O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

2.3 O estudo sobre negros em classes altas

2.3 O estudo sobre negros em classes

altas

O estudo sobre a presença de negros em elites definidas com base em estratificações socioeconômicas aparece eventualmente como tópico no conjunto mais geral de estudos sobre desigualdades raciais. Myrdal (1944) dedica o capítulo 14 do extenso An American dilemma ao estudo dos negros de classes média e alta nos Estados Unidos durante a primeira metade de século XX. Nesse caso, a definição de elites se dá pela distinção entre ocupações manuais e não manuais. O autor investiga a representação dos negros entre profissionais liberais, professores, servidores públicos e empresários, observando a relevância desproporcional das ocupações clericais e da de professor, o que ele atribui à segregação racial nas escolas e nas igrejas, que gerou, nesses setores, nichos raciais no mercado de trabalho. Essas profissões constituíram assim uma via importante de ascensão para os negros, ainda que pastores negros fossem em geral mais pobres, em razão da menor afluência de suas comunidades, e professores negros contassem geralmente com piores condições de infraestrutura e recebessem, frequentemente, menores salários, mesmo após determinação, datada de 1940, de inconstitucionalidade para essas diferenças salariais baseadas em raça. O empreendimento no varejo, nota o autor, também sofreu impactos ambivalentes da segregação. Por um lado, as vizinhanças segregadas constituíram uma clientela cativa para empreendedores negros. Por outro lado, os limites do poder de consumo dessa clientela, assim como as restrições no acesso a fornecedores e a crédito, limitavam os horizontes de crescimento por parte desses empreendedores. Interessante que o autor também dedique uma subseção do capítulo a ocupações ilícitas que, àquele tempo, consistindo principalmente na atividade do jogo de números, ofereceram oportunidades para a ascensão de alguns negros a posições de elite na “economia underground” (MYRDAL, 1944).

Em The negro in modern industrial society, Dutcher (1930) descreve as variações na proporção de negros no mercado de trabalho qualificado e em posições de status mais elevado, como funções executivas e profissionais liberais. A presença de negros em estratos de elite não é, contudo, foco do estudo. O autor aborda a distribuição dos negros na estrutura ocupacional como um todo, considerando fatores como sexo, migração e diferenças regionais. Já antes disso, Reuter (1969), no interessante livro The mulatto in the United States, escrevia sobre negros ocupando posições de destaque nas mais diversas atividades da produção econômica e cultural. O autor utiliza informações disponíveis em uma gama de publicações impressas contendo listagens de negros socialmente eminentes. O autor utiliza também listagens de personalidades elaboradas, a pedido, por pessoas negras reconhecidamente afluentes, além de informações biográficas disponíveis em diversas fontes. Com esse material, Reuter mapeia algumas centenas de negros socialmente destacados em áreas como política, medicina, direito, educação, literatura, artes, administração pública e negócios. O interesse do autor, contudo, é analisar a posição do mestiço, enquanto grupo racial diferenciado, no processo de integração do negro na sociedade de classes nos Estados Unidos. Sua investigação revela que, embora os “mulatos” fossem, durante a década em estudo, a de 1910, algo em torno de 20% da população de cor, eles eram mais de 80% dentre os negros em posições de elevado status socioeconômico.

Pesquisas especificamente dedicadas ao tema dos negros em posição de elite são mais raras. Contudo, é possível identificar uma tradição de estudos que se desenvolve nos Estados Unidos. Esse desenvolvimento ocorre em duas grandes etapas: (i) uma que começa ao final da década de 1890, em que a pesquisa sobre elites negras se confunde com a formação de uma consciência de classe e de uma narrativa de classe dominante negra basicamente em termos de uma elite demiurga e (ii) uma segunda fase de estudos mais estritamente acadêmicos. A primeira fase culmina em trabalhos de crítica à narrativa de classe construída durante as primeiras décadas do século XX, abalando-se a ideia de que a composição de uma elite negra seria uma via de emancipação para o conjunto da população de cor. Em outras palavras, há um deslocamento da posição de primeira pessoa, articuladora da narrativa de classe dominante negra, para uma posição de terceira pessoa, observadora e crítica dessa narrativa.

