Poesia de Fernando Pessoa - Volume 1
Dai-me rosas e lírios,
Dai-me ores, muitas ores
Quaisquer ores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas ores, falai-me apenas
Em me dardes muitas ores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço Que me deis ores...
Sejam essas as ores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio, Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa, E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço, Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal. Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho! É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A or caída no chão.
A or murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
s. d.