Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1
Outros terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.
A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, a m
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.
«Que importa?»
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar se veio.
«Quem tem de ser?»
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem nge desprezar sofrer
Pois não esquece.
Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão.
13-1-1920