Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 8 de 56

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Sol de Inverno

Capítulo VII

Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre, um dyonisiaco, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista, gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica. Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas, devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua ascendencia, do que do d'esse Feijóo escudeiro, do tumulo de Celanova, bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro, a quem o poeta consagra a poesia final da Alma triste.

O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a joie de vivre. Junqueiro chamava-lhe, então, o opiparo Feijó…

 

VII

Mas um dia, um grande infortunio,—a viuvez inconsolavel, o seu pobre lar em ruinas,—devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes que tanto o torturavam e entristeciam, —a elle, filho d'estas bemditas terras do Sul!…

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel torrão de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.

Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito, immobilisado para sempre!

E de novo ao sahir d'esta angustia demente, Sinto bem que tu és, para toda a amargura, A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva, Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida, —Borboleta celeste, ebria de Deus—se eleva Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.

Assim deve ter sido a sua—uma transição insensivel, uma serena Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura, sempre voltada para o Amor e para a Vida!

Luiz de Magalhães.