Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Fernando Pessoa · Capítulo 28 de 472

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Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Ah, como incerta, na noite em frente,

De uma longínqua tasca vizinha

Uma ária antiga, subitamente,

Me faz saudades do que as não tinha.

A ária é antiga? É-o a guitarra.

Da ária mesma não sei, não sei.

Sinto a dor-sangue, não vejo a garra.

Não choro, e sinto que já chorei.

Qual o passado que me trouxeram?

Nem meu nem de outro, é só passado:

Todas as coisas que já morreram

A mim e a todos, no mundo andado.

É o tempo, o tempo que leva a vida

Que chora e choro na noite triste.

É a mágoa, a queixa mal de nida

De quando existe, só porque existe.

14-8-1932