Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 26 de 56

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Sol de Inverno

Somnambula

 

(Noite de S. João)

A João Caetano da Silva Campos

 

Leia estes versos, cantando.

—Quem canta seu mal espanta!

Alma em saudades penando,

Só tem alivio se canta…

SOMNAMBULA

 

(Noite de S. João)

Passarinho trigueiro,

Põe-te na areia!…

A areia é d'oiro,—painço loiro…

Leito macio… Vê como o Rio

Vae socegado, todo enlevado,

Todo encantado na areia fina!

Passarinho trigueiro! Olha o salgueiro

Como se inclina,

A ver se as aguas

Pode beijar!

E o velho choupo, todo curvado,

Todo engelhado,

De tantas mágoas

Que viu passar!

Nas aguas mansas, folhas cahidas,

Como esperanças desfallecidas,

Lá vão perdidas nas aguas mansas,

Como esperanças

Desfallecidas…

Passarinho trigueiro,

Põe-te na areia!…

A velha ponte talvez te conte

Lindas historias para encantar,

Lindas historias da Lua Cheia,

Quando na areia põe a corar

O alvo linho

Do seu tear…

Passarinho trigueiro! pia baixinho!

Ouve as cantigas, que as raparigas,

No S. João,

Soltam ao vento como um lamento

Do coração!

 

……………………….

A vossa capella cheira,

Cheira ao cravo, cheira á rosa,

Cheira á flor da laranjeira…

Laranjeira desfolhada

Numa noite de orvalhada,

No leito d'algum linhar…

Mas a alcachofra cortada

Sabe alguem se vae seccar?!

Passarinho trigueiro,

Põe-te na areia!

A areia é doce como se fosse

Vergel macio para noivar…

E dorme o Rio… praia deserta…

Cuidado! Alerta! que a Lua espreita,

Nunca se deita, sempre a rondar.

Passarinho trigueiro,

Olha a estrella do boieiro

Que nunca dorme no ceu,

A ver se do seu rebanho

Alguma rêz se perdeu…

Olha o Rio! é côr d'estanho

Como um espelho a brilhar;

Cuidado! se é muda a areia,

Pode o Rio murmurar,

E ás noites a Lua Cheia

Vem com elle conversar…

Já vae alto o sete-estrêllo,

Vae despontar a alvorada;

Mas uma voz desgarrada,

Como um grito sem appêllo,

Passa a cantar pela estrada:

«Esta noite, na novena,

S. João pôs se a chorar…

Da minha dor tinha pena,

Sem me poder consolar.

As andorinhas voltaram,

Desabrocharam as flores,

E as andorinhas contaram

Que tinhas novos amores…

Ninguem mais penas soffreu

Nem dor maior supportou;

Quem amou nunca esqueceu,

Quem esqueceu nunca amou!

Ai! infeliz de quem passa!

Ninguem seu amor escolhe,

Pois o amor é uma desgraça,

Que sem se esperar nos colhe…

Ai, infeliz de quem passa!… ……………………….»

Passarinho trigueiro,

Não ha amor como o primeiro…

Vôa, vôa sem parar!

Deixa a Lua estremunhada,

Deixa o Rio a murmurar…

O amor tem a asa ligeira,

E antes que rompa a alvorada.

Leva o ramo de oliveira

Àquella dor desgarrada!