O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010
3.4 Conclusão
A tese da acomodação não afirma apenas que a hierarquia racial constitui uma semântica sobreposta à hierarquia de classes, com a negritude simplesmente conotando posições sociais subalternas. Se fosse assim, a condição de classe seria a verdadeira dimensão definidora da hierarquia social. Já a cor, seria apenas um dos significantes possíveis para essa hierarquia, uma forma estética associada a determinada posição típica de classe e, portanto, capaz de comunicá-la. Embora essa associação indutiva entre raça e classe seja um fenômeno importante, gerador de uma semântica onde posição racial pode comunicar, por analogia, posição de classe, a tese da acomodação afirma que existe algo muito além disso na interação entre classe e raça. Na verdade, é preciso estabelecer uma diferença entre, de um lado, a interação dinâmica entre classe e raça no que diz respeito às práticas de discriminação e, de outro lado, a interação semântica entre essas duas dimensões de hierarquização social.
Considere-se, por exemplo, a ideia do “embranquecimento”. Como se sabe, não é incomum o argumento de que o negro, ao ascender socialmente, “embranquece”, no sentido de ser aceito socialmente como uma pessoa branca, como se a ascensão de classe virtualmente eliminasse a discriminação racial. Como se pode notar, os resultados aqui apresentados dão muito pouco alento a essa ideia. É justamente sobre os negros alcançando degraus mais altos da hierarquia socioeconômica que as barreiras raciais parecem pesar mais.
Contudo, mais do que descartada, a ideia do “embranquecimento” precisa ser melhor compreendida em termos de um fenômeno semântico. Ponha-se de lado a ideia de que se trata da irrelevância do preconceito racial diante da ascensão socioeconômica. O que então esse termo poderia significar? O que se revela é uma figura de linguagem; nada mais e nada menos que uma metonímia. É que a classificação social opera muitas vezes por síntese. Se, do ponto de vista analítico, condição racial e posição de classe constituem dimensões distintas da formação de status, do ponto de vista da experiência, a colinearidade empírica entre esses dois vetores informa uma semântica sintética de classificação social.
O fato de se utilizar eventualmente termos de branquidão para se referir a um negro que é rico não significa que o eixo de classificação racial tenha sido abandonado em nome do eixo de classificação por classe, mas tão somente que aquilo que seria o eixo de classificação racial assume, por metonímia, uma habilidade expressiva para conotar posição de classe ou, melhor ainda, status em geral. É como se fosse extraída, de maneira espontânea, da distribuição por esses dois eixos de classificação (a raça e a classe) a componente principal que expressa uma variável latente, que seria o próprio status social. O “embranquecimento” consiste em atribuir a essa grandeza latente o rótulo da branquitude. Nesse sentido, o “embranquecimento” é apenas expressão de uma operação lógica sintética, ao nível das formas de classificação social, que faz a brancura operar como rótulo para uma grandeza latente que constitui uma noção genérica de prestígio. Algo semelhante já foi observado por Azevedo (1955), quando esse autor notou que a cor e os traços físicos operam como símbolos gerais de status, fazendo da resistência ao intercurso racial uma manifestação simultânea de preconceitos por raça e por classe.
O mais importante é que não se pode confundir o “embranquecimento”, que constitui, sem dúvidas, um fenômeno relevante do ponto de vista semântico, com o princípio de articulação entre raça e classe no que se refere ao comportamento efetivo da discriminação racial ao longo da hierarquia socioeconômica. Esse princípio parece ser o da acomodação das relações raciais em posições de classe e, de acordo com ele, as resistências sociais impostas aos negros na verdade se agravam quando se trata de posições sociais mais elevadas. De acordo com essa acomodação, o negro que enriquece não é um branco. Ele é, antes de tudo, aquilo que é: um negro rico. E contra ele reage um princípio que é contrariado pelo simples fato de ele ocupar a posição social que ocupa. Sua simples condição contraria o mapeamento normativo, socialmente compartilhado, dos grupos raciais em posições de classe.