Sol de Inverno
Cysne Branco
A Alberto d'Oliveira
CYSNE BRANCO
Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte, Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro, Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte, Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.
O gêlo, no lençol todo immovel das ondas, Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas, Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas, Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.
Vê que o torpor do frio o invade lentamente; Debate-se, procura o cárcere romper;
Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente: Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.
Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute; Solta gritos de dor em que lhe foge a vida; Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute, Parece uma canção no silencio perdida…
Melodia que a voz da Saudade acompanha, Amarga e triste como o exilio onde agoniza, Longe do claro sol que outras paysagens banha, Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.
Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas: —Tardes occidentaes de sanguínea e laranja, Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas, Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!
Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade, Tão esbatida vae essa triste canção,
Que não desperta já commoção nem piedade: Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.
E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira, Hallucinado e só, sob o silencio agreste,
Pensando que no azul, como um mar de saphira, Os astros a luzir são a geada celeste…