Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1
Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas sentar-te à minha frente,
nem a meu lado;
Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado; Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
E quero só dormir.
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».
As princesas incógnitas caram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales, Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales — Que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo, Um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem digni cação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O m do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.
28-8-1927