Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 48 de 56

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Sol de Inverno

A Vocação D'ibrahim

 

Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros, Que o oleiro antigo e rude em barro modelava, Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros, E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.

Só, na noite profunda e num amplo deserto, Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça, —Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,— Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.

E absorto nessa luz que do alto cahia,

Como um pressentimento augusto a illuminá-lo, Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia: —«Eis o Deus verdadeiro!»—e prostrou-se a adorá-lo.

Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua, Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro; E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua: —«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»

E outra vez, como chuva em calcinada areia, A paz, ao seu turbado espirito baixara;

Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia, Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.

Mas a Lua descreve a orbita marcada

E some-se ao primeiro esplendor do arrebol; Borda todo o horizonte uma fimbria doirada, E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.

Como o homem que sae d'um longinquo desterro, E de subito encontra o lar e encontra os seus, Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro, E de joelhos proclama:—«Eis o unico Deus!»—

Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros, Perdido na abstracção do seu culto fervente, Quando os olhos ergueu já luziam os astros, E do Sol mal se via um clarão no occidente.

Então, no seu assombro, o espirito perplexo, Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu Viu em tudo o que existe apenas o reflexo D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu…