Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Fernando Pessoa · Capítulo 8 de 472

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Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

A lembrada canção,

Amor, renova agora.

Na noite, olhos fechados, tua voz

Dói-me no coração

Por tudo quanto chora.

Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.

Não, a voz não é tua

Que se ergue e acorda em mim

Murmúrios de saudade e de inconstância,

O luar não vem da lua

Mas do meu ser a m

Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.

Não, não é teu o canto

Que como um astro ao fundo

Da noite imensa do meu coração

Chama em vão, chama tanto...

Quem sou não sei... e o mundo?...

Renova, amor, a antiga e vã canção.

Cantas mais que por ti,

Tua voz é uma ponte

Por onde passa, inúmero, um segredo

Que nunca recebi —

Murmúrio do horizonte,

Água na noite, morte que vem cedo.

Assim, cantas sem que existas.

Ao m do luar pressinto Melhores sonhos que estes da ilusão.

1-1-1920