O filho
Capítulo 1
Rover olhava para o chão de cimento queimado da cela oval de onze metros quadrados. Mordeu o lábio com o dente de ouro ligeiramente comprido que usava na parte frontal inferior da arcada. Havia chegado ao ponto mais difícil da confissão. O único som na cela era o de suas unhas coçando a tatuagem da Virgem Maria no antebraço. O garoto sentado na cama à sua frente estava de pernas cruzadas e mantinha-se em silêncio desde que Rover entrara. Apenas assentia com um sorriso satisfeito como se fosse o Buda, o olhar fixo em um ponto no meio de sua testa. Era conhecido por Sonny. Diziam que havia matado duas pessoas na adolescência, que o pai era um policial corrupto e que o garoto tinha o dom da cura. Era difícil dizer se estava escutando; a maior parte do rosto, incluindo os olhos verdes, estava escondida sob os cabelos longos e sujos. Mas isso não importava, Rover queria apenas a remissão de seus pecados e a bênção de Sonny para que pudesse, no dia seguinte, sair da Prisão de Segurança Máxima Staten com a sensação de ser um homem purificado. Não que fosse religioso, mas não custava nada tentar. Pretendia mudar, queria viver de forma honesta. Respirou fundo.
— Acho que ela era bielorussa. Minsk fica na Bielorrússia, não é? — Rover ergueu os olhos rapidamente, mas o garoto não respondeu. — Era como Nestor chamava a garota — continuou. — Ele me mandou matar Minsk.
A vantagem óbvia de se confessar para alguém que tinha o cérebro tão ferrado era que o outro não se lembraria de nenhum nome ou acontecimento. Era a mesma coisa que falar sozinho. Talvez fosse por isso que os prisioneiros da Staten preferiam o garoto ao capelão e ao psicólogo.
— O Nestor mantinha essa e outras oito garotas numa jaula lá em Enerhaugen. Garotas do Leste Europeu e asiáticas. Jovens. Adolescentes. Espero que pelo menos adolescentes elas fossem. Mas Minsk era mais velha. Mais forte. Ela escapou. Conseguiu chegar ao parque Tøyen, mas aí o cachorro do Nestor a pegou. Um daqueles dogos argentinos, sabe?
O olhar do garoto não se moveu, mas ele ergueu a mão. Encontrou a barba. Começou a cofiá-la lentamente. A manga de sua camisa grande e suja escorregou e acabou por revelar cascas de ferida e marcas de agulha.
— Malditos cães albinos — continuou Rover. — Matam tudo que o dono manda. E o que não manda também. São proibidos na Noruega, claro. São importados da República Tcheca por um canil em Rælingen que registra os bichos como boxer brancos. Estive lá com o Nestor e compramos esse ainda filhote. Custou mais de cinquenta mil, em dinheiro vivo. Um filhote tão bonitinho que é até difícil de imaginar que ele um dia... — Rover parou repentinamente. Sabia que só estava falando do cachorro para não falar do motivo pelo qual viera. — Mas então...
Então. Rover olhou para a tatuagem no outro antebraço. Uma catedral com dois pináculos. Um para cada pena que cumprira, e nenhuma das duas tinha nada a ver com a confissão de hoje. Havia contrabandeado armas para seu clube de motoqueiros e as modificado em sua oficina. Era bom nisso. Até demais. Tão bom que não conseguiu permanecer incógnito e acabou sendo preso. E tão bom que, logo após cumprir a primeira pena, Nestor o adotou como seu protegido. Comprou Rover para garantir que ele, e somente ele, pudesse adquirir as melhores armas, e não o bando de motoqueiros ou outros concorrentes. Por apenas alguns meses de trabalho, Nestor havia pagado mais do que Rover ganharia em toda a sua vida na pequena oficina onde consertava motos. Mas Nestor exigiu muito em troca. Demais.
— Ela estava caída lá no mato, coberta de sangue. Caída em silêncio, encarando a gente. O cachorro tinha arrancado um pedaço do rosto dela. Dava para ver até os dentes. — Rover fez uma careta. Fale logo, pensou. — Nestor disse que estava na hora de ensinar uma lição a elas, hora de mostrar para as outras garotas o risco que corriam. E que a Minsk já não valia mais nada mesmo, agora que o rosto... — Rover engoliu em seco. — Então ele me mandou acabar com ela. Como prova da minha lealdade, entende? Eu estava com a minha velha pistola Ruger MK2, que eu tinha modificado um pouco, e ia matar a garota. Ia mesmo. O problema não foi esse...
