O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

5.2 A mediação educacional da disparidade racial de riqueza

O agrupamento das áreas de formação é o mesmo já utilizado por

Souza e Galvão (2014), e segue de perto a própria classificação de áreas de formação adotada pelo Censo, além de um procedimento ad hoc de agrupamento com base em regressões logísticas sucessivas. Segundo esse procedimento, formações que têm associações semelhantes com a probabilidade de ser rico são sucessivamente agrupadas, até que se obtenha um conjunto de categorias o mais parcimonioso possível. Como o comportamento que interessa ao presente estudo é a relação entre determinada formação e a riqueza, formações com níveis próximos de associação podem ser agrupadas sem trazer grandes prejuízos de informação, de modo que se chega a um conjunto mais econômico de categorias, o que facilita tanto a exposição quanto a análise. Finalmente, cabe salientar que serão utilizados também recursos gráficos, como diagramas de dispersão, muitas vezes a partir de resultados da implementação de modelos mais complexos. Esses recursos permitirão tanto a visualização de propriedades básicas da distribuição dos dados quanto o teste de determinadas hipóteses.

 

5.2 A mediação educacional da

disparidade racial de riqueza

Dentre os ricos, mais de 74% das pessoas possuem ao menos curso

superior completo, indicando uma forte prevalência de altos níveis de ensino. Por outro lado, das pessoas com curso superior completo, apenas cerca de 10% são ricas. Em outras palavras, há uma minoria de pessoas altamente escolarizadas que compõe uma porção majoritária dos ricos: os ricos altamente escolarizados. Não apenas a conclusão do nível superior de ensino como também as diferenças em termos de área de formação constituem um crivo importante na composição desse grupo de pessoas. Diante disso, espera-se que parte da disparidade racial de riqueza seja mediada pela desigualdade educacional entre negros e brancos, especialmente quando se consideram as diferenças em termos de área de formação no ensino superior. Isso porque as pessoas negras são menos frequentes em cursos associados a maiores rendimentos. Nesse sentido, cabe perguntar em que medida a disparidade racial de riqueza é mediada por desigualdades educacionais, o que também significa perguntar em que medida, tudo mais permanecendo constante, a eliminação da desigualdade educacional entre negros e brancos corrigiria a disparidade racial de riqueza.

Essa é uma questão relevante não apenas do ponto de vista teórico, mas também prático. Por um lado, dada a ciência de que a desigualdade socioeconômica entre negros e brancos é substancialmente mediada por desigualdades educacionais, no Brasil, têm-se recentemente amadurecido ações visando uma maior inserção de negros no nível superior de ensino. Por outro lado, mais recentemente, sancionou-se lei prevendo reserva de vagas para negros nas contratações no âmbito da administração pública federal, das fundações e empresas públicas, assim como das sociedades de economia mista controladas pela União. Nesse último caso, a motivação é a ideia de que parte substancial da desigualdade racial de renda não é mediada por desigualdades educacionais, fazendo-se necessário intervir diretamente no mercado de trabalho. Sendo o funcionalismo público um segmento com elevada renda média, onde se concentram algumas carreiras com altos rendimentos, é de se esperar que essa política funcione em alguma medida como um mecanismo de inserção de pessoas negras nos estratos mais ricos, ou seja, de correção da disparidade racial de riqueza. É importante, portanto, também do ponto de vista prático, investigar em que medida a disparidade racial de riqueza é mediada pela desigualdade educacional entre negros e brancos. À medida que ela o é, ações afirmativas no sistema de ensino ganham suporte. À medida que ela não o é, ganham suporte também propostas de ação afirmativa voltadas diretamente para o mercado de trabalho.

