Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 27 de 56

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Sol de Inverno

Cysne Branco

 

 

A Alberto d'Oliveira

CYSNE BRANCO

 

Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte, Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro, Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte, Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.

O gêlo, no lençol todo immovel das ondas, Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas, Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas, Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.

Vê que o torpor do frio o invade lentamente; Debate-se, procura o cárcere romper;

Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente: Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.

Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute; Solta gritos de dor em que lhe foge a vida; Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute, Parece uma canção no silencio perdida…

Melodia que a voz da Saudade acompanha, Amarga e triste como o exilio onde agoniza, Longe do claro sol que outras paysagens banha, Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas: —Tardes occidentaes de sanguínea e laranja, Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas, Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!

Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade, Tão esbatida vae essa triste canção,

Que não desperta já commoção nem piedade: Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.

E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira, Hallucinado e só, sob o silencio agreste,

Pensando que no azul, como um mar de saphira, Os astros a luzir são a geada celeste…