Sol de Inverno

António Joaquim de Castro Feijó · Capítulo 25 de 56

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Sol de Inverno

Cabellos Brancos

 

A D. Thomás de Mello Breyner

CABELLOS BRANCOS

 

Não repares na cor dos meus cabellos

Sem ler primeiro Anacreonte;

Verás que os sonhos juvenis, mais bellos, Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta é sempre moço;

O Coração nunca envelhece…

Basta um sorriso, um nada, um alvoroço, E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graça adolescente,

Jamais as Musas desdenharam

Da luz que treme incendiando o poente,

Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa,

Que foi na ceifa abandonada,

Ruth, apesar de moça e de formosa,

Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'inédita fragrancia

Em mãos provectas vão abrindo…

Abisag, ao sair quasi da infancia,

No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera,

D'esse connubio, oh maravilha!

Como se a ruina fecundasse a hera,

Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,

Quem as lembrara, se deixassem

Que mãos obscuras, mercenários dedos, A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos!

Mas que direi mais eloquente?

Não ha dias tão pallidos, e occasos

Como explosões d'uma cratera ardente?

Não repares na côr dos meus cabellos;

A branda luz que nelles arde,

Como o poente, das nuvens faz castellos, Tinge d'alva o crepusculo da tarde…

Muita vez os cabellos embranquecem

Na dor d'horriveis soffrimentos…

Não são os annos que nos envelhecem;

«São certas horas más, certos momentos…»