Para acessar empiricamente essa questão, utiliza-se a lógica dos efeitos parciais. A ideia é lançar um modelo básico para obter um coeficiente associado à variável raça, o qual expresse o quanto a condição de negro afeta a probabilidade de que alguém negro pertença ao grupo dos ricos. Ao acrescentar-se o controle pelos níveis educacionais, espera-se que essa associação se reduza, porque parte da relação entre raça e riqueza é explicada por diferenças educacionais entre negros e brancos. Essa redução deve ser ainda maior quando se consideram as diferentes áreas de formação, pois a escassez de negros nas formações de elite cumpre também um papel importante nessa mediação. Utilizam-se, assim, três especificações para o modelo de regressão logística. No primeiro, não há indicadores de nível educacional. No segundo, toma-se a educação superior como um bloco. No terceiro, a educação superior é desagregada em termos de áreas de formação. O controle pela segmentação regional e pela residência em zonas rurais ou urbanas foi implementado pela limitação da amostra às pessoas com residência urbana na região Sudeste. A variável idade foi incluída, mas não com um termo quadrático. Uma modelagem por meio de regressão linear da relação entre idade e renda aponta para o entorno dos 57 anos como o ponto de pico na variação da renda em função da idade. Esse número é bem próximo dos 60 anos, idade máxima incluída na amostra em estudo, com o que a especificação do padrão curvilíneo não acrescenta muito em informação. Considerando isso e, diante das dificuldades no trato adequado com termos quadráticos em regressões logísticas (NORTON et al., 2004), optou-se pela inclusão da variável idade simplesmente em termos de anos completos. Cada uma das três especificações foi aplicada em separado

para homens e mulheres. A Tabela 5.1 apresenta os resultados:

Tabela 5.1: Razão de chances de riqueza com três níveis de controle para

a educação. Brasil, Sudeste urbano, renda igual ou superior a um salário

mínimo, 2010.

Razão de chances

Sem controle por Educação geral Educação

educação específica

Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres

Fundamental - - 1,989 1,435 1,991 1,471 completo

Médio - - 4,648 3,196 4,659 3,339 completo

Superior - - 37,518 21,652 - -completo

Medicina - - - - 129,030 130,424 Direito - - - - 44,0924 59,691 Administração, - - - - 36,104 28,095 Comércio e

Economia

Engenharia, - - - - 51,030 54,233 Produção,

Arquitetura

Serviços, - - - - 33,688 15,040 transporte,

proteção

Jornalismo e - - - - 29,459 32,121 informação

Agricultura e - - - - 37,442 32,255 pesca

Ciências - - - - 19,680 11,941 biológicas,

Física,

Matemática

Saúde - - - - 17,180 15,478 Humanidades, - - - - 13,208 11,910 Letras,

Psicologia

Formação de - - - - 8,017 4,083 professores,

Ciências da

Educação

Mestrado ou - - 111,400 73,530 112,653 107,567 doutorado

Idade 1,057 1,049 1,065 1,055 1,064 1,062 Negro 0,149 0,144 0,339 0,293 0,357 0,334

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

O modelo mais básico inclui apenas as variáveis raça e idade. A razão

de chances indica que, considerando zonas urbanas da região Sudeste, negros e negras têm algo em torno de 14% das probabilidades que pessoas brancas têm de estarem entre os mais ricos. Quando se inclui a educação em geral no modelo, a desvantagem das pessoas negras se reduz substancialmente. Os negros têm agora quase 34% das probabilidades que os brancos têm de estarem entre os homens mais ricos. Entre as mulheres, essa mudança é menor, com a razão de probabilidades entre negras e brancas chegando a 29%. Como esperado, a especificação dos indicadores educacionais por áreas de formação leva a uma redução ainda maior dos efeitos diretamente associados à raça. A razão de probabilidades passa a 36% entre os homens e a 33% entre as mulheres.

Quanto à educação em si, pode-se ver, na segunda especificação do

modelo, uma razão de chances da ordem de 37 associada ao nível superior de ensino. Como ainda é relativamente pequena a probabilidade de ser rico condicional à conclusão de nível superior (menos de 10% das pessoas com esse nível de instrução são ricas), esse número pode ainda ser interpretado como indicação de que pessoas com curso superior completo são, grosso modo, 37 vezes mais prováveis de estarem entre os ricos do que pessoas sem esse nível educacional. Quando se considera a terceira especificação dos modelos, observa-se a grande heterogeneidade existente entre as áreas de formação no que se refere à relação com a riqueza. Previna-se, contudo, de interpretar todas as razões de chance como razões de probabilidade, já que, nesse caso, para alguns cursos, a probabilidade de ser rico é bastante alta. Assim, embora as razões de chance apontem para uma associação global muito forte entre a riqueza e as formações nas áreas da medicina, do direito, das engenharias, assim como a conclusão do doutorado, não é propriamente acertado dizer que, entre os homens, médicos têm uma probabilidade de serem ricos 129 vezes maior que os não médicos, mantidas constantes as outras variáveis do modelo. Nesse caso, a razão de chances não é uma boa aproximação da razão de probabilidades.