Em verdade, essa primeira fase de estudos constitui uma dimensão da própria diferenciação social da elite negra, de origens relativamente remotas. Em 1790, os Estados Unidos contavam uma população de negros livres estimada em aproximadamente 60 mil almas, perfazendo 8% da população negra total. Em 1860, esse número chegaria praticamente a 500 mil, perfazendo 11% da população negra. A maior proporção de negros livres nos Estados Unidos em período escravista se deu em 1830, com praticamente 14% (QUARLES, 1969). A redução dessa proporção, até 1860, provavelmente ocorreu devido a reações da sociedade branca em sua parcela escravista diante do crescimento do abolicionismo. Alguns estados decretaram leis restringindo manumissões (HARRIS, 1936), expressão de uma resposta que deve ter ocorrido também por outras vias. Desses 500 mil negros livres na década de 1860, aproximadamente metade vivia no Sul, onde dividia espaço com a grande massa de negros escravos. A outra metade, no Norte, vivia onde a escravidão nunca constituiu um aspecto tão relevante da economia e já era virtualmente extinta na década de 1830 (QUARLES, 1969). As principais origens dessa população negra livre eram as fugas, a manumissão, a compra da própria liberdade e o crescimento vegetativo. Como sói ser, a relação sexual entre senhores e escravas era um fator importante que motivava manumissões. Em 1850, metade da população negra livre era mestiça, contrastando com apenas 8% da população escrava.

No seio dessa população negra livre, gestou-se a diferenciação de uma elite negra. As principais possibilidades de trabalho livre concentraram-se nos serviços pessoais, serviços de alimentação, na pequena agropecuária e, especialmente no Sul, onde a cultura escravista prevenia brancos de se ocuparem em trabalhos manuais, a manufatura também constituiu um espaço privilegiado para a ação do negro livre, o que não aconteceu, em extensão comparável, nos estados livres do Norte. Especialmente nos serviços pessoais, as acomodações de status numa sociedade escravocrata permitiram que alguns empreendedores negros alcançassem considerável riqueza, firmando-se enquanto proprietários de salões e de restaurantes onde atenderiam a elite branca endinheirada. Desde que atuando em uma atividade serviçal, quer dizer: desde que sua condição de subalternidade não fosse posta sob suspeita, não incomodava ao homem branco que esses negros livres adquirissem alguma riqueza. Em outras palavras, tratava-se de uma janela para a ascensão de classe diretamente vinculada à conservação relativa da posição de status. Contudo, com o crescimento da agitação abolicionista, os negros livres empreendedores passaram a estar mais sujeitos à insegurança social e jurídica no Sul, sofrendo ameaças e tendo seus negócios arruinados quer pelo boicote, quer pelo desmando cinicamente amparado em formalidades jurídicas, quer pela violência pura e simples. Ainda assim, uma classe de negros livres trabalhadores continuou existindo, com alguns deles se sobressaindo em sucesso econômico.

Graças à manutenção de uma considerável circulação de dinheiro, houve, desde o final do século XVIII, a formação de sociedades de assistência mútua entre os negros livres, contando com a simpatia e com a colaboração proativa (o que significa não apenas doações, como também proteção social e jurídica) de pessoas brancas. Esses fundos de ajuda mútua atendiam o propósito de acumular crédito, que poderia ser retirado não apenas para fins empreendedores, mas também para socorrer emergências outras, como casos de saúde ou morte. Num primeiro momento, as igrejas serviram como base para a organização dessas sociedades, cujo número cresceu francamente ao longo da primeira metade do século XIX.

Sem embargo, a formação, a partir de 1794, de uma igreja protestante negra independente constituiu um aspecto decisivo para a vida social da população negra nos Estados Unidos, à medida que significou a consolidação de uma base institucional para a organização da vida civil. Não à toa Frazier (1957, p. 79) afirma que “a instituição mais importante criada pela população negra nos Estados Unidos foi a Igreja Negra”. A partir das sociedades de ajuda mútua, alicerçadas na organização civil oferecida pelas igrejas, os negros empenharam esforços com o intento de obter crédito junto a bancos, esforços muitas vezes malogrados pela discriminação racial. Diante das restrições de crédito, da insegurança social e jurídica, além das limitações impostas pelo campo restrito de atividades que a discriminação e as condições de pobreza permitiam optar, apenas uma modesta e pouco numerosa elite negra se desenvolveu ainda no período pré-Guerra Civil (HARRIS, 1936). Listagens e descrições somando algumas dezenas de negros possuidores de moderadas fortunas no período anterior à abolição, incluindo um fazendeiro negro com posse de quase uma centena de escravos e outros negros. Para uma surpresa ainda maior, empresários na atividade logística podem ser encontradas no livro Negro in the making of America, de Benjamin Quarles e também em The negro as capitalist, de Harris.

