Sol de Inverno
Hymno Á Solidão
Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima
Vive ut vis, sed cum aegrotabis
Justis lachrymis damnabis
Omnes mundi insulas.
O beata solitudo,
O sola beatitudo,
Piis secessicolis!
Cornelius, Martyr.
HYMNO Á SOLIDÃO
Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.
Mundo vasto que mil existencias povoam: Imagens, concepções, formas do sentimento, —Sonhos puros que nelle em belleza revoam E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.
Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra Esse fecundo chão onde se esconde e medra A semente que vae germinar na Palavra, Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!
Basta que certa luz de seus raios aqueça A semente que jaz na sua leiva escondida, Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça, De perfumes enchendo as estradas da Vida.
Sei que embora essa luz nem para todos tenha O mesmo brilho, o mesmo impulso creador, Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, Vivendo como um Deus no seu mundo interior.
E que mundo sublime, esse em que elle se agita! Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou, E em cuja creação o seu sangue palpita,
Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.
Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora… O passado e o porvir são ancias e saudades: Só no instante que passa a plenitude mora.
Sombra crepuscular, que a Noite não attinge, Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge, E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.
Mas então, innundando essa penumbra dôce, De não sei que sublime esplendor sideral, Como se a emanação d'um ser divino fôsse, Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.
Na vertigem que a vida exalta e desvaria, Pára alguem para ouvir um coração que bate? No seio mais formoso, o olhar que se extasia Vê o mundo que nelle em ancias se debate?
É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo, A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella, Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo…
E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura, Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, Como das mãos do artista, animando a esculptura, O mármore recebe a sua alma—a Belleza.
Se soffrer é pensar, na paz do isolamento, Como d'um calix cheio o liquido extravasa, A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento, E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.
Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio, Á superficie nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério Se conhece a riqueza accumulada nella.
Corações que a Existencia em tumulto arrebata! Esse oiro só se extrae do minério candente, No silencio, na paz, na quietação abstracta, Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente…