Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Fernando Pessoa · Capítulo 200 de 472

Páginas do PDF

Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Já estou tranquilo. Já não espero nada.

Já sobre meu vazio coração

Desceu a inconsciência abençoada

De nem querer uma ilusão.

20-7-1935

Já me não pesa tanto o vir da morte.

Já me não pesa tanto o vir da morte.

Sei já que é nada, que é cção e sonho,

E que, na roda universal da Sorte,

Não sou aquilo que me aqui suponho.

Sei que há mais mundos que este pouco mundo

Onde parece a nós haver morrer —

Dura terra e fragosa, que há no fundo

Do oceano imenso de viver.

Sei que a morte, que é tudo, não é nada,

E que, de morte em morte, a alma que há

Não cai num poço: vai por uma estrada.

Em Sua hora e a nossa, Deus dirá.

6-7-1934