O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010
3.3 Os efeitos da discriminação em diferentes posições da distribuição de renda
3.3 Os efeitos da discriminação em
diferentes posições da distribuição de
renda
Se a desigualdade racial parece mesmo se acirrar com o dinamismo econômico, ela também parece se agravar ao longo da hierarquia das posições de classe, obedecendo o princípio da acomodação. Os resultados da decomposição JMP da desigualdade
racial ao longo da distribuição de renda são expostos no Gráfico 3.2. A linha contínua representa a desigualdade total de renda entre os grupos raciais. A linha tracejada representa a contribuição dos atributos individuais, enquanto a que alterna traços e pontos representa a contribuição de fatores não observados. A linha pontilhada, por sua vez, é a que representa a contribuição dos coeficientes, ou seja, a contribuição estimada para os impactos diretos da discriminação racial. A desigualdade total é necessariamente a soma das três contribuições.
Gráfico 3.2: Decomposição da desigualdade ao longo da
distribuição de renda. Brasil, Sudeste urbano, renda igual ou
superior a um salário mínimo, 2010.
Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.
Elaboração própria.
Observando a curva da desigualdade total, nota-se que a desigualdade racial se eleva acentuadamente ao longo da distribuição de renda. Percebe-se também que essa desigualdade é majoritariamente mediada pelas desigualdades educacionais entre negros e brancos. Por outro lado, as curvas se aproximam muito no topo da distribuição, mostrando uma mudança importante no comportamento dos mecanismos geradores de desigualdade racial de renda. Observa-se que há um pico na contribuição das desigualdades educacionais em torno do 95º quantil. A contribuição dos fatores não observados, por sua vez, cresce linearmente ao longo da distribuição. Finalmente, dando suporte à hipótese lançada, a contribuição dos coeficientes cresce também linearmente. Na escala logarítmica, essa fonte responde por uma desigualdade de 0,12 na base da distribuição, chegando a 0,25 no topo. Isso quer dizer que, na base, a discriminação faria, sozinha, com que a renda dos negros fosse 89% da renda dos brancos. No topo da distribuição, esse quadro é agravado, chegando a cifra a 78%.
Como o exercício com a decomposição JMP toma como base os coeficientes estimados ainda em torno média, é importante testar a mesma hipótese por meio de regressões por quantis, que estimam coeficientes centrados em diferentes posições da distribuição de renda sem, contudo, recair em problemas gerados por análises que procedem com o truncamento da distribuição de renda em diversas frações de amostra definidas por quantis (KOENKER, 2005), como é o caso do estudo de Biderman e Guimarães (2004) sobre desigualdade racial ao longo da distribuição de renda. Os resultados
são expostos no Gráfico 3.3. Além dos coeficientes associados à condição racial, são dispostos os coeficientes associados, respectivamente, à obtenção do ensino fundamental, do médio ou do superior completos.
Gráfico 3.3: Regressão quantílica para a desigualdade racial de
renda. Brasil, Sudeste urbano, renda igual ou superior a um salário
mínimo, 2010.
Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.
Elaboração própria.
Os resultados são consistentes com os encontrados pela decomposição JMP. Nota-se que os coeficientes variam bastante ao longo da distribuição de renda, reforçando a ideia de que a análise centrada na média esconde informações importantes sobre o comportamento das correlações. Como a renda está em escala logarítmica, os coeficientes são uma aproximação da desigualdade relativa, em porcentagens, entre a renda esperada dos brancos e a renda esperada dos negros no respectivo quantil. Essa aproximação é boa para os valores em torno de 20% ou abaixo. Acima disso, trata-se de uma subestimação consistente, ou seja, as diferenças são, na verdade, um pouco maiores do que aquelas apresentadas. Em se tratando dos níveis de ensino, as porcentagens devem ser interpretadas como a vantagem de cada nível educacional em comparação com o conjunto das pessoas analfabetas ou com ensino fundamental incompleto. No que se refere à condição racial, a figura mostra a vantagem dos brancos em relação aos negros.
Nota-se que a formação superior se relaciona a níveis muito mais elevados de rendimento ao longo de toda a distribuição. Contudo, essa correlação começa a cair quando se passa do nonagésimo quantil. O mesmo acontece com o ensino médio, porém de modo mais discreto. O ensino fundamental completo, por sua vez, associa-se a uma vantagem muito menor que, entretanto, cresce consistentemente ao longo da distribuição de renda. Embora a educação, especialmente a superior, esteja associada a maiores níveis de rendimentos, essa correlação perde força no topo da distribuição, indicando que a renda dos mais ricos se explica menos por suas realizações educacionais. É na região média-superior da hierarquia de classe que a educação parece contar mais intensamente como fator diferenciador de rendimentos.
A desvantagem do negro, por seu turno, não é apenas crescente ao longo de toda a distribuição, como também cresce mais acentuadamente quando se chega ao topo, do 95º ao 99º quantil. Essa é mais uma evidência favorável à ideia de que existe uma acomodação das relações raciais em posições de classe. Quanto mais elevada a posição na distribuição de renda, maior a desvantagem associada à condição racial, mesmo quando outros fatores importantes são controlados, como educação e segmentação geográfica. Aliás, a própria educação, nitidamente a educação superior e mais discretamente o nível médio de ensino, não segue o mesmo padrão que a condição racial, com seus impactos sofrendo certa redução no topo da distribuição. São os coeficientes associados à condição do negro que seguem nitidamente o comportamento previsto. É temerário afirmar que esse padrão se deva exclusivamente ao comportamento das práticas de discriminação racial, à resistência imposta às pessoas negras de acordo com a posição social em questão. Entre os mais ricos, diferenciais de renda devem se tornar mais sensíveis a fatores como a herança material e imaterial como, por exemplo, a inclusão em redes de favorecimento de elite. Como é razoável supor que os negros estejam também em desvantagem quanto a esses fatores, a sua não inclusão no modelo enviesa os coeficientes associados à condição racial, respondendo talvez em parte pelo padrão apresentado. O que as evidências empíricas sustentam diretamente é, portanto, que um complexo de fatores, envolvendo tanto práticas de discriminação quanto mecanismos de mediação da desigualdade racial não observados, comporta-se de acordo com o princípio da acomodação das relações raciais em posições de classe, tornando as barreiras raciais tão mais severas quanto mais audaciosas as expectativas de competição.