O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

6.5 Conclusão

Com efeito, não importa qual seja o critério de estratificação mais saliente nas diferenças de associação entre riqueza e poder, a mulher negra é o grupo sistematicamente mais prejudicado. A única exceção está no segmento político, onde a associação entre riqueza e poder para as mulheres negras só não é mais forte que aquela que existe para os homens negros. Contudo, as mulheres negras ainda participam com apenas 5% desse segmento de elite, contra os 4% de sua participação entre os ricos de maneira geral. Já os homens negros participam com 18%, contra os seus 12% na riqueza em geral. As mulheres brancas participam com 26%, contra os seus 22% na composição do grupo dos ricos. São os homens brancos que caem dos seus 63% entre os ricos para 54% de participação no segmento da elite estatal. Sendo assim, a associação favorável entre riqueza e poder para a mulher negra nesse segmento representa um ganho de participação muito discreto. Na verdade, o que parece estar em jogo é uma propriedade do segmento estatal da elite de ser mais permeável à diversidade de uma maneira geral. Com isso, a associação entre riqueza e poder se fortalece para as mulheres negras, mas a participação efetiva que existe no contexto dessa associação não é muito grande. Em geral, mesmo quando determinado segmento parece mais suscetível a constituir uma via de associação entre riqueza e poder para pessoas negras e para mulheres, isso se faz sentir pelo homem negro ou pela mulher branca, mas não pela mulher negra.

 

6.5 Conclusão

As hipóteses lançadas neste capítulo dizem respeito a como a associação entre riqueza e poder condicional à raça varia em termos de segmentos de elite. Primeiramente, confirmou-se que existe um padrão diferencial de associação entre riqueza e poder segundo à condição racial. Confirmou-se também que esse padrão varia entre os segmentos de elite. Conforme o esperado, o Estado é uma via relativamente mais suscetível à associação entre riqueza e poder para pessoas negras. O mercado, por outro lado, é uma via mais impermeável. Isso se nota em se tratando dos grandes proprietários e, especialmente, dos executivos. A associação entre riqueza e poder é extremamente fraca para os negros em se tratando desse último segmento. Por outro lado, a posição de pequeno empregador se mostra mais permeável, denotando que a associação possível entre riqueza e poder para os negros na esfera econômica está mais circunscrita à posição de pequeno burguês. Refuta-se, por outro lado, a hipótese de que a sociedade civil é um ambiente permeável aos negros. Pelo contrário, esse segmento de elite é aquele para o qual a associação entre riqueza e poder é a mais baixa para pessoas negras. Refutou-se, ainda, a hipótese de que esses diferenciais nos padrões de associação entre riqueza e poder segundo a raça são mediados por desigualdades em termos de áreas especializadas de formação superior.

Finalmente, no que se refere à influência simultânea das condições de raça e de gênero, observou-se que alguns segmentos restringem a associação entre riqueza e poder principalmente para as mulheres, e outros, para as pessoas negras. O segmento dos grandes proprietários é prioritariamente masculino. O segmento dos executivos é prioritariamente branco. O segmento dos pequenos empregadores apresenta uma permeabilidade relativamente maior ao homem negro e, também, à mulher branca, sem que a mulher negra se beneficie dessa tendência à abertura a grupos desfavorecidos. A burocracia também é resistente, sobretudo, à associação entre riqueza e poder para os negros, mas essa resistência é muito menor que aquela existente no segmento dos executivos. O segmento estatal é o único destacadamente favorável à associação entre riqueza e poder para as pessoas negras, com homens e mulheres negras contando com associação mais forte que mulheres e homens brancos. Mais ainda, o segmento estatal é o único para o qual a mulher negra não está em último lugar no que se refere à associação entre riqueza e poder. Já a sociedade civil é extremamente impermeável à associação entre riqueza e poder para as pessoas negras, quer se trate de homens, quer se trate de mulheres. As mulheres negras constituem o grupo mais desfavorecido. Para elas, a associação entre riqueza e poder é a mais fraca, mesmo quando um segmento mostra associação mais forte para homens negros, por um lado, ou para mulheres negras, por outro. A única exceção é o segmento estatal. Mas, mesmo nele, as mulheres negras permanecem em desvantagem diante do homem negro.