Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 35 de 56

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Sol de Inverno

Hymno Á Dor

 

 

Aos Condes de Sabugosa

HYMNO Á DOR

 

Sorri com mais doçura a boca de quem soffre, Embora amargue o fel que os seus lábios beberam; É mais ardente o olhar, onde como um aljofre, A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse, A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu; E não ha para nós consolação mais doce, Que o regaço de quem muito amou e soffreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua, Ao nosso coração nunca pode chegar…

Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua, Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,

É frio, como o olhar de quem nunca chorou; A Bondade é uma flor que se alimenta e cria Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime Uma augusta expressão… mesmo a Suprema Graça, Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime Que torna immorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida, Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo, Só de a vermos passar no tumulto da Vida Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.