Sol de Inverno
A Ventura
A Anthero de Figueiredo
A VENTURA
A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos,
Nunca, em alto lavor,
Nos meus versos deixou cariatides ou frisos De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.
Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando
No meu lar se installou;
A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando, E d'amor nunca mais um só verso rimou.
Mas d'essa adoração em que vivia absorta,
Um dia, ao despertar,
Viu que tinham levado a minha Noiva morta, E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.
Chorou… Sempre que a dor nos empolga e sacode
Como um arbusto ao vento,
Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.
Chorou… E desde então, a Musa dolorida
Vive numa anciedade A ouvir a minha dor no seu canto escondida, Mansamente, a chorar, como chora a saudade…