Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Fernando Pessoa · Capítulo 257 de 472

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Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1

Não sei que desgosta

Não sei o que desgosta

A minha alma doente.

Uma dor suposta

Dói-me realmente.

Como um barco absorto

Em se naufragar

26-7-1910

Não sei que sonho me não descansa

Não sei que sonho me não descansa

E me faz mal...

Mas eia! o harmónio a guiar a dança

Nesse quintal.

E eu perco o o ao que não existe

E oiço dançar,

Já não alheio, nem sequer triste,

Só de escutar.

Quanta alegria onde os outros são

E dançam bem!

Dei-lhes de graça meu coração

E o que ele tem.

Na noite calma o harmónio toca

Aquela dança,

E o que em mim sonha um momento evoca

Nova esperança.

Nova esperança que há de cessar

Quando, já dia,

O harmónio eterno que há de acabar

Feche a alegria.

Ah, ser os outros! Se eu o pudesse

Sem outros ser!,

Enquanto o harmónio minha alma enchesse

De o não saber.

10-10-1933