Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 30 de 56

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Sol de Inverno

A Ventura

 

A Anthero de Figueiredo

A VENTURA

 

A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos,

Nunca, em alto lavor,

Nos meus versos deixou cariatides ou frisos De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.

Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando

No meu lar se installou;

A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando, E d'amor nunca mais um só verso rimou.

Mas d'essa adoração em que vivia absorta,

Um dia, ao despertar,

Viu que tinham levado a minha Noiva morta, E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.

Chorou… Sempre que a dor nos empolga e sacode

Como um arbusto ao vento,

Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.

Chorou… E desde então, a Musa dolorida

Vive numa anciedade A ouvir a minha dor no seu canto escondida, Mansamente, a chorar, como chora a saudade…