Essa diferenciação se acelera e ganha novas bases a partir da Guerra Civil. Como já mencionado, a própria segregação racial constituiu-se, por um lado, em fator favorável à diferenciação de classes média e média alta negras. A segregação racial na moradia, nos serviços e em outros setores da atividade econômica implicou o desenvolvimento de uma estrutura ocupacional cativa para negros que, embora restrita em comparação às oportunidades disponíveis à população branca, permitia certa diferenciação social. Mais que a segregação, contudo, deve-se considerar o investimento de recursos e de energia na integração dos negros à atividade econômica, ainda que racialmente segregada. A Lei de Direitos Civis de 1875, que prevenia a discriminação racial, foi declarada inconstitucional já em 1883, com o intuito de abrir franco espaço para a construção de um sistema de segregação racial formalizado em normas no Sul do país. Contudo, as emendas constitucionais de 1866, prevendo plena cidadania aos negros, não foram derrubadas, o que levou à construção do princípio “separados, porém iguais”, segundo o qual, os serviços, embora racialmente segregados com base em legislação, deveriam apresentar padrões equiparáveis de qualidade e infraestrutura. Obviamente o mote “separados, porém iguais” não descrevia a realidade, e os serviços e acomodações dedicados à população negra eram muito inferiores. No entanto, essa adesão ao princípio de igualdade, formalizada em emenda constitucional, ofereceu base legal não apenas para a luta política contra a discriminação racial como também ferramentas jurídicas para que se garantisse algum nível de investimento nos serviços dedicados à população negra (MYRDAL, 1944).

Durante os anos imediatamente posteriores à Guerra Civil, considerável energia foi despendida com o objetivo de integrar o negro à vida civil e à atividade econômica. Em The negro, Dubois (1915) narra a ação de políticos republicanos, àquela época representantes da visão de mundo progressista sustentada na região Norte, durante a década de 1860, tentando influenciar políticos sulistas a favor da extensão do direito de sufrágio aos negros. Efetivamente, em 1870, entraria em vigor emenda constitucional abolindo a restrição do direito ao voto com base no critério racial. Muito embora, com a rearticulação dos conservadores no Sul e sua ascensão ao controle político dos estados naquela região ao longo da década de 1870, práticas oficiosas e extrajurídicas (como intimidação e violência) foram amplamente empregadas para impedir o pleno exercício do direito ao voto por parte dos negros.

Na década de 1860, instituíram-se o Freedmen’s Bureau e o Freedmen’s Savings Bank, instituições dedicadas ao esforço de integração do negro à sociedade de classes. A primeira no que concerne a serviços como educação e assistência social, e a segunda, no que se refere à concessão de crédito. O Freedmen’s Bureau atuou na construção de hospitais prestando assistência jurídica e atuou ainda na garantia de salários mínimos para negros empregados em fazendas no Sul, “se tornando, com efeito, a primeira agência mediadora entre capital e trabalho na América”

(QUARLES, 1969, p. 128, tradução nossa) 7. Compreensível sua existência no contexto de entusiasmo humanista no período imediatamente posterior à Guerra Civil, o Freedmen’s Bureau não resistiu, contudo, ao realinhamento político que ocorreria a partir da década de 1970, com o fortalecimento dos democratas no Sul e o enfraquecimento da ala mais radical no partido republicano. A instituição foi extinta naquela mesma década, deixando um legado. DuBois (1915), ele mesmo um notável expoente dessa elite negra na virada para século XX, escreve suas impressões sobre o Freedmen’s Bureau:

Foi, sem dúvidas, um enorme experimento, mas com todas as suas falhas flagrantes, ele foi bem-sucedido em um grau impressionante. Ele tornou impossível o reestabelecimento imediato da escravidão, sendo provavelmente o método mais rápido para fazê-lo. Ele deu aos filhos dos homens libertos a chance de se educarem. (DUBOIS, 1915, p. 207, tradução

nossa).8

O Freedmen’s Bank constituiu também uma experiência precursora. Fundado em 1965, o banco foi concebido mais como um instrumento de política pública do que como um empreendimento de mercado propriamente dito. Sua capitalização se deu mormente com base nos salários e nas pensões recebidas pelos soldados negros envolvidos na Guerra Civil, assim como na poupança da população negra em geral. O intuito era garantir que boa parte do dinheiro recebido por soldados e suas famílias não fosse dissipada, mas, antes, reunida em poupança, garantindo renda em médio e em longo prazo, assim como disponibilidade de crédito para a população negra. A gestão do banco ficou sob o comando de pessoas brancas da elite de poder, com pessoas negras sendo progressivamente contratadas para o quadro de funcionários. O banco se capitalizou e se expandiu rapidamente, criando filiais em diversos estados. A partir de 1870, um novo grupo da elite de poder assumia o comando da instituição na mesma medida em que se aprovava, no congresso, uma nova regulação, que permitia ao Freedmem’s Bank uma atuação mais agressiva no mercado financeiro. A ação especulativa e a ingerência do grupo então no controle levaram o banco a falir. Foi inútil a nomeação de Frederick Douglas, renomada personalidade negra da época, para presidente, como tentativa de recuperar a confiança de investidores, em especial da população negra, que se sentiria representada na figura eminente do novo presidente. Em 1874, o Freedmen’s Bank encerrava suas atividades, deixando uma perda significativa de depósitos (HARRIS, 1936).

