Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 33 de 56

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Sol de Inverno

III Hymno Á Vida

III

HYMNO Á VIDA

 

A Agostinho de Campos

HYMNO Á VIDA

 

Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga Preso a ti, como o feto ao seio em que germina… Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga, Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio, Quem quer que sejas,—flôr d'inefavel deleite, D'ódio ou de fel,—és sempre o mesmo augusto seio Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho! —Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,— Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho, O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes, Na immarcessivel luz que os orbes incendeia; Passas no largo vento a derramar perfumes, Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica, Enleva os corações de jubilo e transporte, Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica, Se em Belleza sorri na máscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve, Mais obscuro se faz quanto mais o investigo; —Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve, Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem, O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça, Da treva apenas sae, dissipada a vertigem, Um immenso clamor que blasphema e soluça!

És o raio de sol, a tempestade e o vento; Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada; Ancia no coração, lava no pensamento,

O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,—és Tudo e és Nada!

Mão potente, que a rocha endurecida escarva, Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores; Fada occulta que tece o casulo da larva

E aos insectos iria as asas de esplendores…

Beijo d'onde a traição como um veneno escorre; Riso que se desfaz num amargo travor;

Larga estrada sem fim que a Ventura percorre, Como um cego a cantar pelo braço da Dor!

Quem quer que sejas,—tudo ou nada,—eu te bemdigo! Pelo esforço immortal da tua heroica belleza, Que, no revolto chão do soffrimento antigo, Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse, Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos, A onda humana através da historia se lançasse, Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo! Occulto coração, graça, illusão suprema! Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo, —A solução que importa? O que é grande é o problema!…