O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

3.2 Discriminação racial e dinamismo econômico

3.2 Discriminação racial e dinamismo

econômico

Primeiramente, observe-se como a desigualdade racial se comporta diante do dinamismo econômico das unidades federativas. De acordo com o exposto na seção anterior, aplicando o modelo de regressão linear à distribuição de renda das unidades federativas, tomadas uma a uma, obtém-se um coeficiente associado à variável raça, a partir do qual é possível computar a razão entre a renda de negros e de brancos mantendo constantes as outras variáveis consideradas no modelo. Note-se que as regressões tiveram boa performance. Ao longo das diferentes unidades, a proporção da variação da renda explicada pelos modelos oscilou entre 39% e 59%, mantendo-se em torno de 45%. A partir dos resultados, elaborou-se um diagrama de dispersão associando o valor bruto da produção das unidades federativas à desigualdade diretamente

associada à condição racial. O Gráfico 3.1 mostra esse diagrama. O padrão observado oferece um suporte muito frágil à hipótese de que o dinamismo econômico se correlaciona com maiores níveis para desigualdade diretamente associada à condição racial. O coeficiente de determinação entre essas duas grandezas é da ordem de 0,03, relevando que apenas 3% da variação na desigualdade racial de renda responde à variação nos valores brutos de produção. Além disso, a correlação não é estatisticamente significativa.

Gráfico 3.1: Diagrama de dispersão: desigualdade racial por nível

de industrialização.

 

Fonte: Elaboração própria.

Considerando os municípios, observa-se o mesmo padrão, mas com resultados mais robustos do ponto de vista estatístico. Um número de 1.064 municípios foi considerado na análise. Ao longo dos municípios, a desigualdade diretamente relacionada à condição racial, ou seja, aquela que persiste mesmo quando considerados todos os controles discutidos na seção anterior, varia bastante. Ela vai de situações em que a renda esperada dos negros fica em torno de 50% da renda esperada dos brancos até situações de igualdade racial de renda, sendo que os valores se concentram em torno de 90%, um nível moderado de desigualdade, mas, ainda assim, considerável, tendo em vista que se isolou o efeito de muitas fontes de desigualdade racial de renda, inclusive a distribuição desigual de

negros e brancos entre categorias ocupacionais. A Tabela 3.1 mostra os resultados de um modelo de regressão muito simples, que explica os níveis de desigualdade racial exclusivamente em razão do tamanho dos municípios (o logaritmo da população total). Tabela 3.1: Regressão linear: desigualdade racial pelo tamanho dos

municípios.

Sem controle Com controle

por ocupações por ocupações

Coeficiente associando a população -0,010 -0,008 do município à desigualdade racial

Proporção da variância explicada 4,5% 3,6%

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2010 – Microdados.

Elaboração própria.

A regressão linear da desigualdade racial em razão do logaritmo do tamanho do município revela uma correlação estatisticamente significativa. A performance do modelo continua tímida, explicando uma proporção muito modesta da variação na desigualdade. O importante, contudo, é que há uma correlação significativa entre as duas grandezas. Quanto maior o município, maior a desigualdade diretamente associada à condição racial. Os resultados também mostram a relevância do controle pelas ocupações. Como foi argumentado na seção anterior, parte da associação encontrada poderia se dever ao simples fato de que municípios mais economicamente dinâmicos contam com uma estrutura ocupacional mais diferenciada, o que implicaria uma maior desigualdade. Sem embargo, quando as regressões lineares aplicadas a cada município não incluem controle pela distribuição ocupacional dos grupos raciais, observa-se, ao final, uma correlação maior entre a desigualdade de renda e o tamanho dos municípios. Tanto é maior o coeficiente relacionando a desigualdade racial ao tamanho do município quanto é melhor a performance do modelo, explicando 4,5% da variação na desigualdade.

Já quando se consideram os resultados que levam em conta o controle por ocupações, a proporção da variância explicada cai a 3,6% e o coeficiente passa a ser -0,008, em vez de -0,010. Considerando esses resultados, uma forma de compreender, de maneira um pouco mais intuitiva, a habilidade com a qual o tamanho dos municípios explica a desigualdade racial de renda é considerar o seguinte: a razão entre a renda esperada de negros e de brancos varia, de fato, entre 50% e 100% ao longo dos municípios. Por outro lado, o modelo de regressão prevê, basicamente, uma variação muito menor, entre 87% e 96%, mas ainda assim considerável. Em outras palavras, parece que as diferenças de dinamismo econômico entre municípios fazem variar em até 9 pontos percentuais os efeitos da discriminação racial sobre a renda.