Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1
Em torno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua consistência inde nida.
1-9-1928
En a, a agulha,
En a, a agulha,
E ergue do colo
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha
Com desconsolo).
Não ouviste nada.
Os meus poemas, este
E os outros que tenho —
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho
Que ouças sem pensar.
Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo agrado.
Dá-me um certo enleio...
E ler é esquecer.
31-8-1930