Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 18 de 56

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Sol de Inverno

A Aguia Prisioneira

 

 

A Manoel da Silva Gayo

A AGUIA PRISIONEIRA

 

Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo, Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!

E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,

Da jaula hedionda a férrea porta escancarou…

A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra, Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava, Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.

Mas na ancia de luz que a devora sem treguas, Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia, Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas, Sem poder dissipar a treva que a rodeia.

E tão alto subiu no seu vôo desfeito,

Que de repente, não podendo respirar,

Sentiu que lhe estalava o coração no peito, E veio aos pés do escravo exanime rolar…

Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade, Por mais alto que eleve o desvairado arrojo, Quando julga atingir a suprema verdade, No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!