O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010
4. Condição racial e o grupo dos ricos
4. Condição racial e o grupo
dos ricos
Como foi visto no capítulo anterior, obedecendo a lógica subjacente da acomodação das relações raciais em posições de classe, a desigualdade racial atinge um estado crítico nas posições mais elevadas da distribuição de renda. Foi visto que, especialmente no percentil que delimita o grupo dos ricos conforme aqui definido, é maior a magnitude da desigualdade de renda associada ao indicador de condição racial. Contudo, antes de
avançar ao estudo dos determinantes da riqueza, tarefa do próximo
capítulo, é importante observar como a desigualdade racial de renda, especialmente a desigualdade racial na composição do grupo dos ricos, se relaciona à desigualdade de renda em geral. Uma pergunta muito importante a se fazer é: a redução da disparidade racial de riqueza reduziria a desigualdade de renda na população total?
Além disso, considere-se que a desigualdade racial de riqueza pode ser considerada sob dois aspectos. Um referente à composição do grupo dos ricos e outro referente aos níveis de riqueza dos ricos ou, em outras palavras, ao quanto os ricos são ricos. Como o grupo dos ricos é definido em termos de uma linha de rendimentos, é de se esperar alguma homogeneidade de renda entre negros e brancos dentro desse grupo. Trata-se, afinal, do conjunto de negros e de brancos com rendimentos acima da linha da riqueza. Se os negros são minoria nesse grupo, não é necessário que, além disso, dentro desse grupo eles tenham níveis de afluência inferiores aos dos brancos. A disparidade racial de riqueza poderia ser apenas de composição. Nesse capítulo, testa-se também a hipótese de que existe disparidade racial de riqueza em termos de nível.
4.1 Os métodos utilizados
Embora a noção de distribuição de rendimentos seja intuitivamente evidente, cabe explicitar as características básicas que a definem. Uma delas é o “nível” da distribuição, ou seja, a magnitude das quantidades distribuídas. A outra é a “forma” da distribuição, ou seja, a configuração assumida pela dispersão dessas quantidades. Descrever uma distribuição de rendimentos significa, essencialmente, oferecer uma representação adequada para essas duas características. Para realizar essa tarefa, existem diferentes recursos disponíveis. A principal preocupação ao se escolher qualquer um deles diz respeito às informações que eles mantêm ou perdem. Essa questão é especialmente sensível no que se refere à ‘forma’ da distribuição. Medidas como o Coeficiente de Gini, por exemplo, são meios para representar características da forma de uma distribuição. Trata-se de definir uma função que “traduzirá” toda uma curva em termos de um único número. Mais do que nunca, traduzir é trair. Certamente há perdas de informação no processo. Nesse sentido, tabelas e gráficos assumem um interesse especial. Principalmente os gráficos que, enquanto representações espaciais, fazem um bom trabalho em preservar informações sobre a forma da distribuição, oferecendo, além disso, uma abordagem bastante intuitiva.
Por outro lado, medidas sintéticas possuem suas próprias vantagens. A primeira, e mais óbvia, refere-se exatamente ao seu poder de síntese. Há uma simples questão de economia na exposição. É simplesmente conveniente poder expressar um conjunto grande de informações em um conjunto mais enxuto. O mais importante, contudo, é que medidas sintéticas possuem algumas vantagens do ponto de vista analítico. Por elas serem obtidas através de determinadas funções, é possível definir funções de modo a priorizar certo tipo de informação. Por exemplo, uma medida sintética de riqueza pode ser definida para representar a proporção dos ricos na população total. Modificando sua função, pode-se obter uma medida que também preserve informações sobre a desigualdade de renda entre os ricos.
Outra vantagem analítica das medidas sintéticas é a possibilidade decompôlas. Tais medidas podem ser decompostas em fatores ou subgrupos que compõem a distribuição total dos rendimentos. Se for esse o interesse, uma medida de desigualdade de renda pode ser decomposta com base na contribuição de diferentes fontes de rendimento: trabalho, pensões, aluguéis, etc. Já no presente caso, deseja-se decompor medidas em subgrupos: negros e brancos. Nem todas as medidas são igualmente decomponíveis. Essa característica depende da função matemática que a define. No presente estudo, opta-se por trabalhar com a medida de desigualdade dada pelo Índice de Theil (1979), já que essa permite a decomposição aditiva da desigualdade total, que, no nosso caso, passa a ser dada por três componentes: a desigualdade interna ao grupo dos negros, a desigualdade interna ao grupo dos brancos e a desigualdade de renda entre negros e brancos.