O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

5.4 A mediação educacional da disparidade de riqueza para as mulheres negras

5.4 A mediação educacional da

disparidade de riqueza para as mulheres

negras

Condição racial e de gênero são dois fatores adscritos associados à

disparidade de riqueza. Contudo, o papel da desigualdade educacional enquanto mecanismo mediador dessa disparidade difere substantivamente quando se trata de um ou de outro. As mulheres vêm ultrapassando consistentemente os homens em termos de níveis educacionais, enquanto a população negra mantém consistentemente níveis educacionais inferiores aos da população branca. Quando se estuda a desigualdade de renda em torno na média, o que se observa, em geral, é a massiva mediação da desigualdade racial de renda por desigualdades educacionais entre negros e brancos. Já entre as mulheres, o que existe é uma desigualdade de renda que persiste, mesmo sendo as mulheres, em média, mais educadas. A consequência disso é que, embora a desigualdade de renda em razão da cor seja maior que aquela em razão do sexo das pessoas, a equalização, via controles estatísticos, dos níveis educacionais em termos de raça e de gênero inverte o cenário. Fossem os negros tão educados quanto os brancos e os homens tão educados quanto as mulheres, a desigualdade de renda em razão da cor seria menor que a desigualdade de renda em razão do sexo, tudo mais mantido constante. Será que o mesmo vale em se tratando da disparidade de riqueza?

Para responder a essa questão, é possível implementar modelos de

regressão linear para a desigualdade de renda em torno da média e de regressão logística para as probabilidades de riqueza. No primeiro caso, obtém-se a renda esperada de pessoas negras em termos de percentagem da renda esperada das pessoas brancas assim como a renda esperada de mulheres em termos de percentagem da renda esperada dos homens, mantidos constantes outros fatores. No caso da regressão logística, obtém-se a razão de probabilidades – aproximada pela razão de chances – de riqueza de pessoas negras em relação a pessoas brancas e de mulheres em relação aos homens, também mantidos constantes outros fatores. Ambos os modelos são implementados em dois estágios. O primeiro incluindo apenas a idade e os indicadores de condição racial e de gênero. O segundo incluindo também os níveis educacionais, considerando as diferentes áreas de formação superior. Os

resultados são apresentados no Gráfico 5.1, a seguir.

Gráfico 5.1: Razão entre rendas médias e razão de chances de riqueza

para homens e mulheres. Brasil, renda igual ou superior a um salário

mínimo, 2010.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

As primeiras quatro barras se referem aos resultados de regressão linear e as quatro últimas aos resultados de regressão logística. As barras pretas representam os resultados da especificação sem controle por níveis educacionais. As barras cinzas representam os resultados da especificação com controle para esses níveis. Como se observa, a desigualdade de renda em torno da média se comporta da maneira esperada. A desigualdade bruta de rendaem razão da raça é maior que aquela em razão do sexo. Contudo, quando se leva em conta a mediação educacional da desigualdade de renda, o cenário se inverte. A desigualdade diretamente associada à condição racial passa a ser menor que aquela diretamente associada à condição de mulher, o que acontece por dois motivos. Primeiramente, a renda esperada dos negros se eleva, uma vez que se descontam as desvantagens mediadas por seus menores níveis educacionais. Segundo, a renda esperada das mulheres é sensivelmente reduzida na medida em que se desconta sua vantagem educacional em relação aos homens.

Já quando se trata das probabilidades de riqueza, a situação é algo

diferente. Primeiramente, nota-se que, em termos brutos, comparada ao que acontece no caso de rendas médias, a disparidade racial de riqueza supera a disparidade por gênero de maneira mais acentuada. No caso das diferenças brutas em renda média, a renda esperada de pessoas negras é 71% da renda esperada dos brancos. Para as mulheres, em comparação com os homens, esse valor é de 81%. Por outro lado, em se tratando de disparidade de riqueza, negros são apenas 22% tão prováveis quanto pessoas brancas de estarem entre os mais ricos, enquanto as mulheres são 47% tão prováveis quanto os homens. Mais importante ainda, a inversão ocorrida com o desconto da mediação educacional não é tão acentuada no caso da disparidade de riqueza. O que há é muito mais uma equiparação, com a razão de probabilidades indo a 42% entre negros e brancos e a 41% entre mulheres e homens. A resposta à questão é, portanto, negativa. Embora o comportamento da mediação educacional da disparidade de riqueza por sexo e raça seja, por um lado, semelhante ao da mediação educacional da desigualdade entre rendas médias, com a desvantagem dos negros sendo reduzida e a das mulheres aumentada pelo desconto dessa mediação, não há, contudo, no caso da disparidade de riqueza, uma nítida inversão na ordem desses fatores.