A imprensa negra, nascida em meados do século XIX e pautada pelo tema abolicionista, a partir da reconstrução, passará a responder a um conjunto maior de expectativas de uma população negra passando por um processo conjunto de integração à sociedade de classes e de diferenciação social, e, ao mesmo tempo, submetida a formas virulentas de discriminação. A imprensa negra se desenvolverá num contexto de emergente segregação racial em regime não escravista, tendo que lidar não apenas com a situação política da população negra, mas também: com a necessidade de estabelecer diálogo com a população branca, tendo em vista a obtenção de apoio político; com as demandas do público em termos de outros tipos de informação (que não de conteúdo político) e de entretenimento; com o crescimento e modernização da gestão num contexto de evolução da indústria de comunicação; e, finalmente, com os jogos de poder envolvendo a imprensa, o campo político e o mundo corporativo. Ao assumir essa gama diversificada de tarefas, a imprensa negra revelou-se como um dos suportes para a formação de consciência de classe por parte da elite negra em diferenciação (FRAZIER, 1957). Sem embargo, o inventário de negros ocupando posições de elite elaborado por Reuter (1969) contou em muito com registros feitos pela imprensa negra, enumerando negros de destaque e discutindo sobre seu papel perante o passado e o futuro da população negra.

Cabe mencionar também o The negro handbook, série de publicações organizada por homens negros da imprensa. O periódico inventariava negócios de pessoas negras, incluindo bancos, companhias de seguro e de empréstimo, além de propriedades agrícolas. A publicação também trazia informações sobre negros ocupados em setores como as forças armadas, a imprensa, o teatro e organizações civis. O periódico parece inspirado na campanha Don’t buy where you cannot work, capitaneada por algumas lideranças e de alguma repercussão na comunidade negra durante a primeira metade do século XX, promovendo o boicote aos empreendimentos brancos por parte da população negra. O Negro handbook cumpriria o papel de difundir pela população negra informações sobre onde encontrar os empreendimentos liderados por pessoas negras, aos quais, de acordo com a campanha, deveria ser dada preferência.

O livro inaugural dos estudos sobre elites negras nos Estados Unidos, Negro in business, editado por DuBois (1971) em 1899, aparece no contexto dessa articulação para si da elite negra já existente em si, em uma conferência, realizada na Universidade de Atlanta, dedicada à formação superior de afro-americanos para discutir passado, presente e futuro de uma classe negra empreendedora. Esse processo de articulação, que inclui a formação da National Negro Business League, em 1900, é interpretado por Frazier (1957, p. 141) enquanto processo de institucionalização do que seria o “mito de uma classe negra dos negócios”, isto é, não a classe em si, tal qual ela existe, com suas enormes limitações em termos de poder e de diversificação econômica, mas a classe transformada em elemento de uma narrativa, em coisa simbólica sobre a qual se projetavam ambições e expectativas. O estudo Negro in business mostra a apropriação das ciências sociais pela intelligentsia negra no esforço de construção dessa narrativa. Na introdução, o editor argumenta a inserção da pesquisa num projeto mais geral, de formação de “líderes do pensamento e missionários da cultura em meio à massa” (DUBOIS, 1899, p. 1). Na sequência, a publicação apresenta caráter de estudo empírico sistemático, com apresentação da metodologia utilizada na coleta de dados e discussão dos resultados sobre a distribuição ocupacional da população negra oferecidos pelo Censo de 1890. O principal dispositivo retórico responsável pelo trânsito entre o escrutínio descritivo e a construção da narrativa consiste nos critérios de classificação:

O termo “homem de negócios” é interpretado, nesse estudo, de modo a incluir todos com estoques de produtos a vender, e também todas as pessoas que tenham pelo menos $500 em capital investido. A propósito, enquanto um barbeiro seria a princípio classificado como artesão, aquele com $500 ou mais investidos em sua loja, tendo vários assistentes empregados, é antes um capitalista do que um artesão, e 62 desse foram classificados como homens de negócio. Assim também pareceu adequado classificar 31 ferreiros e mantenedores de rodas que tinham considerável capital investido, além de estoques de produtos para a venda. Em vários

outros casos houve alguma dificuldade para traçar uma linha divisória entre

artesãos em homens de negócios, e a decisão teve de ser mais ou menos

arbitrária, apesar do investimento de capital considerável ter constituído o

critério mais recorrente. (DUBOIS, 1899, p. 7, tradução nossa). 9

Como se nota, a definição operacional de “homem de negócios” é feita ampla o bastante para incluir empreendedores de pequeno porte, que, numa acepção comum, seriam oxalá considerados pequeno burgueses. Do ponto de vista técnico, não há incorreção nenhuma nesse procedimento, uma vez que essa definição operacional é explicitada na exposição do trabalho. Contudo, independentemente da definição operacional adotada, o termo “businessman” insere-se num campo semântico próprio, partilhado por outros termos como capitalista, burguês, empreendedor, e que, por conseguinte, empresta ao termo conotações um pouco mais ambiciosas do que a definição operacional a princípio permitiria. Ao alternar entre uma definição operacional mais modesta e uma exposição técnica rente a essa definição e, por outro lado, uma exposição retórica que evoca as conotações mais audaciosas do termo, o texto sustenta a narrativa grandiloquente de uma classe negra capitalista.

