Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 19 de 56

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Sol de Inverno

A Selva Escura

 

A João Chagas

A SELVA ESCURA

 

Perdi-me no caminho solitario

D'uma floresta immensa e fria…

Medrosa ainda, a Noite lívida descia,

E o clarão do luar, como um pranto mortuário, Pelas folhas das árvores corria.

No silencio da Noite, o silencio da Selva

Enchia-se de vozes enigmáticas…

E os meus pés vacillavam sobre a relva,

Entre as sombras das árvores extácticas. Numa clareira funda, aguas dormentes,

Como um lago lunar, tremeluziam

Nas lágrimas de luz, altas e ardentes

Que das estrellas pálidas caíam.

Nem ruido de mar, folhas ou vento…

O mystério, porém, da Noite e da Floresta Enchia de terror meu pensamento,

Como um sopro boreal que me gelava a testa. Não sei se era visão, filha do Mêdo,

Se verdadeira apparição nocturna;

Mas da sombra profunda do arvoredo,

Que o luar tornava muito mais soturna, Vinham surgindo mysteriosamente

Phantasmas espectraes que eu distinguia Através do sudário transparente

Como o primeiro alvorecer do dia…

E por deante de mim todos passavam,

E olhavam-me e choravam…

De mágoa ou compaixão,—não sei dizê-lo; Mas tudo o que aos meus olhos evocavam Parecia-me um longo pesadelo…

Eram os Sonhos, as Chimeras mortas

Na minha morta Phantasia,

Que do vasto sepulcro abrindo as portas, Passavam nessa funebre theoria…

Projectos, Intenções, Ideias, Planos,

—Illusões d'um passado esquecido e desfeito, Na areia que rolou da ampulheta dos annos E que um vento de morte espalhou no meu peito. Era a Noiva feudal esquecida a scismar

Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu, Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar, Como um tropheu perdido o espadim de Romeu! Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,

Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas, E tu, Willi immortal das florestas sagradas, Loira d'olhos azues, como duas estrellas! Era a Glória, mas já sem a tuba estridente, Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar; Era a Ambição, captiva a sua asa fremente, Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar. Era o Orgulho… o Poder… a Riqueza… loucuras, Chimeras juvenis do meu abril risonho,

Borboletas azues, larvas escuras

Que deslisaram no meu sonho…

Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos, Por deante de mim, lentas, passavam…

E olhavam-me e choravam,

Como espectros de longos desenganos

Que os meus olhos das trevas evocavam… E olhavam-me e choravam,

Sumindo-se nas sombras da floresta,

Aos primeiros clarões da madrugada

Como um rumor de festa,

Despertavam, partindo em revoada,

As aves a cantar. O sol rompia

E as derradeiras névoas dissipava…

Tudo cantava e ria!

Só eu chorava… só eu chorava…

Só no meu coração não despontava o dia. Só eu chorava… só eu chorava…

Só eu soffria…