Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 7 de 56

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Sol de Inverno

Capítulo VI

Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia ser um poeta popular. O seu publico, de conhecedores e dilettanti da arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a todos os secretos manejos de notoriedade banal.

Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo. Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma qualquer camelotte, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular com abundancia.

Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.

 

VI

A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um occasional desvio de destino.

Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu, porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver mundo… por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios proprios. Pensára em ser consul.

A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,—talvez ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação.

Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos serviços diplomaticos.

Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a apodrecer»—escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado, inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto, a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados encargos e mais arduos trabalhos—e doía-se de se não ver utilisado. O seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura.

Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade; tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola—o bom-senso.

Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.

E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros. A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que contava uma anedocta, o humour ligeiro, e levemente malicioso ás vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a expansiva jovialidade do seu forte temperamento—faziam d'elle um cavaqueador irresistivelmente atrahente.