O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010
1. Os grupos raciais
Falar em desigualdade racial de um modo objetivo pressupõe que sejamos capazes de definir grupos distintos, atribuindo a cada um deles um status racial específico. Embora esse tipo de procedimento seja já amplamente praticado em estudos acadêmicos e tenha atestada validade para a explicação da distribuição diferencial de recursos escassos, os procedimentos utilizados para essa classificação não são unívocos nem parecem estar completamente claros para o público mais amplo. Além do grau de opacidade que sempre caracteriza a comunicação entre o discurso acadêmico e os discursos no espaço público mais abrangente, lançam-se sobre essa questão algumas complicações no nível do imaginário social.
Com efeito, temos, em geral, a imagem de que a discriminação racial no Brasil tem algo de especialmente indefinido, que as fronteiras entre os grupos de cor são bastante fluidas e sujeitas a redefinições situacionais. Por um lado, operamos cotidianamente com o índice da raça. Aspectos fenotípicos como os traços faciais, a forma dos cabelos e, sobretudo, a cor da pele têm significado operante para nós. A partir deles, nutrimos expectativas (negativas ou positivas), antecipamos juízos e modulamos condutas, quer dizer: discriminamos, no sentido mais rigoroso possível do termo. Isso ocorre, inclusive, muito frequentemente no nível pré-reflexivo, termo com o qual os cientistas sociais gostam de designar atitudes e comportamentos que ocorrem não exatamente de modo inconsciente, mas dispensando uma deliberação articulada.
Por outro lado, contudo, uma definição categórica de quem é negro nos parece fugidia. Somos sensíveis a diversas tonalidades de negritude. Somos também um país especialmente miscigenado. Além disso, não é generalizado entre nós um sistema explícito de regras costumeiras de conduta que rejam as interações sociais no que diz respeito ao crivo racial. É tudo muito “solto”, por assim dizer, tudo muito casuístico. É como se não fizesse sentido falar em um agregado chamado de negros, definido por um condicionante social típico e estável. É como se existissem apenas indivíduos situados num espectro de cor/raça que, embora bem definido em seus extremos, mostra-se um tanto indeterminado em situações intermediárias. É como se existissem somente as situações em que o negro surge com sua pregnância, insinuando-se à percepção e, pelo bem ou pelo mal, sendo notado – no mais das vezes, pelo mal.