Rover sentiu um nó na garganta. Quantas vezes não pensara nisso, revivendo os segundos naquela noite no parque Tøyen, vendo a garota vezes e mais vezes? Nestor e ele eram os personagens principais, e os outros, testemunhas silenciosas. Até o cachorro aparecia calado em sua memória. Quantas foram? Centenas de vezes? Milhares? E mesmo assim, só agora, ao contar a história em voz alta pela primeira vez, foi que percebeu que não fora um sonho, que realmente acontecera. Ou melhor, só agora seu corpo percebia isso. Por isso o embrulho no estômago. Rover respirou fundo pelo nariz, para conter a náusea.
— Mas eu não consegui. Mesmo sabendo que ela ia morrer de qualquer jeito. O cachorro estava preparado e, na minha opinião, uma bala seria melhor. Mas era como se o gatilho estivesse emperrado, eu não conseguia puxar.
O garoto parecia assentir vagamente, ou confirmando que acompanhava Rover ou balançando a cabeça para uma música que apenas ele ouvia.
— Nestor falou que não tinha o dia inteiro, afinal, estávamos num parque público. Então ele tirou uma faquinha curva de um coldre na perna, foi lá e agarrou a garota pelo cabelo, levantou a cabeça dela e passou a faca na garganta na maior tranquilidade, como se estivesse limpando um peixe. O sangue jorrou três, quatro vezes, e parou. Sabe do que eu mais me lembro? Do cachorro. Ele começou a uivar quando aquele sangue todo saiu.
Rover se curvou para a frente na cadeira, os cotovelos nos joelhos. Cobriu os ouvidos com as mãos e ficou se balançando.
— E eu não fiz nada. Fiquei lá, parado. Não fiz merda nenhuma. Fiquei só olhando enquanto embrulhavam a garota num pano e a levavam para o carro. Depois fomos para a floresta, para Østmarksetra. Tiramos o corpo do carro e o empurramos encosta abaixo, para o lago Ulsrud. Muita gente passeia com cachorro ali, então encontraram o corpo no dia seguinte. O negócio é que era exatamente isso que o Nestor queria, que ela fosse encontrada. Entendeu? Queria que saíssem fotos dela nos jornais, para ele mostrar às outras garotas.
Rover tirou as mãos das orelhas.
— Eu não conseguia dormir, porque sempre que fechava os olhos tinha pesadelos. Via a garota sem uma das bochechas, sorrindo para mim com os dentes à mostra. Então fui falar com o Nestor que queria cair fora. Disse que já tinha cansado de mexer em Uzis e Glocks e que só queria voltar a consertar motos. Levar uma vida tranquila, sem ter que pensar na polícia a todo instante. Ele disse que não tinha problema. Acho que tinha percebido que eu não levava jeito para bandido. Mas me contou em detalhes o que ia acontecer comigo se eu abrisse a boca. Achei que estávamos acertados. Recusei todo tipo de oferta, mesmo ainda tendo umas boas Uzis guardadas. Mas continuei com aquela sensação de que estava para acontecer alguma coisa, sabe como é que é? Que eles queriam se livrar de mim. Então foi quase um alívio quando a polícia me pegou e me pôs numa cela. Pensei que eu fosse ficar protegido na prisão. Foi por causa de um caso antigo, em que eu fui só coadjuvante, mas eles tinham prendido dois caras, e os dois contaram que fui eu que forneci as armas. Confessei na hora!
Rover riu alto. Tossiu. Recostou-se na cadeira.
— Só vou ficar mais dezoito horas aqui. Não tenho a mínima ideia do que me aguarda lá fora. Só sei que, mesmo que eu esteja saindo com quatro semanas de antecedência, o Nestor sabe que eu vou sair. Ele sabe de tudo que acontece aqui na prisão e na polícia. Ele tem gente em tudo quanto é lugar. Isso aí eu já entendi. Então acho que, se ele quisesse acabar comigo, tanto faz me matar aqui ou esperar eu sair. E você, o que acha?
Rover esperou. Silêncio. O garoto não aparentava achar absolutamente nada.
— Enfim — disse Rover —, um pouco de bênção não faz mal a ninguém, não é?
