Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Fernando Pessoa · Capítulo 267 de 472

Páginas do PDF

Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Nas entressombras de arvoredo

Onde mosqueia a incerta luz

E a noite ocupa a medo

O incerto espaço em que transluz...

1924

Nas grandes horas em que a insónia

avulta

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Como um novo universo doloroso,

E a mente é clara com um ser que insulta

O uso confuso com que o dia é ocioso,

Cismo, embebido em sombras de repouso

Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,

Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo

Me farão nada, como frase estulta.

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.

Meu coração, que fala estando mudo,

Repete seu monótono torpor

Na sombra, no delírio da clareza,

E não há Deus, nem ser, nem Natureza

E a própria mágoa melhor fora dor.

31-8-1929