O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

6.4 Associação entre riqueza e poder para as mulheres negras

Em conclusão, os negros estão claramente concentrados nos segmentos de elite menos poderosos na esfera econômica. Isso se revela pela concentração na pequena burguesia e pela fraquíssima associação entre riqueza e poder para os negros através do segmento dos executivos. Lembre-se de que a disparidade racial mais moderada entre os grandes empregadores deve ser vista com muito cuidado, pois se trata de um grupo muito heterogêneo, tudo levando a crer que os negros estão concentrados entre os menores dentre os grandes empregadores.

Na esfera política, assiste-se a duas tendências opostas. Por um lado, a elite política ancorada no Estado mostra menor disparidade racial. É aí que se observa a mais forte associação entre riqueza e poder para as pessoas negras. Já na sociedade civil, observa-se o contrário. Ali, a associação entre riqueza e poder é a mais fraca para os negros, mais fraca até que entre os executivos. Pelo menos no que diz respeito à questão racial, portanto, a formação de elites ricas no âmbito da sociedade civil parece ser menos democrática do que no âmbito do próprio Estado. A burocracia fica numa posição intermediária, com uma disparidade racial mais moderada. É importante lembrar que o poder de que dispõem os burocratas é relativamente menor, pois não se trata de um poder de comando direto, mas apenas um poder indireto, derivado do controle operacional sobre procedimentos. Sendo assim, a associação não tão fraca entre riqueza e poder para os negros nesse segmento de elite manifesta, antes de tudo, a tendência geral de baixa associação entre riqueza e poder para pessoas de cor.

 

6.4 Associação entre riqueza e poder

para as mulheres negras

Tanto a condição racial quanto a condição de gênero relacionam-se não apenas às oportunidades de riqueza, mas também às oportunidades de exercício de poder. De maneira geral, ser negro implica desvantagens, e ser mulher, também. Algo que coloca a mulher negra, mais uma vez, em situação crítica. Com efeito, tanto homens quanto mulheres são minoria entre os ricos, assim como entre todos os segmentos de elite aqui considerados. O que está em questão, contudo, não é essa condição minoritária. O que se está explorando é algo diferente: as diferenças na associação entre riqueza e poder. Como já foi visto até aqui, mesmo os negros sendo minoria em qualquer dos segmentos de elite, é possível identificar determinados segmentos para os quais a associação entre riqueza e poder é mais forte para os negros do que para os brancos. Não é que os negros sejam maioria ali. Na verdade, o máximo que eles alcançam entre os diversos segmentos da elite rica é a proporção de 22% no segmento estatal. Em todos os outros, sua proporção é ainda menor. Mas, se apenas cerca de 16% dos ricos são negros, o fato desse grupo racial representar cerca de 22% da elite rica estatal indica uma tendência à concentração dos negros ricos nesse segmento. São exatamente essas relações que estão sendo chamadas de associação entre riqueza e poder e são elas que a modelagem logística identifica para gerar as probabilidades com as quais se tem trabalhado neste capítulo. O mesmo será feito agora considerando também o sexo das pessoas.

A grande questão posta é como sexo e condição racial interagem no condicionamento da associação entre riqueza e poder, determinando a associação entre riqueza e poder para a mulher negra. Utilizando a mesma modelagem da seção anterior, obtém-se agora probabilidades associando riqueza e poder para quatro grupos: homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. O que se computa é a probabilidade de pertencer a determinado segmento de elite condicional à riqueza, à raça e ao sexo das pessoas. Os resultados para o segmento estatal da elite

são mostrados no Gráfico 5.3. Os gráficos que vêm na sequência apresentam o mesmo resultado para os outros segmentos. As escalas no eixo vertical não são as mesmas. Isso porque alguns segmentos, como o da sociedade civil, são muito pequenos, com probabilidades ínfimas de pertencimento em termos absolutos. Com isso, as escalas se dilatam ou se contraem para que sejam visíveis as desigualdades relativas entre as probabilidades associadas aos grupos. Isso quer dizer que o leitor deve evitar uma comparação entre os gráficos com base na inspeção visual, atendo-se à comparação entre as barras dentro de um mesmo gráfico.

Gráfico 6.3: Associação entre riqueza e poder por raça e sexo:

segmento estatal.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

Nota-se que a hierarquia das probabilidades aponta para uma saliência das diferenças por condição racial com uma diferenciação por sexo secundária, que se inverte entre os grupos raciais. Pessoas negras, homens ou mulheres, estão mais concentradas nesse segmento de elite. Por outro lado, os homens negros estão mais concentrados que as mulheres negras. Relação que se inverte entre os brancos, estando as mulheres, nesse caso, mais concentradas que os homens. Existe uma permeabilidade racial desse segmento de elite que é, no entanto, menos eficaz em se tratando da mulher negra. Ao mesmo tempo, para as mulheres brancas, o segmento estatal da elite está relativamente mais aberto. Há, assim, uma permeabilidade desse segmento aos grupos em desvantagem, mas, para as mulheres negras, essa permeabilidade se restringe. Entre os executivos o quadro é diferente, como mostra

o Gráfico 6.4.

