Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1
Eu no tempo não choro que me leve
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.
Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite que, (...)
Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma, De te ser in el sem in delidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer. Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar Com saudade do tempo em que te amei.
Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas Que contém em si os piores mistérios — A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida. 29-9-1920