O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

5.6 O papel da formação superior específica

Essa maior saliência das condições diferenciais em razão do gênero não

quer dizer, contudo, que essas condições não variem muito fortemente também em razão da condição racial. Diante dos homens brancos, a desvantagem dos homens negros em termos dessas condições é apenas um pouco menor que a desvantagem em termos de fatores não observados. Mais ainda, quando se trata de comparar as mulheres negras às mulheres brancas, 60% da diferença total exercida pelas simulações se deve aos coeficientes. Assim, se o homem negro tem vantagem sobre a mulher branca no que se refere às condições de conversão da educação em chances de riqueza, a mulher negra sofre grande desvantagem. Em absolutamente todos os pares de comparação, as mulheres negras encontram-se em desvantagem em razão das duas fontes de disparidade de riqueza consideradas, confirmando a ideia de que a simultaneidade dos fatores raça e gênero configura uma condição única em termos de restrição das chances de vida.

 

5.6 O papel da formação superior

específica

No segundo capítulo, discutiu-se amplamente a perspectiva teórica da

acomodação das relações raciais a posições de classe. Notou-se que a própria ausência de negros entre os ricos pode ser bem compreendida sob esse prisma. Mais ainda, a hipótese mais tentadora derivada dessa abordagem enuncia que a desigualdade diretamente associada à condição racial é tanto maior quanto mais elevados forem os níveis socioeconômicos em questão. Verificou-se esse padrão considerando-se o comportamento da desigualdade racial ao longo da distribuição de renda. Quanto mais elevados os níveis de rendimento, maior a desigualdade entre negros e brancos. Isso não apenas em razão dos menores níveis de escolaridade da população negra, os quais reduzem seu acesso justamente às posições mais altas. Sobretudo, as desvantagens diretamente associadas à condição racial são tão maiores quanto mais elevados os patamares de renda considerados.

Estará a mediação da desigualdade racial pelas áreas de formação relacionada a esse fenômeno? Colocando de outro modo: as áreas de formação mais afluentes estariam associadas a maiores níveis de

desigualdade racial, de modo a reforçar o padrão observado no terceiro

capítulo deste livro? Como já se observou no presente capítulo, parte da disparidade racial de riqueza é mediada pela desigualdade educacional em termos de áreas de formação. Será que áreas de formação especialmente associadas à riqueza, além de incluírem proporções menores de pessoas negras, estão associadas a maiores níveis de disparidade racial na composição do grupo dos ricos? Com efeito, a desigualdade racial de renda varia de acordo com as áreas de formação superior em questão. Em outras palavras, agrupando-se pessoas segundo as suas respectivas áreas, observam-se níveis de desigualdade racial de renda muito distintos no interior de cada um desses grupos. Será que essa variação segue o padrão de maior disparidade para áreas de formação associadas à maior afluência econômica?

Para testar essa hipótese, utiliza-se, mais uma vez, um modelo logístico em que a probabilidade de riqueza é dada em razão da idade, da educação e da condição racial, incluindo-se um termo de interação entre condição racial e educação. Para controlar por fatores de segmentação geográfica, a amostra é, mais uma vez, restringida a pessoas residentes em áreas urbanas do Sudeste, sendo os resultados consistentes com os obtidos para populações de outras regiões e de áreas rurais. Homens e mulheres são tratados em conjunto.

Para mensurar a disparidade racial de riqueza, opta-se, como nas seções anteriores, pela razão entre as probabilidades que negros e brancos têm de estarem no grupo dos ricos. Considere-se, por um lado, a probabilidade de riqueza associada a cada área de formação e, por outro lado, a razão entre as probabilidades de riqueza de negros e de brancos,

condicionais à respectiva área. O Gráfico 5.9 mostra o diagrama de dispersão para essas duas quantidades.

Gráfico 5.9: Diagrama de dispersão: disparidade racial de riqueza condicional às áreas de formação pela probabilidade de riqueza

condicional à respectiva área

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

 

própria.

 

Nitidamente, quanto maior a associação entre uma área de formação e a

riqueza, menor é, em termos relativos, a disparidade racial de riqueza condicional à respectiva área, contrariando a hipótese. A reta indica a tendência central nesse sentido. Por sua vez, a dispersão em torno da reta indica diferenças mais específicas. Direito e medicina se destacam como áreas associadas a menores níveis de disparidade racial, com razões de probabilidade em torno de ou superiores a 80%. Por outro lado, os doutores, assim como o grupo que inclui as engenharias, a arquitetura e a computação, revelam-se fortemente associados à riqueza, mantendo, por outro lado, associação com níveis mais drásticos de disparidade racial. Tem-se os médicos e, em seguida, os doutores como aqueles com maior probabilidade de riqueza. Contudo, enquanto a razão de probabilidades entre negros e brancos associada à medicina é de 85%, aquela associada ao doutorado é de 71%. Seguem o direito e as engenharias em níveis de associação com a riqueza, sendo que a razão de probabilidades entre negros e brancos é de 79% entre os primeiros e de 49% entre os segundos. Isso mostra que, além da associação entre nível de afluência e disparidade racial de riqueza condicional às áreas de formação, existem características próprias a determinados campos de atuação que os fazem menos desiguais. Medicina e direito mostram níveis de disparidade inferiores aos de áreas de formação com níveis de afluência equiparáveis, o que indica que, no meio dos profissionais liberais, a disparidade racial tende a ser menor.

A tendência linear revela que o padrão de acomodação das relações raciais em posições de classe não se manifesta na mediação da relação entre raça e riqueza por formações específicas. Fosse esse o caso, os cursos mais fortemente associados à riqueza deveriam apresentar também maiores níveis de disparidade racial. Esse fato é muito significativo, pois revela que a educação de elite tem um grande potencial para a correção da disparidade racial de riqueza. Como já se notou, uma porção moderada dessa disparidade é explicada por desigualdades educacionais. Notou-se também que, dessa porção, a maior parte se deve a desigualdades educacionais de maneira geral, quer dizer: mais à pouca presença de negros nos níveis superiores de ensino do que à distribuição racialmente desigual ao longo das áreas de formação. Contudo, a discreta contribuição das desigualdades em termos de educação específica não deve ser menosprezada. Se ela é pequena, é porque a grande barreira ainda está no acesso ao nível superior de ensino. À medida que mais negros atingirem esse nível, a desigualdade por áreas de formação passará a ser mais e mais relevante.

Diante desse cenário, a relação linear entre associação com a riqueza e menores níveis de disparidade racial condicional concede à educação especializada um papel de destaque na correção da disparidade racial de riqueza. As pessoas negras que recebem educação de elite não apenas se deparam com maiores chances de riqueza em termos absolutos, mas também com chances mais igualitárias perante as pessoas brancas. Portanto, o aumento em frequência de negros nas formações mais afluentes não ataca a disparidade racial de riqueza apenas pela equalização dos níveis educacionais, mas também pela equiparação das próprias condições para a conversão da educação em oportunidades de riqueza, uma vez que, de maneira geral, as formações de elite são justamente aquelas em que essas condições parecem ser menos desiguais.