Gráfico 6.4: Associação entre riqueza e poder por raça e sexo:

segmento executivo.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

Mais uma vez, o crivo racial se sobrepõe às diferenças por gênero na associação entre riqueza e poder. Pessoas negras estão menos concentradas nesse segmento. Por outro lado, as diferenças por gênero são agora as mesmas ao longo dos grupos raciais: mulheres brancas menos concentradas que os homens brancos e mulheres negras menos concentradas que homens negros. O segmento executivo revela, assim, uma hierarquia bem clara conjugando raça e gênero. Maior permeabilidade a pessoas brancas com permeabilidade menor à mulher branca especificamente. A permeabilidade à mulher branca ainda é maior, contudo, que ao homem negro. A mulher negra, por sua vez, está no último degrau da escada. Já entre os grandes empregadores, o quadro é outro,

como mostra o Gráfico 6.5:

Gráfico 6.5: Associação entre riqueza e poder por raça e sexo:

grandes empregadores.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

Nesse caso, as diferenças por sexo são mais salientes. Os homens, de maneira geral, estão mais concentrados entre os grandes empregadores. Os homens negros estão abaixo dos homens brancos, e as mulheres brancas, abaixo dos homens negros. A mulher negra, mais uma vez, aparece em último lugar. Entre grandes proprietários e executivos, existe, portanto, uma inversão interessante na ordem dos critérios de estratificação. A condição de proprietário é, sobretudo, uma via de associação entre riqueza e poder para os homens. É importante ressaltar que, em todos os segmentos de elite rica, a ordem de representação dos quatro grupos é a mesma. Primeiro vem o homem branco, perfazendo sempre quase ou mais que a metade do segmento. Segue-o, de longe, a mulher branca. Em seguida, seguindo a mulher branca um pouco mais de perto, vem o homem negro e, por último, em proporções sempre inferiores a 5%, vem a mulher negra. A associação entre riqueza e poder entre os executivos não apenas segue, como agrava esse padrão. Os homens brancos, que são 63% dos ricos, chegam a perfazer 77% desse segmento da elite rica. No outro extremo, as mulheres negras, 4% dentre os ricos de maneira geral, não chegam a 1% dos executivos ricos. Os homens negros também sofrem uma queda drástica de representação nesse setor, saindo dos seus 14% do total dos ricos para menos de 6% nesse segmento. As mulheres brancas caem dos seus 21% entre os ricos em geral para 16% entre os executivos ricos. Veja agora como é o caso dos pequenos empregadores.

Gráfico 6.6: Associação entre riqueza e poder por raça e sexo:

pequenos empregadores.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

A distribuição lembra o que ocorre no caso do segmento estatal pela inversão da desigualdade de gênero entre os dois grupos raciais. Homens negros estão acima das mulheres negras, mas são as mulheres brancas que estão acima dos homens brancos. Contudo, diferentemente do segmento estatal, no qual as mulheres negras encontram uma associação entre riqueza e poder mais forte do que homens e mulheres brancas, estando atrás apenas dos homens negros, as mulheres negras ficam em último lugar. Se a maior associação para os homens negros indica uma permeabilidade ao negro e a maior associação para as mulheres brancas, em comparação aos homens brancos, sugere uma permeabilidade à mulher, a posição da mulher negra contraria essas duas tendências. Note-se também que, nesse caso, as diferenças são bem menores, com todas as barras tendo tamanho muito próximo. Na verdade, o que ocorre nesse segmento é uma leve concentração de homens negros e, ao mesmo tempo, uma leve desconcentração de homens brancos que, sendo 63% dos ricos em geral, representam uma porção de 61,5% dos ricos pequenos empregadores. Veja agora o que ocorre com o segmento dos burocratas:

Gráfico 6.7: Associação entre riqueza e poder por raça e sexo:

segmento burocrático.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

Observa-se, nesse caso, à semelhança do que ocorre com os executivos, a forma de escada que reproduz a representação dos quatro grupos na elite rica. Não há, contudo, a mesma acentuação do quadro. Como foi visto no segmento dos executivos, não só esse padrão é reproduzido como a intensidade das disparidades é intensificada por uma grande impermeabilidade ao homem negro e, mais ainda, à mulher negra. No caso da burocracia, o quadro é mais moderado. Isso difere bastante do que ocorre com a sociedade civil,

conforme o Gráfico 5.8, a seguir. Note-se, primeiramente, que, por conta do tamanho ínfimo desse segmento de elite, as probabilidades são muito pequenas. Quanto às disparidades, o que se observa nesse caso é um acirramento drástico da disparidade racial. Homens e mulheres negras que perfazem 16% dos ricos não representam, em conjunto, 4,5% desse segmento de elite. A impermeabilidade racial é definitivamente o aspecto mais crítico da associação entre riqueza e poder através da sociedade civil.

Gráfico 6.8: Associação entre riqueza e poder por raça e sexo:

sociedade civil.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

No panorama geral, o que se observa é que o peso relativo da raça e do gênero sobre a associação entre riqueza e poder varia de acordo com o segmento de elite em questão. É importante ressaltar que os padrões observados não são mera reprodução das diferentes proporções pelas quais os quatro grupos considerados participam da riqueza e dos segmentos de elite. A associação entre riqueza e poder consiste, basicamente, nas variações em torno dessas proporções e da participação dos grupos em cada um dos segmentos de elite. Mesmo os brancos sendo esmagadora maioria entre os ricos e em todos os segmentos de elite rica, observa-se uma concentração de negros ricos em alguns desses segmentos. No caso dos grandes empregadores, observa-se uma concentração de homens brancos e negros. Mesmo sendo a proporção de mulheres brancas superior à proporção de negros entre os grandes empregadores, a maior concentração relativa de homens negros indica a existência de mecanismos subjacentes, tornando eminentemente masculino esse segmento de elite. No segmento dos pequenos empregadores, esse quadro se complica, já que, embora exista uma concentração de homens negros, há também uma concentração de mulheres brancas superior à dos homens brancos. É razoável pensar nesse segmento enquanto constituindo, por excelência, uma via permeável a grupos em desvantagem. Contudo, se essa via parece especialmente permeável ao homem negro e à mulher branca, ela permanece fechada à mulher negra.