Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 34 de 56

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Sol de Inverno

Hymno Á Belleza

 

 

A Eugenio de Castro

HYMNO Á BELLEZA

 

Onde quer que o fulgor da tua gloria appareça, —Obra de genio, flôr d'heroismo ou sanctidade,— Da Gioconda immortal na radiosa cabeça, Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

—Como um pagão subindo á Acropole sagrada, Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso, Ou seja o Heroe que leva uma aurora na Espada, Ou o Sancto beijando as chagas do Leproso.

Essa luz sem egual com que sempre illuminas Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio Do mesmo foco em mil parábolas divinas: —Raios do mesmo olhar, ancias do mesmo seio.

Alta revelação que, baixando em segredo, O prisma humano quebra em angulos dispersos, Como a água a caír de rochedo em rochedo Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

É audácia no Heroe; resignação no Sancto; Som e Côr, ondulando em formas immortaes;

No mármore rebelde abre em folhas de acantho, E esmalta de candura a flora dos vitraes.

Oh Belleza! Oh Belleza! as Horas fugitivas Passam deante de ti, aladas como sonhos… Que importa onde ellas vão, d'outra força captivas, Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente, Brilham as aves como estrellas, e as estrellas, Como flores enchendo a noite refulgente, Deixam-se resvalar sobre quem vae colhê-las…

És tu que ás illusões dás juventude e forma, Tu, que talvez do ceu, d'onde vens, te recordes Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma Dissonáncias de dor em immortaes accordes.

Vejo-te muita vez,—luz d'aurora ou de raio,— Com um gládio de fogo a avançar no horizonte; Ou então, em manhãs transparentes de maio, Naiade toda nua a fugir d'uma fonte.

Outras vezes, de noite e a occultas, appareces, Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha, Trazendo no regaço inexgotaveis messes, Que Elle por tuas mãos sobre a miseria espalha…

Podesse eu revelar-te em estrophes aladas, Que partissem ao sol refulgindo em lavores, Com rimas d'oiro, em blau e purpura engastadas, Como versos que vão desabrochando em flores!

Mas a lingua não é sumptuosa bastante

Para nella deixar teu génio circumscripto; Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante, E a voz nem mesmo tem a eloquencia d'um grito!

Mas se para o teu culto, em esplendor externo, Não encontro uma prece altamente expressiva, Por ti meu coração arde d'um fogo eterno, Como chamma a tremer de lampada votiva!