O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

1.2 A agregação do grupo dos negros

Uma questão importante num estudo sobre estratificação racial refere-se à adequação das categorias empregadas pelo IBGE diante do repertório de categorias efetivamente utilizadas pelas pessoas, no dia a dia, para definir tipos raciais. A percepção de que, especialmente no Brasil, diversos matizes de fenótipo possuem relevância na dinâmica da discriminação racial oferece ainda mais razões para esse questionamento. As categorias empregadas pelo IBGE seriam suficientes para descrever as classificações que estão efetivamente em jogo na vida social? Será que, caso as pessoas pudessem se classificar livremente, os resultados da pesquisa seriam muito diferentes? As evidências mostram que não.

Isso pode parecer pouco intuitivo, dada a profusão de termos existentes para designar classificações raciais no Brasil, mas a verdade é que, quando as pessoas são convidadas a responder espontaneamente qual sua classificação racial, a maioria emprega as categorias utilizadas pelo IBGE, além de um pequeno número de outros termos que, não obstante, não destoam muito daquelas. Osório (2003) mostra que, nos levantamentos em que se procedeu com questões abertas sobre classificação racial, as categorias “preta”, “parda”, “branca” e “amarela”, atualmente utilizadas pelo IBGE, são mencionadas espontaneamente por uma proporção que varia de 50% a 70% dos entrevistados. Dentre as demais respostas, a maioria se concentra nas classificações “morena” e “morena clara”, para as quais o termo “pardo” representa uma tradução aceitável, assim como na classificação “clara”, para a qual a categoria “branco” é uma alternativa satisfatória.

Espontaneamente, o termo “moreno” é mais utilizado pelas pessoas do que o termo “pardo”. Isso pode sugerir que o primeiro seria preferível ao segundo para levantamentos de dados. Contudo, sabe-se que o termo “moreno” também é utilizado para denotar pessoas de tez branca e cabelos negros, o que não acontece com o termo “pardo”. Desse modo, a utilização dessa categoria geraria um problema de classificação que o emprego do termo “pardo” evita: pessoas de pele branca que atribuam a si mesmas uma condição diversa da que a pesquisa pretende identificar. É muito importante notar que, ao responderem as perguntas, os entrevistados as interpretam. Quando o recenseador lhes oferece o quadro de opções, as pessoas compreendem que a questão não se refere a uma identidade moral ou ideologicamente constituída, mas sim à posição que elas tipicamente ocupam nos jogos de distinção racial no decorrer de suas vidas cotidianas. Ao que tudo indica, o termo pardo cumpre a contento a função de designar uma posição nesse sentido.

Resta, ainda, indagar sobre a validade da agregação de pretos e de pardos numa mesma categoria para fins analíticos. Uma revisão da produção empírica sobre relações raciais no Brasil mostra que a distinção entre pardos e pretos pode ser relevante para o estudo de fenômenos como a dinâmica conjugal entre grupos raciais distintos, mas que, em termos de posição socioeconômica, pardos e pretos tendem a formar um grupo com características muito semelhantes se comparados ao grupo dos declarados brancos (TELLES, 2003).

Para buscar mais elementos a favor dessa categorização binária, considere a população disposta em ordem crescente de rendimentos. Podemos, então, separar a população em 100 grupos, cada um contendo uma fração de 1% da população. Esses grupos também estarão dispostos em ordem crescente de renda: do grupo

dos 1% mais pobres ao grupo dos 1% mais ricos. O Gráfico 1.1 mostra a proporção de pretos, de pardos e de brancos em cada um

desses percentis. 1

Gráfico 1.1: Proporção dos grupos raciais ao longo da

distribuição de renda.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

Como se nota, há um drástico aumento na proporção de brancos à medida que se move para os percentis mais ricos da população, chegando sua representação a mais de 80%. Nos níveis mais baixos, a proporção de pardos chega a ultrapassar a de brancos e a proporção de pretos se aproxima de 10%. Quanto ao que mais nos interessa no momento, o gráfico não parece justificar a agregação de pardos e pretos. Suas curvas estão distantes uma da outra.

Isso se deve ao fato de que a proporção de pretos na amostra é pequena. Observando-se com mais atenção, nota-se que o comportamento da curva dos pretos reproduz, de modo atenuado, o comportamento da curva dos pardos. A curva dos pretos inclina-se, sempre, aproximadamente na mesma direção que a dos pardos e, onde há picos na curva dos pardos, em geral, nota-se, na curva dos pretos, picos correspondentes, embora bem menos acentuados. O comportamento das duas curvas é semelhante, mas as variações na curva dos pretos são menos “massivas” devido a sua pequena proporção da população total. Assim, para aferir o quanto esses dois grupos são semelhantes do ponto de vista da distribuição de renda, o ideal seria isolar de algum modo os efeitos do tamanho absoluto dos grupos sobre a forma do gráfico, deixando-a como função apenas das suas distribuições relativas ao longo dos percentis. O

Gráfico 1.2 segue a mesma lógica do anterior, mas apresenta as razões de chances dos indivíduos de cada grupo de pertencerem a determinado percentil de renda.

Gráfico 1.2: Razão de chances dos grupos raciais ao longo da

distribuição de renda.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

Olhando individualmente para a curva dos brancos e para a curva dos pardos, nota-se que suas respectivas formas se assemelham às do gráfico anterior. A diferença é que a razão entre proporções é uma medida mais sensível a desproporções extremas, e o gráfico responde a isso “alongando” a curva dos brancos à direita, região que corresponde aos percentis mais ricos, onde esse grupo é super-

representado. Outra diferença é que no Gráfico 1.2 três curvas se cruzam no centro da distribuição, enquanto, no primeiro gráfico, havia apenas cruzamentos entre as curvas dos pardos e dos brancos. Isso ocorre porque a proporção de brancos é maior em quase todos os percentis, e o primeiro gráfico reflete isso. Porém, as chances de brancos estarem entre os mais pobres são menores do que o esperado, dada a sua proporção na população como um todo. O ponto na distribuição de renda onde ser branco torna-se relativamente mais provável corresponde ao 61º percentil, mostrando que os brancos têm concentração relativa entre os 40% com maior renda.

Observa-se que pretos e pardos agora parecem ser um só grupo. Se antes o comportamento da curva dos pretos acompanhava de modo muito atenuado o comportamento da curva dos pardos, as razões de chances revelam uma curva cujo comportamento é muito mais nítido e que, com raríssimas exceções em alguns pontos, praticamente coincide com a curva dos pardos. Mais ainda: ao longo de toda a distribuição, não há nenhum sinal consistente de

divergência entre as duas curvas. Em suma, o Gráfico 1.2 mostra, de um lado, um padrão de desigualdade racial de renda entre o grupo dos brancos e, de outro, um grupo formado por pretos e pardos.