Foi como se uma luz tivesse se acendido no olhar do garoto ao ouvir a palavra “bênção”. Ele ergueu a mão direita e fez sinal para Rover se aproximar e se abaixar. Rover se ajoelhou no pequeno tapete em frente à cama. Franck não permitia que nenhum outro prisioneiro tivesse tapete. Isso fazia parte do modelo suíço que era seguido na Staten: nenhum item supérfluo nas celas. O número de bens limitava-se a vinte. Por exemplo, quem quisesse um par de sapatos tinha que abrir mão de duas cuecas ou dois livros. Rover olhou para o rosto do garoto. Sonny umedeceu os lábios secos e rachados com a ponta da língua. Com uma voz surpreendentemente fina, porém com dicção clara, ele sussurrou as palavras lentamente:
— Todos os deuses da Terra e do céu têm misericórdia de você e perdoam seus pecados. Você vai morrer, mas a alma do pecador penitente será levada ao paraíso. Amém.
Rover baixou a cabeça. Sentiu a mão esquerda do garoto na cabeça raspada. Sonny era canhoto, mas em seu caso não era necessário ser nenhum gênio para prever que o garoto tinha uma expectativa de vida menor que a de pessoas destras. A overdose poderia vir no dia seguinte ou dali a dez anos, ninguém sabia. Rover não acreditava no que diziam, que a mão esquerda de Sonny tinha o poder de cura. Tampouco acreditava naquela história de bênção. Então o que estava fazendo ali?
Bom, religião é como seguro de incêndio: você nunca acha que vai precisar. Mas, já que diziam que o garoto se incumbia do pecado alheio, o que é que custava agradecer e aceitar essa paz de espírito?
O que Rover mais estranhava era como alguém como Sonny podia ter matado a sangue-frio. Não fazia sentido. Talvez seja verdade o que dizem: o diabo usa muitos disfarces.
— Salamaleque — disse a voz, e a mão se afastou.
Rover permaneceu onde estava, de cabeça baixa. Passou a língua na parte posterior de seu dente de ouro, sentindo a superfície lisa. E agora, será que estava pronto? Pronto para conhecer seu criador, se assim quisesse o destino? Ele ergueu a cabeça.
— Eu sei que você nunca pede nada em retorno, mas...
Ele olhou para o pé descalço do garoto, abaixo dele. Viu as marcas de agulha no peito do pé.
— Em Botsen, onde cumpri pena da última vez, todo mundo conseguia droga, no problem. Mas Botsen não é nenhuma prisão de segurança máxima. Dizem que o Franck conseguiu acabar com todo o contrabando aqui na Staten, mas... — Rover pôs a mão no bolso — ... não é bem assim.
Ele levantou um objeto dourado do tamanho de um celular, no formato de uma micropistola. Apertou o gatilho, e uma pequena chama surgiu da boca do cano da arma.
— Já viu um desses? Aposto que sim. Pelo menos os agentes que me revistaram quando eu cheguei aqui já tinham visto. Eles disseram que, se eu quisesse, podiam me vender cigarros contrabandeados por um preço bom. Então me deixaram ficar com esse isqueiro. Acho que eles não tinham lido minha ficha criminal. É incrível que esse país ainda funcione, porque ninguém trabalha direito.
Rover pesou o isqueiro na mão.
— Eu fiz dois desses há oito anos. Não estou me gabando nem nada, mas ninguém nesse país podia ter feito um trabalho melhor que eu. Quem fez a encomenda foi um mediador. Ele disse que o cliente queria uma arma que não precisasse esconder, uma arma que simplesmente aparentasse ser outra coisa. Então eu inventei essa aqui. A cabeça das pessoas funciona de uma maneira curiosa. A primeira coisa que pensam quando veem isso aqui é que se trata obviamente de uma pistola, mas assim que você mostra que funciona como um isqueiro, esquecem a primeira ideia por completo. Acham que pode ser até uma escova de dentes ou uma chave de fenda, mas arma não. Bem...
Rover girou um parafuso na base do punho da arma.
— Aqui cabem duas balas 9mm. Eu chamo de Mata-Casal. — Rover apontou a pistola para o garoto. — Uma para você, querida... — em seguida, pôs a pistola na própria têmpora — ... e a outra para mim...
A risada de Rover soou estranhamente solitária na pequena cela.
— Enfim, era para eu ter feito só uma, porque o cliente não queria que mais ninguém soubesse o segredo dessa minha pequena invenção, mas eu fiz outra. E trouxe comigo, para me proteger, se o Nestor por acaso mandasse alguém me matar aqui dentro. Amanhã eu já vou embora e não vou mais precisar dela. Agora é sua. E olhe aqui... — Rover tirou um maço de cigarros do outro bolso. — Seria muito suspeito ter um isqueiro e não fumar, não é?
