Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Fernando Pessoa · Capítulo 39 de 472

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Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Amiel

Não, nem no sonho a perfeição sonhada

Existe, pois que é sonho. Ó Natureza,

Tão monotonamente renovada,

Que cura dás a esta tristeza?

O esquecimento temporário, a estrada

Por engano tomada,

O meditar na ponte e na incerteza...

Inúteis dias que consumo lentos

No esforço de pensar na ação,

Sozinho com meus frios pensamentos

Nem com uma esperança mão em mão.

É talvez nobre ao coração

Este vazio ser que anseia o mundo,

Este prolixo ser que anseia em vão,

Exânime é profundo.

Tanta grandeza que em si mesma é morta!

Tanta nobreza inútil de ânsia e dor!

Nem se ergue a mão para a fechada porta,

Nem o submisso olhar para o amor!

20-8-1925