A relação entre raça, gênero e riqueza, portanto, é algo diferente da

relação entre raça, gênero e renda média. Para avançar na compreensão da condição da mulher negra propriamente dita, é importante levar em conta a interação entre gênero e raça. Isso poderia ser feito pela inclusão de um termo de interação entre sexo e raça nos modelos considerados. Contudo, embora esse procedimento seja viável para os modelos de regressão linear, a inclusão desse termo nos modelos logísticos traria alguns problemas. O cômputo das desvantagens passaria a envolver cálculos sensivelmente mais complexos. Se no caso da regressão linear essa complexidade seria facilmente tratável, já no caso da regressão logística seria necessário utilizar comandos mais específicos para o cômputo de probabilidades. O maior problema nisso é que esse procedimento obrigaria a abandonar as razões de chance enquanto aproximação para uma razão de probabilidades praticamente constante ao longo da superfície de resposta do modelo. Seria necessário especificar probabilidades para diferentes posições nessa superfície, o que comprometeria fatalmente o exercício agora proposto, que se baseia numa comparação direta entre os resultados de regressões lineares e os de regressões logísticas. Enquanto na regressão linear ainda seria possível falar dos impactos de sexo e raça, mantidos constantes os níveis educacionais, o mesmo deixaria de ser possível com a regressão logística.

Sendo assim, opta-se por trabalhar com quatro categorias geradas pela combinação de sexo e raça: homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. Essas categorias são disjuntas e, portanto, podem ser inseridas tanto na regressão linear quanto na regressão logística enquanto uma variável categórica. Assim, repete-se o exercício anterior utilizando os homens brancos como referência e aferindo-se as desvantagens dos outros três grupos com relação a eles. Como a probabilidade de ser rico condicional a qualquer uma dessas categorias é pequena – para qualquer uma delas, apenas um pequeno número se encontra entre os ricos –, continua sendo possível interpretar a razão de chances como uma aproximação da razão de probabilidades de riqueza, praticamente constante ao longo da superfície de resposta. Os resultados

são apresentados no Gráfico 5.2. As primeiras seis barras se referem aos resultados de regressão linear e as seis últimas aos resultados de regressão logística.

Gráfico 5.2: Razão entre rendas médias e razão de chances de riqueza para categorias de raça e gênero. Brasil, renda igual ou superior a um

salário mínimo, 2010.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

O que se observa agora é um cenário muito mais informativo. No que se refere à desigualdade de renda em torno da média, observa-se o padrão esperado de inversão entre homens negros e mulheres brancas. Quando se desconta a mediação educacional, os primeiros passam a ter renda esperada mais próxima à dos homens brancos. A mesma inversão não ocorre, contudo, entre mulheres negras e mulheres brancas. Note-se que apenas a renda esperada das mulheres brancas, em termos de proporção da renda esperada dos homens brancos, sofre queda quando se desconta a mediação educacional, o mesmo não acontecendo com as mulheres negras que assistem, ao contrário, a um incremento em sua renda esperada. Isso indica que, para essas últimas, de maneira semelhante ao que ocorre com os homens negros, a desvantagem de renda em relação aos homens brancos é em parte mediada por desvantagens educacionais. Contudo, uma desvantagem muito maior persiste para elas após o desconto dessas desvantagens. Enquanto os homens negros se aproximam bastante dos homens brancos, saindo de 68% para 82% da renda esperada desses últimos, as mulheres negras sobem apenas para 58%.

A distinção mais nítida, contudo, aparece quando se observa o que

acontece com a mediação educacional da disparidade de riqueza. Nesse caso, não há em definitivo a inversão que existe no que se refere à desigualdade de renda em torno da média. O que há é uma modificação na topografia da disparidade. O desconto da mediação educacional aproxima os homens negros das mulheres brancas, mas mantém as últimas em melhores condições que os primeiros. Na verdade, mantém-se uma distância considerável entre eles: mulheres brancas ficam 41% tão prováveis quanto os homens brancos de estarem entre os ricos, com a mesma distância sendo de 36% para os homens negros. Por outro lado, a distância entre homens negros e mulheres negras se agrava, sobretudo porque o desconto da mediação educacional aumenta apenas discretamente as probabilidades de riqueza dessas últimas, enquanto para os homens negros esse aumento é bastante expressivo. Em termos brutos, homens e mulheres negros estão próximos, ambos em ampla desvantagem com relação às mulheres brancas e, mais ainda, aos homens brancos. Já quando se desconta a mediação educacional, as mulheres negras aparecem isoladas em último lugar.

