, mas ela podia ouvir estrondos distantes, uma advertência sobre o que estava por vir. Era como se o sol também soubesse, pois começou a brilhar com mais força.

— Me dê seu telefone — pediu ela.

Martha apertou no botão de gravação. Começou a cantar a música que seu pai costumava tocar no violão para sua mãe. Geralmente quando as incontáveis festas que faziam no verão estavam perto do fim. Ele se sentava exatamente ali onde estavam agora e tocava seu violão desgastado tão baixo que mal se ouvia. A canção de Leonard Cohen na qual dizia que sempre seria seu amante, que viajaria com ela, a seguiria cegamente, que sabia que ela confiava nele porque ele havia tocado seu corpo perfeito com a alma.

Ela cantou os versos com uma voz fraca e baixa. Era sempre assim quando cantava; soava frágil e vulnerável. Por mais que às vezes pensasse que realmente fosse assim, e que era a outra voz que não era a dela, a voz mais forte que ela utilizava para se proteger.

— Obrigado — agradeceu-lhe quando ela terminou. — Foi lindo.

Ela não se perguntava por que fora constrangedor; apenas se perguntava por que não fora ainda mais constrangedor.

— Está na hora de voltar. — Ela sorriu e devolveu o celular.

Ela devia ter imaginado que abaixar a capota velha e deteriorada era pedir para ter problemas, mas queria sentir o ar puro no cabelo. Demorou mais de quinze minutos de esforço, alternado entre pensamento prático e força bruta, mas finalmente conseguiram baixá-la. E ela sabia que não conseguiria subi-la novamente, pelo menos não sem novas peças e a ajuda de Anders. Quando estavam no carro, Stig mostrou-lhe seu celular. Havia digitado “Berlim” no GPS.

— Seu pai tinha razão — disse ele —, da Pequena Berlim até a Grande Berlim são 1.030 quilômetros. Tempo estimado de viagem: doze horas e 51 minutos.

Ela dirigia. Dirigia rápido como se tivesse pressa para fazer alguma coisa. Ou escapar de alguma coisa. Olhou pelo retrovisor. As nuvens brancas sobre o fiorde lhe lembravam uma noiva. Uma noiva que marchava de forma propositada e irrefreável, com um véu de chuva em sua direção.

As primeiras gotas pesadas os atingiram quando estavam no engarrafamento na estrada Ring 3, e ela logo entendeu que não havia o que fazer.

— Entre aqui — disse Stig, e apontou.

Ela fez como ele disse, e chegaram a um bairro residencial.

— Na próxima à direita — instruiu Stig.

Os pingos de chuva caíam com mais intensidade.

— Onde estamos?

— Berg. Está vendo aquela casa amarela?

— Estou.

— Conheço o antigo dono da casa. Está vazia. Pare aqui na frente da garagem e eu vou abrir a porta.

Cinco minutos depois, tinham estacionado em meio a ferramentas enferrujadas, pneus velhos e móveis de jardim envoltos em teias de aranha, e olhavam para a chuva, que caía forte do lado de fora da porta aberta da garagem.

— Parece que não vai parar de chover tão cedo — comentou Martha —, e eu acho que a capota do carro está quebrada.

— Entendo. Que tal uma xícara de café?

— Onde?

— Na cozinha. Sei onde estão as chaves.

— Mas...

— Esta é a minha casa.

Ela olhou para ele. Não dirigira tão depressa quanto deveria. Não conseguira. Agora era tarde demais, para o que quer que fosse.

— Seria ótimo.