Uma expressão ainda mais acabada dessa abordagem em que o estudo da elite negra se confunde com o processo de formação de uma consciência de classe por parte dessa mesma elite consiste numa publicação do início do século passado: The negro problem: a series of articles by representative American negroes of to-day (WASHINGTON, 1903). A publicação reúne textos escritos por diferentes negros de destaque, discutindo agora não apenas o estatuto de uma elite negra, mas a questão mais geral da integração do negro à sociedade de classes. Isso quer dizer que o conteúdo da publicação não traz apenas um esforço de construção de uma narrativa de elite negra, mas, sobretudo, o que é mais radical, uma vivência dessa narrativa. Os autores, muitas vezes, simplesmente escrevem assumindo o lugar de fala instituído por essa narrativa: o de uma elite negra demiurga, responsável pela interpretação da condição do negro na sociedade estadunidense e sob cuja ação histórica repousaria a ascensão da população negra como um todo.

Quando o autor do primeiro capítulo, Industrial education for the negro, Booker Washington, discute a importância de uma educação técnica para as massas negras, está implícita a noção de que existe uma elite negra, constituída enquanto uma minoria mais altamente letrada. Junto a isso, a retórica do texto opera uma tomada de posição enquanto parte dessa elite, que seria responsável por discutir as estratégias mais adequadas para a melhoria das condições de vida da população negra em geral. Por seu turno, o

Capítulo 6, Representative American negroes, ao elencar um número de negros eminentes, constitui uma reflexão explícita acerca do que definiria essa condição de elite, isto é, acerca do significado de ser um negro “exemplar”. O principal critério é a contribuição à construção de um orgulho racial. O que o autor argumenta a favor das pessoas elencadas é o juízo de que suas realizações, em determinado campo de atuação ou em vários, teriam se elevado além da média e mesmo para além do bom, porém, ainda ordinário, em suficiente medida para figurarem como pessoas altamente apreciáveis, cujo gênio, socialmente reconhecido, testemunharia a favor das potencialidades da “raça” negra como um todo. Nesse sentido, embora a eminência dos negros exemplares elencados estivesse, em geral, ancorada em posições elevadas na distribuição socioeconômica, o conceito de elite articulado pelo autor ultrapassa essa definição, reivindicando uma posição de valor simbólico.

Especialmente interessante é o capítulo The talented tenth, onde DuBois defende uma genuína teoria das elites. Como um recurso retórico a ser notado, o autor começa e termina o artigo com a seguinte linha: “The negro race, like all races, is going to be safe by its exceptional men”. Entrementes, Dubois defende a necessidade de se garantir, por meio de uma educação superior de caráter humanístico, orientada a uma formação geral em ciências, línguas, filosofia e história – em suma, uma educação cujo objetivo seja, para além da formação técnica profissional, Paideia – a existência de pessoas negras de elite, dotadas tanto de sofisticação intelectual quanto de verve prática. Ocupando com brilhantismo posições de liderança como professores, pastores, jornalistas, nos negócios, na administração pública e na política, os membros dessa elite não apenas trariam benefícios à população negra por meio de suas realizações profissionais, como também exerceriam sobre esta população uma influência pedagógica que elevaria os padrões de sociabilidade e as habilidades intelectuais e laborais da mulher e do homem negro em geral. Existe, portanto, na virada para o século XX, uma elite negra enquanto classe em si e para si. Ela existe em si como fruto de um processo de diferenciação social iniciado entre negros livres na sociedade escravista e intensificado a partir da Guerra Civil. Ela existe para si porque concebeu a si mesma enquanto tal e, assumindo-se como, mais do que elite, vanguarda, atribuiu a si mesma o papel de discutir sobre o passado, o presente e o futuro do processo de integração do negro à sociedade de classes.