O que se conclui é que a diferenciação por sexo e raça na mediação

educacional da disparidade de riqueza comporta-se de modo bastante distinto daquilo que ocorre em se tratando de rendas médias. Enquanto para a renda média o desconto da mediação educacional leva a um cenário de maior saliência das desigualdades diretamente associadas ao sexo, no caso da disparidade de riqueza esse desconto não altera o cenário de maior saliência das desvantagens diretamente associadas à raça. No primeiro caso, o ordenamento resultante do controle por desigualdades educacionais se altera, colocando homens negros à frente de mulheres brancas, mas deixando mulheres negras atrás dessas últimas. O que se observa, portanto, é um ordenamento por gênero com um ordenamento secundário por raça. Em se tratando da disparidade de riqueza, mesmo com o desconto da mediação educacional, mantém-se um ordenamento racial primário com um ordenamento secundário por gênero. Pessoas brancas têm maior probabilidade de riqueza, com os homens brancos estando à frente das mulheres brancas. Pessoas negras têm menor probabilidade, estando as mulheres negras em considerável desvantagem em relação aos homens negros. Quando se compara ao que ocorre com relação às desigualdades de renda centradas na média, a disparidade de riqueza intensifica os extremos. Por um lado, as vantagens dos homens brancos são muito mais intensas. Por outro lado, as desvantagens das mulheres negras são muito mais severas.

Resta saber qual o papel exato das desigualdades por áreas de formação na mediação da disparidade de riqueza por raça e gênero. De modo geral, as mulheres são maioria entre as pessoas com curso superior. Mas, quando se considera simultaneamente gênero e raça, as coisas são diferentes na população em estudo. Lideram as mulheres brancas, depois vêm os homens brancos, em seguida as mulheres negras e, seguindo-as de perto, os homens negros. Por outro lado, as mulheres, muito especialmente as mulheres negras, estão sensivelmente concentradas em formações superiores associadas a menores rendimentos. Os gráficos a seguir mostram, para cada um desses quatro grupos, o diagrama de dispersão, associando a sua proporção no público de determinada área de formação ao 90º quantil de renda do total de pessoas formadas na respectiva área, número que representa aqui o nível de afluência econômica associado à respectiva formação específica. Optou-se por esse número em vez de uma medida de tendência central, como a renda média ou mediana, levando-se em conta que o foco do presente estudo é a riqueza. Mais do que a afluência média, o 90º quantil representa os níveis mais altos de afluência aos quais determinada formação está associada. De qualquer modo, cabe notar, a correlação entre o 90º quantil e a renda média é quase perfeita, aproximadamente 0,98. Uma diferença substantiva é que os doutores lideram o ordenamento quando se trata de renda média, enquanto os médicos estão no topo em se tratando do 90º quantil da renda. O objetivo é observar como cada um dos quatro grupos compõe o público das áreas de formação mais ou menos afluentes.

Os homens brancos estão francamente concentrados nas formações mais afluentes. Há um pico em formações alto-intermediárias, entre as quais contam as ciências exatas e as aplicadas ao mundo da produção. Já entre os homens negros, há concentração nas formações de afluência intermediária e alto-intermediária, com uma queda acentuada entre as mais afluentes. A distribuição das mulheres negras aparentemente espelha a distribuição dos homens brancos. O fato é que elas estão altamente concentradas nos cursos menos afluentes. A distribuição das mulheres brancas é, por sua vez, muito diferente. Elas se concentram em cursos de baixa afluência e em áreas de formação com alta concentração feminina em geral, como educação, serviço social e enfermagem. Contudo, elas se recuperam muito nitidamente entre os doutores, assim como nas áreas do direito e da medicina, que estão entre as mais afluentes. Note-se ainda que, ao longo de todas as áreas, as mulheres brancas estão mais presentes que os homens negros em termos absolutos. Isso vale até mesmo para as engenharias, cursos em que os homens, em geral, marcam maior presença.

