Sol de Inverno
A Aguia Prisioneira
A Manoel da Silva Gayo
A AGUIA PRISIONEIRA
Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo, Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,
Da jaula hedionda a férrea porta escancarou…
A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra, Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava, Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.
Mas na ancia de luz que a devora sem treguas, Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia, Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas, Sem poder dissipar a treva que a rodeia.
E tão alto subiu no seu vôo desfeito,
Que de repente, não podendo respirar,
Sentiu que lhe estalava o coração no peito, E veio aos pés do escravo exanime rolar…
Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade, Por mais alto que eleve o desvairado arrojo, Quando julga atingir a suprema verdade, No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!