O negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010

4.3 Composição e nível da disparidade racial de riqueza

Pelo conjunto das simulações, o que se nota é que a redução da desigualdade racial não necessariamente implica uma redução da desigualdade de renda na população como um todo. Os primeiros cenários refletem os resultados de ações que aumentam a representatividade dos negros entre os grupos mais ricos. Tais ações direcionadas poderiam reverter a desigualdade racial, mas aumentariam a desigualdade total. Esse aumento seria, contudo, suavizado no caso de redução ou do virtual desaparecimento da desigualdade de renda média entre os grupos raciais. Já o terceiro cenário representa uma situação limite do que poderia acontecer graças a processos de inclusão social, sobretudo acompanhados de uma política de valorização do salário mínimo. Por estar a população negra concentrada entre os mais pobres, ela seria desproporcionalmente beneficiada por essas mudanças. Nesse cenário, o que se observa é uma queda na desigualdade total sem que a desigualdade de nível entre negros e brancos seja reduzida.

 

4.3 Composição e nível da

disparidade racial de riqueza

Nesta seção, aborda-se a desigualdade racial existente dentro do grupo dos ricos. O fato de que os negros estão pouco representados no grupo dos ricos já foi amplamente documentado. Agora, interessa investigar a distribuição de renda entre negros e brancos ricos, sendo que a hipótese de trabalho é a de que os negros ricos são menos afluentes que os seus pares brancos. Como já dito, define-se aqui como ricas as pessoas no último percentil da distribuição de renda ou, em português claro, o grupo composto pelo 1% de pessoas mais ricas, em termos de renda do trabalho principal, da população. É plausível esperar que o padrão de concentração do negro nas posições de menor renda, observado na população como um todo, se reproduza dentro do próprio grupo das pessoas relativamente mais ricas.

Para investigar isso, é adequado utilizar a medida de riqueza proposta por Medeiros (2005). A medida é elaborada com base na família FGT de medidas de pobreza e constitui uma espécie de média dos hiatos de riqueza, isto é, das distâncias entre determinada renda individual e a linha de riqueza que, no presente caso, é definida como R$ 11.000,00. Esse hiato é dividido pelo valor da própria linha de riqueza, o que é uma espécie de normalização que torna os valores em questão mais tratáveis em termos de escala. Existindo n pessoas ricas numa população, n valores (correspondentes aos hiatos de riqueza normalizados de cada indivíduo) são somados e, então, divididos por n, ou seja, pelo número de ricos. Além disso, os hiatos de riqueza podem ser elevados a diferentes potências (usualmente zero, um ou dois), o que fará com que a medida final represente coisas diferentes. Quando se escolhe a potência zero, a medida representa a proporção de ricos. Quando se escolhe a potência igual à unidade, o resultado é uma medida que representa o volume dos rendimentos acima da linha de riqueza ou, em outras palavras, o quanto os ricos são ricos. Quando se escolhe potências maiores que a unidade, os valores passam a ganhar maior peso à medida que se afastam da linha de riqueza. Sendo assim, a medida resultante passa a trazer informações também sobre a desigualdade de renda entre os ricos, uma vez que rendas mais altas possuem maior peso, ricos muito ricos contribuem desproporcionalmente para a medida. Esse efeito é

tanto maior quanto maior o valor adotado para a potência. 4

Outra característica importante da medida proposta por Medeiros (2005) é que ela pode ser decomposta em termos das contribuições de cada grupo racial. Essa propriedade, somada às características descritas anteriormente, permite um exercício capaz de testar a hipótese de que os brancos ricos são mais ricos que os negros ricos. Uma vez que a escolha de potências maiores na definição da medida implica dar maior peso para rendas muito altas, o exercício consiste em decompor a medida entre negros e brancos para diferentes valores dessa potência que, seguindo a convenção, será chamada de alfa. Se está correta a hipótese de que os brancos ricos são mais ricos que os negros ricos, a contribuição do grupo dos negros deve diminuir à medida que se adote valores maiores de alfa. Em outras palavras, quanto mais a medida é sensível a rendas muito elevadas, maior deve ser a contribuição dos brancos para a