Gráfico 5.3: Dispersão por áreas de formação das mulheres brancas

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

Gráfico 5.4: Dispersão por áreas de formação dos homens brancos

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

Gráfico 5.5: Dispersão por áreas de formação das mulheres negras

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

Gráfico 5.6: Dispersão por áreas de formação dos homens negros

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

A questão a ser respondida é como essa distribuição diferencial,

concomitantemente por sexo e por raça, ao longo das áreas de formação medeia a disparidade de riqueza. Observou-se já o comportamento da mediação educacional da disparidade de riqueza segundo a raça e segundo o sexo. Agora, se deseja responder a uma questão posterior: qual o papel das formações específicas nessa mediação? Para tanto, é possível observar o comportamento da disparidade diretamente associada à raça e ao sexo ao longo de três modelos de regressão logística. Um que explica a probabilidade de riqueza em razão da idade e de indicadores de sexo e raça. Um segundo que inclui também indicadores para níveis educacionais, considerando-se o nível superior de ensino como um bloco. E, finalmente, um terceiro que desagrega o nível superior em áreas de

formação. Os resultados são apresentados pelo Gráfico 5.7.

Gráfico 5.7: Razão de probabilidades de riqueza para homens e para

mulheres com três níveis de controle por educação. Brasil, renda igual ou

superior a um salário mínimo, 2010.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

As últimas duas colunas são familiares. São as mesmas apresentadas

no Gráfico 4.1, onde se notou que o desconto da mediação educacional não chega a inverter nitidamente, como o faz em se tratando de rendimentos médios, a ordem de tamanho entre os impactos diretamente associados à raça e ao sexo, respectivamente. O que se deve observar agora é como essas colunas diferem daquelas em cinza mais escuro, que representam os resultados do modelo que considera o nível superior de ensino como um bloco. Nota-se que, nesse último caso, há inversão entre gênero e raça. Descontada a mediação educacional, considerando o nível superior de ensino como um bloco, a disparidade de riqueza diretamente associada à raça passa a ser menor que aquela associada diretamente ao gênero. A condição de mulher aparece associada a uma razão de chances menor que aquela associada à condição de negro. Isso acontece porque o desconto da mediação educacional equivale a simular um cenário em que pessoas negras têm os mesmos níveis educacionais que pessoas brancas, o que significa uma elevação educacional dos primeiros. Por outro lado, o mesmo desconto significa simular um cenário em que as mulheres perdem sua vantagem educacional em relação aos homens.

Quando se consideram as áreas de formação, os negros experimentam uma melhoria adicional em suas condições, indo de uma razão de chances de 38% para 42%. Já para as mulheres ocorre algo diferente. O segundo modelo representa uma queda na razão de chances, dos 47% do modelo básico para 30%. Agora, quando se consideram as formações específicas, há um efeito no sentido inverso, com a razão de chances se recuperando dos 30% para os 41%. Assim, no cenário hipotético em que mulheres passam a ter a mesma distribuição por áreas de formação que os homens, há um ganho para as mulheres em termos de probabilidades de riqueza.

Essa recuperação não é suficiente para retornar as mulheres aos níveis

de disparidade do modelo básico. Em outras palavras, no final, o desconto da mediação educacional continua representando para elas um prejuízo líquido, enquanto representa uma vantagem líquida para pessoas negras. Isso se deve ao fato de que o cenário hipotético beneficia as mulheres pela equiparação das áreas de formação, mas as prejudica pela equiparação dos seus níveis gerais de escolaridade aos dos homens, o que implica descontar as vantagens advindas do seu maior ingresso no nível superior de ensino. O que ocorre é que essa desconsideração das vantagens educacionais globais sobrepuja o desconto das desvantagens em termos de área de formação.

O que se conclui é que a mediação educacional da disparidade racial de

riqueza está mais relacionada ao restrito acesso ao nível superior de ensino e mais discretamente a diferenças de caráter alocativo no interior desse nível de ensino. Já a mediação educacional da disparidade de riqueza segundo o gênero não se refere ao acesso ao nível superior de ensino que é, na verdade, mais elevado para as mulheres. O que há é uma mediação substancial dada pela distribuição pelas diferentes áreas de formação superior. Embora esse mecanismo de mediação se faça valer também para a disparidade racial, sua relevância é muito maior para a disparidade de gênero. O desconto dessa fonte de disparidade de riqueza eleva a razão de chances associada à condição de negro dos 38% para os 42%, uma diferença de quatro pontos percentuais. Já a razão de chances associada à condição de mulher se recupera de 30% para 41%, uma diferença quase três vezes maior.

