O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010
5.5 Conversão da educação em oportunidades de riqueza para as mulheres negras
5.5 Conversão da educação em
oportunidades de riqueza para as
mulheres negras
Como já foi visto, além das desigualdades educacionais, os diferenciais em termos das condições para a conversão da educação em oportunidades de riqueza também têm um peso muito importante na determinação da disparidade racial na composição do grupo dos ricos. Pessoas negras não têm a mesma habilidade que pessoas brancas para converter determinado nível de ensino ou credencial em probabilidades de pertencer a tal grupo. Diante da situação das mulheres, em média mais educadas que os homens e, ao mesmo tempo, com rendimentos mais baixos do que os deles, só se pode esperar que tais condições cumpram um papel fundamental. Se elas são mais educadas e ainda assim menos frequentes entre os ricos, seus níveis educacionais não parecem se converter em probabilidades de riqueza com a mesma facilidade que o fazem para os homens. Nessa seção, será abordado o papel dessas condições na mediação da disparidade de riqueza considerando-se simultaneamente a raça e o sexo das pessoas. A hipótese é a de que, embora, conforme já foi mostrado, essas condições diferenciais sejam altamente relevantes para a disparidade racial, elas cumprem um papel mais saliente na mediação da disparidade de riqueza segundo o gênero. Em comparação com essa última, a disparidade segundo a raça seria mais bem explicada por fatores não observados, além, claro, das desvantagens em níveis educacionais já abordadas na seção anterior. Com isso, espera-se observar uma situação especialmente crítica para a mulher negra, que sofre impactos intensos pelas duas fontes de disparidade, mantendo-se em franca desvantagem diante de todos os outros grupos.
Para testar essa hipótese, recorre-se mais uma vez à técnica de
decomposição JMP. Implementa-se um modelo de regressão linear explicando a renda em função da idade e da escolaridade, considerando as diferenças por área de formação. Essa regressão é implementada para os quatro grupos em consideração: homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. A população foi mais uma vez restringida ao Sudeste urbano. O exercício é feito de modo a comparar os quatro grupos entre si, tomando-os par a par. Como visto na última aplicação, os resultados dessa decomposição podem variar conforme a escolha do grupo de referência. Contudo, dado o número de comparações em jogo, para tornar a apresentação tratável, optou-se por fazer as comparações em apenas um sentido: imputando as características do grupo com maior participação entre os ricos ao grupo com menor participação. Sendo assim, os quatro grupos conformam seis pares de comparação. O objetivo é distinguir, em cada par, o papel desempenhado pelas condições de conversão da educação em oportunidades de riqueza
do papel desempenhado por fatores não observados. A Tabela 5.4 apresenta os resultados desse exercício.
Tabela 5.4: Simulações JMP para a participação no grupo dos ricos por
raça e sexo. Brasil, Sudeste urbano, renda igual ou superior a um salário
mínimo, 2010.
Homem Mulher Homem Mulher
branco branca negro negra
Mulher 22,6% *** - - -
branca 31,2% **
40,1% *
Homem 7,5 *** 7,5% *** - -
negro 15,1% ** 13,8% **
21,0% * 8,3% *
Mulher negra 2,1% *** 2,1% *** 2,1% *** -
4,3% ** 3,7% ** 2,2% **
17,7% * 6,1% * 4,6% *
*** Proporção entre os ricos na distribuição real ** Proporção entre os
ricos com atribuição de resíduos
* Proporção entre os ricos com atribuição de resíduos e de coeficientes
Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração
própria.
Os grupos em vantagem estão dispostos em linha, e os em desvantagem, em coluna. Assim, às mulheres brancas são imputadas apenas as características dos homens brancos. Aos homens negros são imputadas as características dos homens e das mulheres brancas, posto que ambos os grupos estão em vantagem sobre eles quanto às chances de riqueza. Às mulheres negras são imputadas as características de todos os outros grupos. Nenhum dos pares possíveis deixa de ser comparado, embora a comparação se dê de modo unilateral no que se refere à imputação de características. Embora as comparações sejam feitas par a par, as proporções são computadas considerando o total de ricos. Por exemplo, quando se imputa às mulheres negras as condições dos homens brancos, calcula-se a proporção resultante de mulheres negras não apenas com relação aos homens brancos, mas considerando também os outros dois grupos.
Observe-se, primeiramente, a comparação entre mulheres brancas e homens brancos. A atribuição da distribuição dos resíduos desses últimos aumenta consideravelmente a participação dessas mulheres no grupo dos ricos, elevando-a de 22% para 31%, aproximadamente. A atribuição dos coeficientes exerce um efeito muito semelhante, elevando a participação das mulheres brancas entre os ricos de 31% para 40%. Isso quer dizer que, por relação aos homens brancos, fatores não observados e as condições para a conversão da educação e da experiência em oportunidades de riqueza cumprem um papel semelhante na mediação da disparidade de riqueza.
Quando se compara os homens negros aos homens brancos, a
atribuição aos primeiros da distribuição de resíduos dos últimos exerce um forte impacto. A participação dos primeiros dobra, indo de 7,5% a 15,1%. A atribuição dos coeficientes implica uma mudança também considerável, elevando a participação esperada dos homens negros entre os ricos dos 15,1% para os 21%. Da diferença total de 13,4% que separa a participação inicial e aquela que resulta da imputação de coeficientes e de fatores não observados, 56% se devem à atribuição dos resíduos e 44% à atribuição de coeficientes.
Quando se compara a mulher negra ao homem branco, nota-se, mais
uma vez, um impacto expressivo dos fatores não observados, que elevam de 2,1% para 4,3% a participação dessas mulheres entre os ricos. Os efeitos da atribuição dos coeficientes são, contudo, bem mais expressivos, elevando a participação de 4,3% a 17,7%. Da diferença global de 15,6% exercida pelas simulações, 85% se devem à atribuição dos coeficientes, denotando uma relevância sobrepujante das condições para a conversão de educação em oportunidades de riqueza na mediação da disparidade.
Quando se compara o homem negro à mulher branca, nota-se, de modo
semelhante ao que ocorre na comparação entre esses e os homens brancos, um forte impacto da imputação de fatores não observados que praticamente dobra a participação dos homens negros no grupo dos ricos, levando-a de 7,5% a 13,8%. A atribuição dos coeficientes, contudo, exerce efeito oposto, reduzindo a participação dos homens negros a 8,3%, trazendo-a para um nível próximo ao inicial. O que isso mostra é que, em comparação com as mulheres brancas, as condições para a conversão da educação em oportunidades de riqueza antes favorecem o homem negro. Já os fatores não observados de mediação exercem um efeito desfavorável e, importante notar, sobrepujante.
Comparando-se agora a mulher negra à mulher branca, nota-se que a
imputação de resíduos eleva a participação das negras de 2,1% para 3,7%. Já a imputação dos coeficientes faz uma diferença maior, elevando a participação de 3,7% para 6,1%. Assim, da diferença total de quatro pontos percentuais, os coeficientes respondem por aproximadamente 60%. Nota-se, portanto, a maior saliência dos coeficientes na determinação da disparidade entre mulheres negras e mulheres brancas. Assim, embora em termos de condições para a conversão da educação em oportunidades de riqueza os homens negros não estejam em desvantagem, mas sim em vantagem em relação às mulheres brancas, as mulheres negras estão em grande desvantagem. Tanto os resíduos quanto os coeficientes favorecem as mulheres brancas em relação às mulheres negras.
Finalmente, tem-se a comparação entre mulheres negras e homens negros. A imputação dos fatores não observados exerce agora um efeito muito discreto, elevando de 2,1% para 2,2% a participação das mulheres negras no grupo dos ricos. Já a imputação dos coeficientes exerce um impacto mais expressivo, elevando a participação de 2,2% para 4,6%. Assim, a atribuição dos coeficientes responde por 94% da diferença total de 2,5% decorrente das simulações. As condições diferenciais para a conversão da educação em oportunidades de riqueza respondem, portanto, quase que exclusivamente pela disparidade entre homens e mulheres negras.
Observando os efeitos das diferentes simulações com o grupo das mulheres negras, nota-se nitidamente o grau da hierarquia entre os diferentes grupos. A atribuição da situação dos homens brancos às mulheres negras eleva a sua participação ao patamar de quase 18%. Já a atribuição das condições das mulheres brancas eleva essa participação a apenas 6%. Por sua vez, a atribuição a elas das condições dos homens negros eleva sua participação a modestos 4,6%. Como se nota, as condições dos homens brancos superam largamente as condições de todos os outros grupos, enquanto as condições das mulheres brancas superam as dos homens negros em grau consideravelmente menor. Por fim, para que se tenha uma ideia do quão desfavoráveis são as condições enfrentadas pelas mulheres negras, vale mencionar um cenário não
apresentado na Tabela 4.4: a imputação da sua situação aos homens brancos rebaixaria sua participação de 68% dos ricos para apenas 15%. Mesmo as mulheres brancas, grupo com os melhores níveis de escolaridade e, portanto, o mais resistente à redução dos níveis de riqueza mediante esses exercícios de simulação, sofreriam uma queda de representatividade dos seus aproximados 23% para apenas 4%.
O que se conclui é que a primeira hipótese, a de que as condições para a conversão da educação e da experiência em oportunidades de riqueza opera prioritariamente em razão do gênero, confirma-se. Mulheres brancas não contam com condições desfavoráveis apenas em relação aos homens brancos, mas também em relação aos homens negros. Em comparação com esses últimos, contudo, elas contam com ampla vantagem no que se refere a fatores não observados, e o peso desses últimos supera o das desvantagens expressas pelos coeficientes, impondo uma vantagem líquida. A mulher negra também sofre desvantagens em termos das condições para a conversão da educação em chances de riqueza não apenas diante do homem branco como também diante do homem negro. Trata-se de uma desvantagem muito expressiva, aliás, como atestam as contribuições de mais de 80%, em ambos os casos, da atribuição dos coeficientes para a diferença total exercida pelas simulações.