Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 51 de 56

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Sol de Inverno

A Lenda dos Cysnes

 

 

A Julio Dantas

 

Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben

versagt ist, weil Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick Deines Todes.

Herder.

A LENDA DOS CYSNES

 

Da praia longinqua, na areia doirada,

O Cysne pensava, fitando a Alvorada:

—«Que immensa ventura, na minha mudez, Se dado me fôsse cantar uma vez!»

—«Meu canto seria, na luz do arrebol,

Dos hymnos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago

O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto

Que a inveja confrange minh'alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes, Até d'alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tedio supremo,

Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,

Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»—

E o Cysne, em silencio, chorava, escutando A orchestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d'Apollo,

E o pobre a cabeça escondia no collo…

Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo, Com feixes de raios no fulvo cabello,

E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo:

—«No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo…»—

E nesse momento a Lyra Sem Par,

Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cysne, orgulhoso da graça divina,

Da Lyra d'Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes, Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de goso a ouvi-lo cantar…

E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cysne cantava, tirando da Lyra

Um hymno que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,

Que a vida lhe foge naquella canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apollo no seio de Thetis desceu,

O pobre do Cysne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;

Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,

Que o manto de luto com astros tecia.

Sollicita espera-o, das aguas á beira,

Do Cysne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de prompto regresse, Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las, Um panno d'enterro picado d'estrellas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,

Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, colleia nas ondas,

Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…

E o Cysne não volta, não pode voltar!

Chorosa viuva, nas aguas deslisa,

Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abondono nem sente canseira;

Caminha, caminha, fiel companheira, Apreciações da «Ilha os Amores» e do «Cancioneiro Chinês»