Ele abriu o maço de cigarros e pôs dentro um cartão de visita que dizia Oficina de motos do Rover.
— Aqui está meu endereço, caso precise consertar uma moto. Ou comprar uma Uzi porreta. Já falei que ainda tenho umas...
A porta se abriu e uma voz trovejou:
— Fora, Rover!
Ele se virou. A calça do agente parado na entrada estava caindo por causa do molho de chaves que levava na cintura, embora uma parte ficasse encoberta pela barriga, que pendia sobre o cós como uma massa de pão com fermento demais.
— Sua Santidade tem visita. Um parente próximo, digamos assim. — O guarda caiu na gargalhada e se virou para o homem que vinha atrás dele. — Brincadeira, Per.
Rover pôs a pistola e o maço de cigarros embaixo do edredom de Sonny, levantou-se e olhou para ele uma última vez. Então saiu rapidamente da cela.
O capelão da prisão deu um sorriso amarelo enquanto ajeitava quase involuntariamente o colarinho branco que só vivia torto. Um parente próximo. Brincadeira, Per. Sua vontade era cuspir naquela cara gorda e oleosa do agente penitenciário, mas apenas acenou amigavelmente com a cabeça para o prisioneiro que saiu da cela e fingiu reconhecê-lo. Viu de relance as tatuagens nos braços: a Virgem Maria e uma catedral. Ao longo dos anos, já tinha visto tantos rostos e tantas tatuagens que não conseguia mais distingui-los.
O capelão entrou. A cela cheirava a incenso. Ou pelo menos algo com cheiro de incenso. Ou de droga.
— Olá, Sonny.
O jovem sentado na cama acenou lentamente com a cabeça, sem erguer o olhar. Per Vollan presumiu que sua presença havia sido registrada, identificada. Aprovada.
Sentou-se na cadeira e teve uma sensação de desconforto quando sentiu o calor de quem acabara de se levantar dali. Pôs a Bíblia que trazia consigo do lado do garoto, na cama.
— Deixei flores na sepultura dos seus pais hoje — disse Per. — Sei que você não me pediu que fizesse isso, mas...
Per Vollan tentou encontrar o olhar do garoto. Ele próprio tinha dois filhos. Ambos eram adultos e já haviam saído de casa. Assim como Per fizera. A diferença era que seus filhos ainda eram bem-vindos.
No tribunal, uma das testemunhas de defesa, um professor de Sonny, dissera que ele fora um aluno exemplar, um atleta de luta greco-romana bastante talentoso, um aluno muito querido, atencioso. O garoto chegara a dizer que queria ser policial, assim como o pai. Mas deixou de ir à escola depois que o pai foi encontrado morto com uma carta de suicídio ao lado, na qual admitia corrupção. O capelão tentou imaginar a vergonha que aquele garoto de 15 anos sentiu. Tentou imaginar a vergonha que os próprios filhos sentiriam se algum dia descobrissem o que o pai havia feito. Ele ajeitou o colarinho novamente.
— Obrigado — agradeceu-lhe Sonny.
Per achava muito estranho que Sonny parecesse tão jovem; ele devia ter quase 30 agora. É, já estava ali fazia quase doze anos e chegara aos 18. Talvez a droga tivesse mumificado sua aparência, feito com que não envelhecesse. Somente a barba e o cabelo cresciam enquanto ele continuava com olhos inocentes de criança que olhavam maravilhados para o mundo. Para esse mundo cruel. Só Deus sabia quão cruel. Fazia mais de quarenta anos que Per Vollan atuava como capelão naquela prisão e só tinha visto o mundo se tornar mais vil. O mal se espalha como um câncer, faz com que células saudáveis adoeçam, crava nelas seus dentes de vampiro e as recruta para que façam seu trabalho torpe. Uma vez mordido, ninguém escapa. Ninguém.
— Tudo bem, Sonny? Como foi a saída temporária? Foi boa? Vocês viram o mar?
Nenhuma resposta.
Per Vollan pigarreou.
— O agente disse que vocês viram o mar. Como você deve ter lido no jornal, uma mulher foi encontrada morta no dia seguinte, perto de onde vocês estavam. Encontraram o corpo dela em casa, na própria cama. A cabeça foi... Bem, os detalhes estão aqui. — Ele bateu levemente na Bíblia com o dedo. — O agente já enviou um relatório no qual consta que você fugiu quando estavam à beira-mar e só foi encontrado uma hora depois, na estrada. Que você não quis explicar aonde foi. É importante que você não alegue nada que contradiga o depoimento dele, entendeu? Fale o mínimo possível, como de costume. Está bem, Sonny?