É sobre esse pano de fundo que surge, em 1936, o livro The negro as capitalist, de Abram Harris. Nesse trabalho, o autor investiga a diferenciação de uma classe empreendedora na população negra, adotando como foco de investigação empírica os bancos. Entre 1888 e 1934, mais de uma centena de bancos foram criados por negros, além de um número de Credit Unions e de Building and Loan Societies. Deste grande número, apenas pouco mais de uma dezena de bancos sobreviveriam, numa dinâmica envolvendo não apenas quebra, mas também fusões. Esses bancos foram capitalizados pela expansão, ocorrida depois da Guerra Civil, de sociedades visando garantir à população negra nível de poupança necessário ao acesso a serviços básicos. Com a igreja negra servindo como suporte de organização civil, diversas Fraternal Insurances e Burial Societies foram criadas e promoveram um acúmulo inicial de capital. Embora o desenvolvimento dessa classe no seio da população negra seja de impressionar, a discriminação e a segregação racial mantiveram muito restritos os horizontes dessa diferenciação social. Nenhum avanço significativo foi feito pela população negra nos setores da indústria e do comércio no atacado. Excluindo-se o próprio setor financeiro, a diversificação de uma classe negra “capitalista” se restringiu aos serviços de recreação e lazer, ao comércio no varejo, aos serviços pessoais e à pequena propriedade agrária. O que o autor identifica é um desenvolvimento da classe negra capitalista durante as primeiras décadas do século XX medido pelo constante aumento, com alguma queda durante e após a Crise de 1929, no total de depósitos adquiridos pelos principais bancos de cada período.

A restrição na diversificação dos setores produtivos impactava negativamente o setor financeiro da classe negra capitalista, uma vez que a capitalização dos bancos, pelo menos no que tange aos depósitos, se dava sobre uma base produtiva menos diversificada e de relativamente modesta envergadura financeira. Essa frágil classe econômica negra dominante resistiria menos ainda diante do crescimento em escala das firmas. Setores como o comércio varejista e a prestação de serviços nas comunidades negras segregadas passaram a ser cada vez mais penetrados por grandes firmas, organizadas em cadeia e dominadas por brancos. Boa parte das energias antes concentradas pelas lideranças negras no projeto de uma elite econômica negra empreendedora divergiram para a reivindicação de que se ocupassem negros, em boas posições profissionais, nessas grandes firmas que dominavam o mercado no varejo. Em outras palavras, refletindo mudanças nas circunstâncias objetivas, o projeto de uma elite negra capitalista cedeu, em boa medida, lugar para o projeto de uma elite negra assalariada.

O livro de Harris marca um deslocamento de posição de fala na discussão sobre elites negras: da primeira pessoa para a terceira pessoa, do articulador da narrativa de classe dominante para o crítico dessa narrativa. Harris (1936) termina seu livro chamando atenção para o antagonismo de classe no interior da população negra, que seria mascarado pelo discurso da elite negra demiurga. Considere-se o contexto de discussão do autor. Havia, na época, a defesa de um projeto econômico separatista para a população negra. O influente intelectual negro DuBois defendia a ideia de que, diante da segregação racial, institucionalizada no Sul e simplesmente eficaz no Norte, a população negra precisaria reagir formando uma estrutura econômica independente. Por outro lado, havia o influente empresário e intelectual Booker Washington defendendo não um projeto separatista de economia, mas, numa linha de pensamento mais pragmática, um projeto protecionista, segundo o qual, a população negra deveria consumir em estabelecimentos dos quais fossem proprietárias pessoas negras, mesmo quando esses praticassem preços sensivelmente mais altos, como forma de fortalecer a elite econômica negra. A posição de Harris é de que a ideia de uma economia independente para a população negra era simplesmente irrealista. Já quanto ao protecionismo econômico, segundo o autor, esse discurso pretendia mascarar, sob uma ideologia de solidariedade racial, o antagonismo de classe entre a elite e as massas na população negra. O autor enfatiza:

Em sua confusão, as massas são levadas a dirigirem seus ânimos contra os

judeus e a branquitude. As reais forças por trás de suas deficiências e

desconforto são mascarados pela raça, o que os impede de ver que o que

homem negro de negócios quer, antes de tudo, é a liberdade para

monopolizar e explorar o mercado de consumo que elas provêm. As massas

não conseguem ver que elas não têm explorador maior que o negro

capitalista que vive da exploração de trabalho mal remunerado e até mesmo

extenuante, embora ele próprio e sua família geralmente vivem em consumo

ostentatório. (HARRIS, 1936, p. 184, tradução nossa).10

O trabalho de Franklin Frazier (1957), em Black bourgeuoisie, aponta também para a existência desse antagonismo e se concentra numa crítica ácida à narrativa de classe da elite negra. Na verdade, o autor desenvolve um estudo crítico sobre grupo de status e composição de estilo de vida a partir da posição dessa classe, antecipando uma abordagem que logo ganharia notoriedade na sociologia com o trabalho de Pierre Bourdieu (1984), na década de 1970. Em termos de metodologia, o autor adota uma estratégia bem livre, recorrendo a dados censitários, fontes documentais (principalmente publicações da imprensa negra) e entrevistas realizadas por ocasião de sua pesquisa anterior sobre famílias negras nos Estados Unidos. Sua crítica centra-se basicamente na forma como a narrativa de classe da burguesia negra se articula, segundo ele, enquanto uma solução simbólica precária para as ambiguidades inerentes à condição dessa pequena classe que, embora dominante, seria, ao mesmo tempo, violentamente dominada. A posição ocupada pela burguesia negra seria definida por uma ambivalência: se a identificação com o estilo de vida e com as visões de mundo das classes dominantes leva à ruptura com as massas pobres do próprio grupo racial, a discriminação e a segregação frustram o efetivo acesso às posições sociais e, sobretudo, ao mundo da vida das elites. Adotando uma escrita estilística como recurso de persuasão sobre a dramaticidade mesma da condição da elite negra, o autor argumenta:

A burguesia negra vive sobretudo em um mundo do blefe; num jogo de máscaras, encenando tristes papéis para dissimular seu sentimento de inferioridade e de insegurança e as frustrações que agitam sua vida secreta. Seus membros se esforçam para evitar serem confundidos com a massa de cor, mas lhes é impossível escapar à mesma opressão que atinge seus semelhantes de raça menos favorecidos. Tal esforço para escapar de sua própria negritude lhes incute um ódio de si mesmos, que encontra expressão no rebaixamento das caraterísticas sociais e físicas dos negros. Do mesmo modo, seus sentimentos de inferioridade e de insegurança são traídos pela intensidade patológica de sua luta para se elevarem socialmente em um mundo dos negros isolado, assim como pelo intenso desejo de aceitação

pelos brancos. (FRAZIER, 1957, p. 192, tradução nossa).11

O argumento central é o de que a burguesia negra, em certo sentido, ocuparia uma espécie de não lugar social. O campo restrito de sua atuação econômica é o bastante para sustentar sua diferenciação em relação às massas negras, mas não o bastante para alçá-la a uma posição efetivamente importante na economia do país. Ademais, as restrições impostas a sua circulação pelo mundo da vida equivalem a impossibilidade de acesso a ritos e a uma vida cotidiana capaz de sustentar uma representação de si própria enquanto elite. Em consonância com os estilismos de Frazier, lembrando as imagens de A divina comédia, a elite negra viveria numa espécie de limbo. Foi tendo o limbo como morada que Virgílio guiou Dante incauto, caminhando altivo no inferno e no purgatório, mas, pagão ainda, a despeito do mérito de suas proezas, não pôde seguir jornada pelo paraíso. Assim, a elite negra andaria sobre as cabeças das massas negras pauperizadas, mas não atravessaria os portões de acesso ao mundo da burguesia branca dominante. Na interpretação de Frazier, é por conta dessa posição de não lugar que a burguesia negra criou para si uma espécie de lugar mítico de prestígio e reconhecimento social, ancorado em rituais e na materialização do discurso em publicações, especialmente por meio da imprensa.

A argumentação de Frazier constitui, assim, um ataque violento à narrativa de elite demiurga construído durante as primeiras décadas do século XX. Primeiramente, o autor expõe e enfatiza, como já feito por Harris em The negro as capitalist, os antagonismos de classe entre essa elite e as massas negras. Em segundo lugar, ele desenvolve uma crítica extensa e direta a essa narrativa, afirmando a inexistência de uma autêntica solidariedade racial capaz de atravessar as clivagens de classe. Na opinião do autor, o orgulho racial das elites de cor seria um sentimento muito frágil que não geraria solidariedade de classe, mas, pelo contrário, se trairia no antagonismo com as massas negras da classe popular e, ainda mais dramaticamente, num antagonismo com o próprio corpo:

A burguesia de cor alardeia constantemente seu orgulho racial; mas, ao

reparar suas atitudes em relação aos traços físicos ou às características

sociais dos negros, percebe-se por óbvio que, na verdade, ela não quer se

identificar com eles (FRAZIER, 1957, p. 194, tradução nossa). 12

Considerando o fato de que boa parte da elite negra é mulata, Frazier comenta por várias vezes o “esnobismo de cor” dos mulatos (Frazier, 1957, p. 178) diante das massas pobres de negros retintos, esnobismo cujo simétrico oposto seria, nas palavras do autor, um “complexo de inferioridade” em relação ao branco. Cabe notar: embora o trabalho apresente uma qualidade notável, a argumentação do autor parece fortemente enviesada por uma posição pessoal avessa à elite negra. Esse dessabor parece advir da reprovação moral diante do que o autor provavelmente considera uma atitude mais ou menos comum nessa classe. Em The negro family in the United States, publicado originalmente em 1948, Frazier comenta sobre a posição não incomum no seio da elite negra de apoiar a discriminação de negros pobres em estabelecimentos públicos. O autor cita “um homem negro, editor de uma gazeta, que chamava a atenção de um homem branco para o fato de que ‘as pessoas brancas, de maneira geral, riscam uma linha de separação no ponto errado, colocando todos nós na mesma