É preciso, no entanto, interpretar esses resultados dando atenção ao

caráter dinâmico dos fenômenos em questão. Os diagramas de dispersão apresentados anteriormente atestam nítidas assimetrias por raça da distribuição por áreas de formação. Embora o que mais se observe é a baixa proporção de pessoas negras em todas as áreas, reforçando a ideia de uma mediação dada sobretudo pela restrição ao acesso a esse nível de ensino, observam-se também diferenças de forma. Embora presentes em cursos afluentes hegemonicamente masculinos, os homens negros frequentam muito pouco as áreas de formação mais afluentes. As mulheres negras, por sua vez, estão francamente concentradas nas áreas de formação menos afluentes. Se, no futuro, os níveis de acesso ao ensino superior por parte da população negra se ampliarem e, ao mesmo tempo, se mantiverem esses padrões de distribuição racial pelas áreas de formação, haverá um aumento na relevância dessas áreas enquanto mecanismo de mediação da disparidade racial de riqueza.

Mais uma vez, para observar propriamente a condição da mulher negra, é preciso levar em conta a interação entre sexo e raça. Novamente, isso será feito pela consideração das quatro categorias geradas pela combinação entre esses fatores, tomando-se o grupo dos homens brancos como referência. A questão é como as formações específicas participam da mediação educacional da disparidade de riqueza quando se consideram esses quatro grupos. Se a formação, em geral, é a principal mediadora da disparidade de riqueza segundo a raça e a formação específica a principal mediadora segundo o gênero, a hipótese é a de que a mulher negra sofra com intensidade os efeitos desses dois mecanismos. Por meio da extensão da decomposição Oaxaca-Blinder para modelos não lineares, é possível aferir a contribuição dos atributos individuais para a disparidade de riqueza ao longo de diferentes especificações de regressão logística. O que se obtém é uma medida dessa contribuição ao longo de três modelos. Um que explica a probabilidade de riqueza apenas em razão da idade. Um segundo que a explica também em razão dos níveis educacionais de maneira geral, e um terceiro que considera também as diferenças em termos de área de formação. Os resultados são

apresentados no Gráfico 5.8.

Gráfico 5.8: Decomposição Oaxaca-Blinder das probabilidades de

riqueza para categorias de raça e gênero. Brasil, Sudeste urbano, renda

igual ou superior a um salário mínimo, 2010.

 

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados. Elaboração

própria.

Quanto mais abaixo de zero, mais o valor indica que os atributos

individuais em questão contribuem para a desvantagem do respectivo grupo em relação aos homens brancos. Quando o valor está acima de zero, o caso é o oposto: os atributos em questão reduzem a desvantagem. Por exemplo, os resultados sugerem que os níveis educacionais das mulheres brancas, na segunda especificação do modelo, contribuem para descontar 1% da diferença que existe entre suas probabilidades de riqueza e a probabilidade de riqueza dos homens brancos. Não obstante essas cifras, dada a inconsistência da técnica de decomposição para aferir o tamanho das contribuições, a interpretação deve se ater à variação dessas contribuições estimadas ao longo das diferentes especificações do modelo, desprezando os valores propriamente ditos. A análise deve se ater à forma do gráfico, desconsiderando os níveis dispostos no eixo vertical.

O que se observa são os padrões esperados. Para as mulheres

brancas, a educação, em geral, exerce um efeito de redução sobre a disparidade de riqueza, aproximando-as dos homens brancos, mas, quando se consideram as formações específicas, a contribuição se dá no sentido inverso. Para os homens negros, a educação, em geral, contribui muito intensamente para aumentar a disparidade de riqueza, havendo ainda uma contribuição adicional das diferenças por área de formação que é, porém, muito suave. Já para as mulheres negras, a educação, em geral, contribui intensamente para a disparidade e as formações específicas contribuem com intensidade semelhante. O que se conclui é que a mediação educacional da disparidade de riqueza entre mulheres brancas e homens brancos, em desvantagem das primeiras, está exclusivamente em razão de desigualdades em termos de áreas de formação. Para os homens negros, essa mediação está sobretudo em razão dos níveis de acesso ao ensino superior, havendo uma contribuição adicional modesta das áreas de formação. Já no que se refere às mulheres negras, tanto o acesso ao ensino superior quanto a distribuição diferencial por áreas de formação medeiam substancialmente a disparidade de riqueza. É notável que a desigualdade por áreas de formação tenha uma relevância tão substantiva para as mulheres negras mesmo sendo seu acesso ao nível superior de ensino bastante restrito. Isso indica um padrão crítico de concentração em áreas de formação menos afluentes.