Per Vollan finalmente conseguiu fazer contato visual. O olhar do garoto expressava pouco do que se passava na cabeça dele, mas Per tinha quase certeza de que Sonny Lofthus seguiria as instruções de não contar nada além do necessário, nem para a polícia nem para a promotoria, e simplesmente dizer um suave “sim” quando lhe perguntassem se era culpado. Por mais que parecesse paradoxal, Per às vezes percebia uma direção, uma vontade, um instinto de sobrevivência que distinguia esse dependente químico dos outros, os que sempre estiveram em queda livre, que nunca tinham outros planos, que sempre estiveram a caminho da sarjeta. Essa vontade era expressa através de uma clareza no olhar, uma pergunta que mostrava que ele tinha prestado atenção, que tinha escutado e entendido tudo. Ou quando ele se levantava de repente, com uma coordenação, um equilíbrio e uma agilidade que faltava a outros usuários de droga. No entanto, outras vezes, como agora, era como se ele não tivesse percebido absolutamente nada.
Per se ajeitou na cadeira, desconfortável.
— Obviamente, isso significa que você não vai mais ter direito a saídas temporárias por um bom tempo. Mas você não gosta do lado de fora, não é? Pelo menos pôde ver o mar.
— Era um rio. Foi o marido?
O capelão pulou de susto, como quando algo inesperado rompe a superfície negra da água escura bem à sua frente.
— Não sei. Isso importa?
Nenhuma resposta. Vollan suspirou. Sentiu-se nauseado novamente. Vinha sentindo muito enjoo nos últimos tempos. Talvez devesse ir a um médico.
— Não se preocupe com isso, Sonny. O importante é lembrar que, lá fora, pessoas como você precisam passar o dia todo à procura da próxima dose. Mas aqui dentro eles cuidam de tudo. Não se esqueça de que o tempo passa. Você não terá mais nenhum valor para eles quando os últimos homicídios prescreverem. Agora, com esse novo homicídio, você prolonga sua sentença.
— Ou seja, foi o marido. Ele é rico?
Vollan apontou para a Bíblia.
— A casa onde você entrou está descrita aqui. É grande e bem equipada. Mas o alarme que deveria proteger toda a riqueza que havia dentro estava desligado, e a porta, destrancada. O sobrenome dele é Morsand. O armador com um tapa-olho. Já o viu nos jornais?
— Sim.
— Sério? Não sabia que você...
— Sim, fui eu que matei. Sim, vou ler aqui como fiz.
Per Vollan respirou fundo.
— Ótimo. Tem alguns detalhes sobre como ela foi morta que você precisa decorar.
— Ok.
— Ela... o topo da cabeça foi cortado. Você usou uma serra. Entendido?
As palavras foram seguidas de um longo silêncio, que Per Vollan cogitou preencher com vômito. Vômito seria melhor do que as palavras que saíam de sua boca. Ele olhou para o garoto. O que decidia o desfecho de uma vida? Uma série de acontecimentos aleatórios que ninguém podia controlar, ou uma gravidade cósmica que a puxava para onde estava predestinada a ir? Ajeitou mais uma vez o colarinho, que estava estranhamente rígido, para dentro da camisa. Conteve a náusea e se recompôs. Lembrou-se do que estava em jogo.
Per se levantou.
— Se precisar falar comigo, estou morando no Centro Ila, na praça Alexander Kielland.
Ele percebeu o olhar intrigado do garoto.
— É só por enquanto. — Sorriu rapidamente. — Minha esposa me expulsou de casa, e como eu conheço o pessoal do centro...
Parou abruptamente. Compreendia agora por que tantos prisioneiros gostavam de conversar com Sonny. Era o silêncio, aquele vácuo convidativo de alguém que somente escuta, sem reação ou julgamento. Alguém que, sem fazer nada, extrai todas as suas palavras e seus segredos. Per tinha tentado fazer a mesma coisa em sua profissão, mas era como se os prisioneiros se dessem conta de que ele tinha outras intenções. Não sabiam bem o que era, só sabiam que ele queria usar seus segredos para conseguir alguma coisa. Acesso às suas almas e, mais tarde, talvez uma recompensa no céu.
O capelão viu que o garoto abrira a Bíblia. Era um truque tão simples que chegava a ser cômico: as páginas cortadas deixavam uma cavidade. Ali estavam papéis dobrados com as instruções para confessar o crime. E três saquinhos de heroína.