categoria’” (Frazier, 1951, p. 326, tradução nossa). 13

A partir da década de 1960, acumula-se, nos Estados Unidos, certo volume de estudos de caráter eminentemente quantitativo sobre a afluência econômica entre os negros (BRIMMER, 1988; COLLINS, 1983; FEATHERMAN; HAUSER, 1976; HINE, 2003). Muitos desses estudos concentram-se na verdade numa “classe média” negra, termo com o qual se referem, geralmente, a trabalhadores não manuais qualificados e também a especialistas. Em geral, discute-se sobre a contribuição das políticas de Estado instituídas a partir de 1964 para o crescimento dessa classe, sobre a persistência (ou a não persistência) de barreiras raciais à sua plena expansão, assim como sobre a fragilidade das suas posições em termos não apenas econômicos, mas de poder. Nesse corpo de trabalhos, existe uma discussão sobre em que medida o aumento nos níveis de mobilidade social por parte dos negros indicaria uma queda na relevância da condição racial enquanto fator de estratificação (LANDRY; MARSH, 2011). Esse debate reflete, sobretudo, os desafios interpretativos impostos pela passagem de um contexto em que a segregação racial operava uma separação absoluta entre negros e brancos enquanto castas para um contexto em que a condição racial passa a ser um fator com impacto relativo sobre as chances de vida das pessoas. Quanto a posições mais altas na hierarquia social, desenvolveram-se alguns estudos sobre a carreira de negros nos altos círculos executivos, identificando a tendência de que essas vagas se restrinjam a setores de atuação muito restritos e racializados (COLLINS, 1989).

No Brasil, a produção sobre negros nas elites é especialmente acanhada. A primeira menção ao tema pode ser localizada num capítulo de Sobrados e mocambos: o mulato bacharel. Nesse capítulo, Freyre (1936) explora basicamente a condição do filho homem, fruto de relações sexuais entre homens brancos e mulheres negras, e reconhecido pelo pai. Contando com altos níveis de escolaridade e com proteção social, esses mestiços galgavam posições sociais mais elevadas, sobretudo em cargos públicos. De maneira geral, a condição do negro em posições sociais médias, fincadas em postos de trabalho não manual ou, menos frequentemente, na condição de especialistas, aparece como tópico nos diversos estudos sobre estratificação racial. Além disso, autores como Florestan Fernandes (1965) e Luiz Aguiar Costa Pinto (1953) dedicaram-se ao estudo do ativismo e da imprensa negra durante a primeira metade do século XX, notadamente com foco em elites políticas. O único clássico brasileiro, contudo, especificamente voltado ao estudo dos negros nas elites é o As elites de cor, de Thales de Azevedo (1955). O autor empreende um estudo sobre a inserção de negros em posições sociais elevadas na Bahia, diferenciando sua análise em termos de diversos campos de atividade. Embora não estruture sua análise exatamente com o intuito de identificar quais são os campos de atividade mais permeáveis à ascensão do negro, dedicando suas notas conclusivas a interpretações mais gerais sobre a natureza da discriminação racial no Brasil, o autor faz alguns apontamentos nesse sentido.

No comércio, Azevedo identifica dificuldades para a ascensão do negro sobretudo em função da baixa capacidade de investimento. A posição de proprietário depende do nível de capitalização. Assim, levando-se em conta um contexto de fragilidade nos fluxos de crédito, ficava mais do que nunca a cargo do patrimônio acumulado em nível familiar as condições de possibilidade para que se atingisse essa condição. Assim, os negros atingiam, no máximo, a posição de pequenos comerciantes, um ou outro galgando posições um pouco mais elevadas. Na política, Azevedo (1955) identifica um ambiente mais permeável graças a algumas vias de acesso abertas por arranjos institucionais em regime democrático: organizações de classe e partidos. A burocracia também teria representado um canal mais aberto, sobretudo à medida que processos impessoais de seleção se consolidavam, garantindo ao negro educado chances de competir por posições. Contudo, o autor identifica a persistência de algumas barreiras raciais no que se refere à progressão na carreira por meio de cargos por indicação. Embora, de maneira geral, o autor prefira interpretar essas barreiras como função de déficits educacionais, não no sentido do título, mas no sentido mais amplo referente a aspectos comportamentais, poder-se-ia dizer de habitus, ele admite a discriminação racial como um aspecto relevante.